OPINIÃO

A próxima década ainda será americana: 7 razões incontestáveis

Virou moda entre analistas e comentaristas prever o inexorável declínio dos Estados Unidos. A narrativa é conhecida: uma nação endividada, polarizada, perdendo terreno industrial para uma China ascendente que, segundo os profetas da decadência, inevitavelmente assumiria a liderança global.

Ouvimos isso nos anos 1980 com o Japão, repetimos nos anos 2000 com a União Europeia, e agora, com ainda mais convicção, proclama-se que o século XXI será chinês.

Entretanto, entre o alarme retórico e a realidade factual, há um abismo que raramente se explora com a devida honestidade intelectual. É precisamente esse abismo que Walter Maciel, CEO de renomada gestora de ativos no mercado brasileiro, atravessa com rara lucidez em artigo recentemente publicado no InfoMoney. Sob o título “A Fortaleza Americana: por que a próxima década pertence aos Estados Unidos”, o texto de Maciel não apenas contesta a narrativa declinista, mas a desmonta sistematicamente, argumento por argumento, dado por dado.

E o faz não com euforia nacionalista ou otimismo infundado, mas com a aritmética teimosa dos fatos.

Os Estados Unidos não estão simplesmente resistindo à competição chinesa — estão ampliando vantagens estruturais que nenhum rival, por mais determinado que seja, consegue replicar. São sete domínios fundamentais nos quais os americanos estabeleceram posições monopolísticas ou quase monopolísticas, vantagens tão profundamente enraizadas em fatores estruturais que transcendem governos, ciclos econômicos ou flutuações políticas.

Comecemos pelo mais visível e talvez mais determinante: a capacidade inovadora americana. Em 2024, mais de 90% das inovações disruptivas em inteligência artificial originaram-se dos Estados Unidos. O país concentra 70% da capacidade global de computação avançada e 60% dos principais pesquisadores da área. Os modelos de linguagem que estão transformando a economia global — GPT, Claude, Gemini — são todos americanos. Mas esse domínio não é mero acidente ou resultado de investimento governamental massivo. É, como Maciel acertadamente observa, produto de um ecossistema único: universidades de excelência mundial que funcionam como incubadoras de talento e pesquisa de ponta, capital de risco abundante e agressivo, políticas de imigração que, apesar das controvérsias, continuam atraindo os melhores cérebros do planeta, e, crucialmente, uma cultura que não apenas tolera o fracasso, mas o transforma em aprendizado.

O Vale do Silício já foi declarado morto inúmeras vezes — após o estouro da bolha das pontocom em 2000, após a crise financeira de 2008, e novamente durante a pandemia. No entanto, cada vez que reaparece, está mais dominante. Por quê? Porque a inovação americana não depende de planejamento central ou protecionismo. É orgânica, descentralizada, resiliente. Enquanto outros países tentam “criar” seus próprios vales do silício através de decretos governamentais, os Estados Unidos simplesmente continuam produzindo as empresas que definem cada nova era tecnológica.

Essa capacidade de inovar perpetuamente conecta-se diretamente com outro domínio igualmente estratégico: o sistema financeiro. Durante meio século, analistas têm anunciado a morte iminente do dólar como moeda de reserva global. A cada crise — do abandono do padrão-ouro em 1971 à crise financeira de 2008, das sanções contra a Rússia ao surgimento do yuan digital — os mesmos prognósticos sombrios ressurgem. E, no entanto, a cada crise, o dólar emerge fortalecido. Os números não mentem. Segundo o FMI (COFER, 2023), 59% das reservas cambiais globais continuam em dólar. De acordo com o Banco de Compensações Internacionais (BIS, 2022), 88% de todas as transações cambiais no mundo têm o dólar de um lado. E 70% da dívida global é emitida na moeda americana.

A resposta para essa permanência está na profundidade incomparável dos mercados financeiros americanos. Os Estados Unidos possuem mercados de ações avaliados em US$ 50 trilhões, mercados de dívida de US$ 51 trilhões, e mercados privados de US$ 15 trilhões. Nenhum outro país, nem remotamente, oferece a combinação de profundidade, liquidez, transparência e, fundamentalmente, confiança institucional que os mercados americanos proporcionam.

