OPINIÃO

O dilema europeu: entre a guerra e a ilusão da paz

Baseio-me aqui no excelente levantamento factual de Paulo Filho, publicado na Gazeta do Povo, que descreve com precisão cirúrgica o desconforto existencial da Europa — esse continente que, desde o fim da Segunda Guerra, habituou-se a um luxo perigoso: paz barata, energia barata e uma segurança terceirizada ao Tio Sam. Um tripé conveniente enquanto durou; um castelo de cartas quando o vento veio do Leste.

A invasão covarde da Ucrânia pela Rússia expôs o que todos sabiam e ninguém dizia: a Europa não é mais protagonista nem da guerra que acontece no seu quintal. Trump, de volta ao centro do tabuleiro, negocia com Moscou uma paz embrionária em que os europeus são meros figurantes — aqueles convidados que só descobrem o jantar no dia seguinte, pela imprensa.

É o retrato de um continente que perdeu a voz, perdeu os músculos e, sobretudo, perdeu a ilusão de que poderia navegar o século XXI apoiado na velha bússola atlântica.

A frase repetida por Anders Fogh Rasmussen soa hoje como epitáfio: “A Europa se acostumou à segurança americana, à energia russa barata e aos manufaturados chineses baratos.”

Pois agora perdeu os três.

Enquanto isso, Moscou testa os limites europeus com drones indecifráveis, incursões aéreas, movimentos navais e até sabotagem ferroviária na Polônia — pequenos recados enviados com a sutileza de um urso esfregando as costas no batente da porta. Tudo para lembrar que a Rússia continua lá, armada até os dentes, nuclearmente confiante, e com um mapa mental em que boa parte do Leste não passa de quintal histórico.

A resposta europeia tenta ensaiar um despertar tardio. Gastos militares dispararam. Planos logísticos de guerra ressuscitaram. O serviço militar obrigatório voltou a ser pauta em países que há setenta anos acreditavam que o alistamento havia se aposentado junto com o medo.

Polônia, Suécia, Dinamarca, Estados Bálticos — todos revisando os próprios instintos, como quem se lembra que a vida real não é conferência de cúpula.

Mas exércitos não se fazem com boas intenções: exigem soldados. E soldados exigem sociedades psicologicamente disponíveis para aceitar o que o general francês Fabien Mandon, com honestidade desconcertante, precisou verbalizar: se a guerra vier, filhos europeus morrerão. Algo que não cabe no imaginário de um continente educado a discutir férias, impostos e sustentabilidade — nunca trincheiras.

No centro desse labirinto permanece o impasse original: a paz só virá quando a Rússia e a Ucrânia aceitarem condições mutuamente exclusivas. Moscou quer manter as áreas ocupadas — e, de quebra, a prerrogativa histórica de tratar a Ucrânia como peça restaurável da velha mãe Rússia. Kiev rejeita a proposta por aquilo que é: capitulação, mutilação territorial, dissolução nacional. E a Europa, consciente de que qualquer concessão dessa natureza equivaleria a abrir a porteira para invasões futuras, tampouco aceita a imposição de Putin.

Assim, a guerra estaciona porque não há ponto de encontro entre uma potência revisionista e um país que luta por sua soberania. E a paz estaciona porque a Europa, debilitada em voz e músculo, ainda não encontrou seu lugar nem no front nem na mesa.

Resta saber se o povo europeu, moldado por décadas de paz e conforto, despertará a tempo.

Artigos relacionados

2 Comentários

  1. Está faltando legitimidade para o Zelenski conduzir qualquer negociação. O mandato dele venceu há quase 3 anos e foi agora manchado pela corrupção, chefiada pelo ministro n° 1 do Zelenski, obrigado a se demitir. Os europeus vinham derramando euros para ajudar a Ucrânia, mas fecharam as torneiras por causa da corrupção. Agora estão forçando-o a convocar eleições. Que dó desse sofrido povo ucraniano.

  2. Tempos difíceis criam homens fortes, tempos fáceis criam homens fracos. Esta é a Europa de hoje.
    E viva o “politicamente correto” tão defendido por eles.

Deixe um comentário para Darci L. Pessali Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo