OPINIÃO

O dragão sereno e o tapete vermelho: lições de uma China que aprendeu a olhar para dentro

Na contramão dos alarmes que soam no Ocidente toda vez que Donald Trump ameaça reerguer muros tarifários, há um silêncio curioso — e revelador — que paira sobre os galpões industriais da China.

Quem captou essa atmosfera foi Giovanni Marins Cardoso, presidente e cofundador do Grupo MK (Mondial e Aiwa), durante sua 36ª viagem ao país asiático. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Cardoso compartilhou percepções que valem mais do que qualquer boletim de mercado: um retrato da China que não entra nos gráficos, mas pulsa nas entrelinhas de sua economia.

Ao contrário da expectativa de um ambiente empresarial tenso, o que Cardoso encontrou foi serenidade. E isso tem nome e sobrenome: mercado interno. A China que conhecemos como fábrica do mundo hoje consome, em casa, grande parte do que produz. O empresário resume com um dado eloquente: apenas 16% das exportações chinesas vão para os Estados Unidos. Os outros 84% fluem para o resto do planeta — e, se necessário, boa parte pode ser absorvida internamente por um consumidor chinês que já tem gosto, renda e apetite.

Por isso, ele refuta com convicção o temor recorrente de que o Brasil possa ser inundado por excedentes chineses, caso os tarifaços de Trump avancem. “Vai sobrar um pedaço que iria para o mercado americano, sim. Mas os EUA vão ter de achar uma solução: vão ficar sem cafeteira, micro-ondas, airfryer? Eles não produzem nada disso. Então, haverá um longo acordo logo à frente. Depois de dois ou três meses, o mundo vai estar normal de novo — com outras taxas, com outros movimentos, mas normal.”

Mais que números, Cardoso observou nuances. O tratamento dado aos brasileiros mudou. “Antes, nos estendiam um tapete bege. Agora, é um tapete vermelho.” A frase, pintada com ironia sutil, revela um gesto simbólico: mais do que gentileza, há uma reconfiguração estratégica. A China passou a tratar os parceiros emergentes — como o Brasil — não como figurantes, mas como participantes relevantes de um novo tabuleiro comercial global.

Essa nova cortesia, no entanto, não vem embalada em descontos ou facilidades. As margens continuam apertadas e os preços seguem estáveis. Mas há um refinamento nos modos: mais atenção, mais agilidade, mais disposição para relacionamentos duradouros. Os chineses, nota-se, jogam xadrez com décadas de antecedência — e não truco com blefes apressados.

A entrevista concedida por Giovanni Cardoso ao Estadão é, no fundo, uma crônica econômica em tom diplomático. Ela revela uma potência que aprendeu a se blindar olhando para dentro, e a responder aos ruídos externos com planejamento — não com pânico. Um país que, mesmo acuado por tarifas, não reage com retaliação, mas com estratégia.

E talvez essa seja a lição mais útil para tempos tão voláteis: quem tem chão firme sob os próprios pés, não se assusta com as tempestades alheias.

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Um Comentário

  1. Parabéns pela sua análise Caio. As conclusões do Cardoso refletem a realidade e a atual serenidade chinesa. Basta ver o caso de Taiwan, território que a china considera como seu e que a mídia dos EUA anunciava como iminente uma invasão da China. Qual era o ponto ? Os Chips, cuja produção Taiwan domina (92% do mercado). Para evitar confusão, a China não invadiu, não brigou e apenas convocou seus melhores técnicos e passou a produzir Chips iguais ou melhores. Solução zen. Tudo dominado e em paz

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