Quando a China espirra economicamente, o capital não foge para o yuan. Fuge para os Treasuries americanos. Quando há instabilidade global, investidores não procuram refúgio em Xangai. Procuram em Nova York. Isso não é propaganda. É o comportamento revelado do mercado global, o voto de confiança mais honesto que existe.

Mas poder financeiro sem lastro material é castelo de cartas. E é aqui que entra outra transformação notável e frequentemente subestimada. Nos anos 1970, durante as crises do petróleo, os Estados Unidos pareciam condenados à dependência energética crônica. Filas intermináveis em postos de gasolina, racionamento, vulnerabilidade estratégica aos caprichos da OPEP. Aquela era parecia confirmar que a América estava à mercê de produtores externos.

Cinco décadas depois, a situação inverteu-se completamente. Segundo a Agência Internacional de Energia (EIA, 2023), os Estados Unidos são hoje o maior produtor mundial de petróleo e gás natural, superando Arábia Saudita e Rússia. Mais do que isso: tornaram-se exportadores líquidos de energia. A revolução do shale oil — xisto betuminoso — não apenas reverteu a dependência, mas transformou os EUA em potência energética.

As consequências são múltiplas e estratégicas. Internamente, energia barata reduziu custos industriais, tornando a manufatura americana mais competitiva. Externamente, o gás natural liquefeito (LNG) americano tornou-se arma geopolítica, permitindo que Europa reduzisse dependência do gás russo. E, olhando adiante, os Estados Unidos lideram também na diversificação: energia nuclear modular de nova geração, expansão acelerada de renováveis, tecnologias de captura de carbono. Energia barata e abundante é o oxigênio invisível da economia moderna. É o que permite rodar datacenters massivos para inteligência artificial, sustentar cadeias industriais complexas, projetar poder militar globalmente. Nenhuma outra grande economia combina independência energética com capacidade de exportação.

E aqui chegamos ao que talvez seja o fator mais implacável de todos: a geografia. Há elementos que nenhuma quantidade de planejamento ou investimento pode alterar, e a geografia é o mais teimoso deles. Jared Diamond, em sua obra seminal “Armas, Germes e Aço”, demonstrou como vantagens geográficas determinaram o destino de civilizações inteiras.

Os Estados Unidos são, nesse aspecto, absurdamente privilegiados. Dois oceanos protegendo as costas leste e oeste, proporcionando defesa natural e acesso privilegiado ao comércio global. Ao norte e ao sul, vizinhos estáveis — Canadá e México — com quem mantém relações comerciais intensas, mas sem ameaças existenciais. Internamente, rios navegáveis conectando o coração industrial às costas, reduzindo dramaticamente custos de transporte. Terras férteis em abundância, tornando o país autossuficiente em alimentos e grande exportador agrícola.

Essa configuração geográfica provou seu valor nas duas Guerras Mundiais, quando os Estados Unidos puderam mobilizar sua economia sem temer invasão ou bombardeio. E mantém sua relevância estratégica hoje. Em um mundo de cadeias de suprimento vulneráveis e conflitos ressurgentes, a geografia americana é fortaleza natural. Compare-se isso à China: quatorze fronteiras terrestres, muitas com países históricos rivais; mares circundantes — Mar da China Meridional, Mar da China Oriental, Estreito de Malaca — controlados ou fortemente patrulhados por aliados americanos; dependência crítica de importações de energia, alimentos e matérias-primas que atravessam rotas marítimas vulneráveis. A geografia não determina tudo, mas determina limites. E os limites chineses são substancialmente mais estreitos.

