OPINIÃO

Banco Master — o golpe que roubou bilhões e o último fiapo de vergonha institucional do Brasil

Quando se imaginava — note bem, imaginava — que o Supremo Tribunal Federal já havia ultrapassado todos os estágios dos piores desvios éticos possíveis e previsíveis, surge o caso Banco Master para provar que a falta de pudor da Corte não tem limites.

Um banco liquidado pelo Banco Central após um rombo bilionário que atingiu mais de 1,5 milhão de investidores, devastou fundos de previdência estatais e queimará um terço do Fundo Garantidor de Crédito para tapar o buraco, arrasta o STF para a mais completa auto-desmoralização.

No pano de fundo, relações promíscuas que atravessam banqueiros, diretores, advogados, padrinhos políticos e ministros do Supremo, não como árbitros distantes, mas como parte ativa de uma confraria com toga.

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi preso pela Polícia Federal quando prestes a deixar o país. Onze dias depois, estava solto. Alegou-se “foro adequado”, mencionou-se um contrato onde aparecia o nome de um parlamentar, e o processo ascendeu ao Supremo como se obedecesse a uma lógica inevitável até cair nas mãos do ministro Dias Toffoli.

O magistrado, então, decretou sigilo em grau tão elevado que transformou a investigação em caixa-preta institucional: sem decisões visíveis, sem nomes, sem registro de advogados. Sigilo esse que não soa zelo processual, mas autoproteção. Aliás, o estrago que Dias Toffoli tem promovido no combate à corrupção tornou-se capítulo obrigatório da impunidade nacional.

Foi nesse ambiente de confidencialidade hermética que vieram à tona as relações de convivência que orbitam o caso.

Toffoli viajou para assistir à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras, em Lima, no jatinho particular do empresário e ex-senador Luiz Oswaldo Pastore, ao lado do advogado Augusto Arruda Botelho, defensor do diretor de compliance do Banco Master no Supremo.

O ministro confirma o voo, confirma a companhia e garante que, durante o trajeto, não se falou sobre o processo. Que alívio. É reconfortante saber que a justiça brasileira, além de célere, prima pelo lazer e pela habilidade de não tocar em assuntos de relevância nacional enquanto sobrevoa o continente rumo a uma partida de futebol. Três dias depois dessa viagem, Toffoli decretou o sigilo e atraiu para si a condução do processo. Mero acaso entre uma coisa e outra, claro.

Mas o clímax ainda estava por vir. Já se sabia que o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes havia sido contratado pelo Banco Master. O que o país desconhecia eram os valores: um contrato de R$ 129 milhões em três anos, equivalente a R$ 3,6 milhões mensais, para representar o banco “onde fosse necessário”, sem objeto definido e com prioridade absoluta nos repasses, segundo mensagens internas da instituição.

A cifra foge completamente dos padrões — mesmo daqueles praticados pelas bancas mais caras e estreladas do país — e causou espanto até entre os próprios advogados que atuam no caso, todos eles regiamente remunerados, mas subitamente convertidos em figurantes de luxo. Não parecia pagamento por causa — mas por qualquer causa. Três milhões e seiscentos mil reais por mês não compram apenas advocacia: compram ambiente, expectativa e talvez futuro. É o tipo de acordo que ultrapassa a fronteira da remuneração e adentra o terreno das suspeitas.

Em qualquer democracia minimamente séria — daquelas em que a liturgia do cargo não é fantasia de gala — um escândalo que envolve sigilo absoluto, viagens recreativas com advogados de investigados, contratos familiares milionários e coincidências de calendário tão perfeitas não terminaria em silêncio. Seria objeto de apuração rigorosa, com afastamento preventivo, análise de conflito de interesses, questionamentos sobre decoro e suspeição.

Aqui, porém, não há notas oficiais, não há explicações, não há constrangimento. Há silêncio — um silêncio que fala mais alto do que qualquer justificativa. Um silêncio de quem se coloca acima do bem e do mal, acima da lei e da ordem. E, quando as justificativas aparecem, soam como deboche.

O episódio Banco Master talvez seja lembrado como o maior rombo financeiro recente do país. Mas o verdadeiro prejuízo, o incalculável, é outro: quando o guardião da Constituição parece esquecer que também precisa protegê-la de si mesmo.

Há golpes que roubam cifras — e golpes que roubam o país da capacidade de acreditar em si. O primeiro é crime. O segundo é sentença. E, ao que parece, já foi proferida.

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2 Comentários

  1. O assunto é podre e nojento. O texto revela bastidores inimagináveis pela população. Mas o seu texto merece elogios pela clareza e adequada contextualização. Precisamos que mantenha essa linha de exposição pública das falcatruas para que mais pessoas saibam e, quiçá, venham a se conscientizar da “pobreza moral” de seus líderes.

  2. É Caio, é desanimador assistir a esse espetáculo. O STF parece regido pelas leis da Física – exerce um poder gravitacional incontrolável, absoluto. Atrai tudo o que gravita no seu entorno, criando um buraco negro que não deixa escapar nada, nem a luz. Daí o nome de buraco negro. Não há luminosidade, tudo é escuro. Essa força gravitacional cria as suas próprias regras, as suas próprias leis, desafiando as leis naturais. É o velho ditado espanhol: crie corvos e eles arrancarão seus olhos.

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