OPINIÃO

No subsolo da moral, o lixo é outro

Era uma vez uma ONG. Não uma ONG qualquer, mas uma daquelas com pedigree sindical, sotaque do ABC e cheiro de gabinete. Instaladinha no subsolo do lendário sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo — um cômodo de 40 metros quadrados, do tamanho de uma quitinete mal ventilada —, essa entidade de nome bucólico, Unisol, acaba de receber R$ 15,8 milhões do governo federal para uma nobre missão: retirar lixo da terra yanomami, em Roraima.

Não, caro leitor, você não leu errado. Uma ONG nascida sob o assoalho do templo do sindicalismo petista, dirigida por filiados do PT e apadrinhada por um dos oráculos da era lulista, o ex-ministro Gilberto Carvalho, recebeu, sem licitação e sem rubor, quase 16 milhões de reais para atuar num território onde não manda, não conhece, e — com todo o respeito — nem deveria estar.

Diz o governo que existem 70 toneladas de plástico abandonadas na região, consequência do garimpo e da negligência histórica que, curiosamente, também carrega a digital de administrações anteriores do próprio PT. Agora, o lixo será removido pela ONG que tem como vice-presidente um tal de Caramelo Duarte, que acumula a função de vice do próprio sindicato que abriga a ONG. O presidente da Unisol? Um velho conhecido do movimento sindical — Arildo Lopes, ex-diretor da mesma entidade. Ambos, é claro, com a carteirinha do partido em dia.

A mágica? Um convênio firmado via Secretaria de Economia Popular e Solidária, aquela pasta que soa como eufemismo para “caixa-preta disfarçada de inclusão social”, atualmente nas mãos do mesmo Gilberto Carvalho. Uma secretaria onde os recursos públicos são direcionados como se fossem selos de cortesia — basta estar na roda certa.

Não houve licitação, concorrência pública ou mesmo um leve disfarce de impessoalidade. Como já virou moda nesta república de ONGs e afilhados, escolhe-se a dedo, deposita-se à vista, e o dinheiro some tão rápido quanto apareceu. Em dezembro, o valor já havia sido pago integralmente. Sim, é isso mesmo: dinheiro público entregue com pontualidade suíça a uma entidade de porão sindical paulista para operar a céu aberto na floresta amazônica.

E por falar em ONGs, nunca se viu tantas com tanto poder e tanto apetite. É como se cada ONG hoje fosse uma microfilial partidária com acesso direto ao Tesouro Nacional. Onde há ONG, há um militante. Onde há convênio, há um companheiro. E onde há silêncio da imprensa, há um extrato bancário pulsando nas sombras.

Mas, afinal, o que é isso senão mais um capítulo do lulismo raiz, onde o Estado vira curral, a causa vira pretexto, e o orçamento vira parque de diversões para os velhos camaradas? Onde há fumaça, há plástico. E onde há plástico, há um sindicato pronto para faturar com a reciclagem moral da esquerda.

Este é apenas um contrato. Um caso. Uma gota na torrente de R$ 254 milhões reservados para a “gestão de políticas para povos indígenas”.

Quanta política, quanta gestão, quanto indígena de verdade isso alcança? Mistério. O que sabemos é que, enquanto o país vasculha lixo em Roraima, o verdadeiro entulho da República se acumula em Brasília — disfarçado de projeto social, coberto de ideologia e embalado em notas fiscais frias.

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