Mas geografia sem demografia apropriada é território vazio. E nesse aspecto, o contraste entre Estados Unidos e China é gritante. A China enfrenta o colapso demográfico mais abrupto da história moderna: perde 10 milhões de trabalhadores por ano enquanto ganha 20 milhões de aposentados. O país que implementou a política do filho único agora colhe a tempestade dessa decisão. Uma população que envelhece rapidamente, força de trabalho em encolhimento acelerado, custos crescentes com previdência e saúde. Os Estados Unidos, por contraste, têm o que Maciel chama de “vantagem de importar juventude”. Mais de um milhão de imigrantes legais entram anualmente no país, segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS, 2023). Esses imigrantes não são passivos demográficos — são trabalhadores, empreendedores, inovadores. Cada engenheiro indiano ou chinês que permanece no Vale do Silício representa PIB futuro, patentes futuras, empresas futuras.

Há, naturalmente, debates acalorados sobre imigração nos Estados Unidos. Mas é crucial separar retórica política de realidade estrutural. O foco das políticas restritivas é coibir imigração ilegal e criminalidade transnacional, não travar a entrada de talentos. O sistema de vistos H-1B para trabalhadores qualificados, os programas de estudantes internacionais nas universidades americanas, o magnetismo cultural que atrai os melhores cérebros — tudo isso continua operando.

A América sempre foi, e continuará sendo, o destino preferencial para quem busca realizar seu potencial máximo. Nenhum país pode competir com essa capacidade de renovação demográfica perpétua. Enquanto a China envelhece sem enriquecer plenamente, os Estados Unidos importam juventude que já chega com educação e ambição.

Essa capacidade de atrair talento global relaciona-se diretamente com outra dimensão fundamental: a rede de alianças. Poder não é apenas capacidade individual, mas também relações. E nisso, os Estados Unidos são incomparáveis. Nenhum país na história construiu teia de alianças tão extensa, profunda e durável quanto a americana. OTAN na Europa, AUKUS no Pacífico, Quad com Índia, Japão e Austrália, G7 entre democracias desenvolvidas, Five Eyes em inteligência — essas não são alianças de conveniência. São estruturas institucionais profundas, construídas ao longo de décadas, baseadas em valores compartilhados, interesses mútuos e confiança acumulada.

O PIB combinado dos aliados americanos supera US$ 50 trilhões, quase metade dos US$ 110 trilhões do PIB mundial em 2024, segundo o FMI. Isso significa que, em qualquer confronto econômico ou estratégico, os Estados Unidos não agem sozinhos. Agem com a força econômica combinada das maiores economias desenvolvidas do planeta. E essas alianças não são abstratas. São operacionais e concretas. Maciel menciona Taiwan, que o Pentágono vem transformando em “porco-espinho” — uma ilha tão densamente armada com sistemas defensivos que invadi-la seria operação suicida. Essa estratégia de dissuasão pela negação só funciona porque há comprometimento americano crível e coordenação com aliados regionais como Japão e Coreia do Sul.

A China, por contraste, tem o quê? A Rússia, economia do tamanho da Itália, cada vez mais dependente. Coreia do Norte, pária internacional. Paquistão, país falido em crises recorrentes. Não há OTAN chinesa. Não há G7 chinês. Não há teia de alianças democráticas apoiando Pequim. Porque alianças profundas não se constroem com coerção ou mercantilismo cru. Constroem-se com reciprocidade, previsibilidade, valores compartilhados — exatamente aquilo em que a América investe há oito décadas.

E isso nos leva à dimensão talvez mais sutil, mas não menos poderosa: a influência cultural. Soft power é termo frequentemente mal compreendido. Não é propaganda governamental ou diplomacia cultural cosmética. É, como corretamente define Maciel, aspiração. É fazer com que outros países queiram aquilo que você tem, imitem aquilo que você faz, falem a língua que você fala. E nisso, os Estados Unidos permanecem imbatíveis. O inglês americano é a língua franca da ciência, publicada em todos os principais journals acadêmicos. É a língua dos negócios, falada em salas de reunião de Tóquio a São Paulo. É a língua da internet, dominando conteúdo, plataformas e códigos de programação. Aprender inglês não é excentricidade. É necessidade para quem quer participar plenamente da economia global.

Hollywood exporta sonhos. Não apenas filmes, mas aspirações, estilos de vida, valores. Serviços de streaming americanos — Netflix, Disney+, HBO Max — chegam diretamente aos smartphones de bilhões de pessoas. Música pop americana domina paradas globais. Universidades americanas são aspiração máxima para estudantes do mundo inteiro. Marcas americanas — Apple, Google, Nike, Coca-Cola — são globalmente reconhecidas e desejadas. A China exporta vigilância. Exporta censura. Exporta sistemas de crédito social. Isso não gera aspiração. Gera receio. Soft power genuíno não precisa de visto de entrada nem aprovação governamental. Simplesmente se espalha porque pessoas, livremente, escolhem consumi-lo. E nisso, a América não tem rival.

Esses sete domínios — inovação, finanças, energia, geografia, demografia, alianças e cultura — não são construtos teóricos ou projeções otimistas. São reforçados diariamente por políticas concretas e investimentos estratégicos. O Departamento de Estado americano articula estratégia de friend-shoring, aproximando cadeias produtivas de aliados confiáveis como Índia, Vietnã e México, reduzindo dependência chinesa. O Tesouro moderniza infraestrutura financeira, incorporando stablecoins e explorando Treasuries tokenizados. O Congresso, em rara demonstração de consenso bipartidário, aprova investimentos massivos em semicondutores (CHIPS Act), energia nuclear modular e datacenters para inteligência artificial.

Enquanto isso, a China confronta não vantagens competitivas a serem alcançadas, mas impossibilidades matemáticas a serem contornadas. Sua economia, como observa Maciel, funciona como panela de pressão sem válvula. O sistema político não possui mecanismos de autocorreção. Erros não são admitidos, mas enterrados, apenas para ressurgir ampliados. Capital é desperdiçado em fábricas zumbis mantidas vivas por crédito estatal porque fechá-las significaria desemprego e instabilidade. Bancos provinciais escondem montanhas de empréstimos podres porque revelar a verdade desestabilizaria o sistema.

O Japão dos anos 1990 envelheceu enfrentando crise de endividamento semelhante. Mas tinha válvulas democráticas. Governos caíam, políticas mudavam, ajustes dolorosos eram feitos. A União Soviética, por contraste, implodiu porque seu sistema não permitia admissão de erros nem correção de rota. A China enfrenta simultaneamente os dois dilemas: envelhecimento demográfico japonês com rigidez soviética, tudo isso agravado por bolha de endividamento que supera o PIB e por dependência externa de recursos críticos.

Jared Diamond, em outra obra (“Colapso”), demonstrou que civilizações ruíram historicamente quando elites dobraram apostas em modelos comprovadamente falidos, recusando-se a reconhecer realidades inconvenientes. A China corre exatamente esse risco. Os Estados Unidos, em contrapartida, possuem algo único: a capacidade de errar publicamente e corrigir coletivamente. Imprensa livre expõe problemas. Eleições punem incompetência. Mercados recompensam eficiência. Universidades geram crítica. Esse ecossistema de autocorreção perpétua é, talvez, a vantagem mais subestimada e mais valiosa.

Walter Maciel encerra seu artigo invocando Mark Twain: “os fatos são teimosos”. E acrescenta que a aritmética é o fato mais teimoso de todos. Entre narrativas sedutoras de decadência e ascensão, entre wishful thinking ideológico e alarmes apocalípticos, há uma realidade material feita de números, estruturas, instituições e geografia. Essa realidade, quando examinada honestamente, não sustenta a tese do século chinês. Sustenta, ao contrário, a continuidade da supremacia americana baseada em vantagens estruturais que se acumulam, se reforçam mutuamente e se provam, ano após ano, impossíveis de replicar.

Isso não significa que os Estados Unidos sejam perfeitos ou imunes a crises. Significa que possuem mecanismos para absorver choques, corrigir erros, renovar-se perpetuamente. Significa que controlam os verdadeiros monopólios estratégicos da era moderna: inovação, finanças, energia, geografia, demografia, alianças e cultura.

Significa que a próxima década, como as anteriores, será americana. Não porque seja conveniente acreditar nisso. Mas porque os fatos, teimosamente, não permitem outra conclusão.

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