OPINIÃO

Pleno emprego — a estatística como marketing

O governo comemora o que chama de pleno emprego como quem estoura champanhe antes da virada: cedo demais, alto demais e — convenhamos — sem o mérito que a etiqueta exige. Nas redes sociais, o presidente exibe o menor índice de desemprego da série histórica, 5,4%, como se o Brasil fosse uma Suíça tropical onde quem não trabalha está apenas à espera da vaga dos sonhos. É um anúncio vistoso, com o brilho de propaganda eleitoral e a profundidade de um outdoor de beira de estrada.

A revista Veja, em sua edição de 5 de dezembro, traz na capa um título que resume o desconforto: O Mito do Pleno Emprego. A reportagem cumpre o papel de lançar luz para além da vitrine. A plateia olha para o número de 5,4%, enquanto o essencial permanece atrás da cortina. No gráfico publicado pela revista, a legenda é taxativa: não é bem assim. Se fossem incluídos na conta aqueles que fazem bicos, os subocupados com jornadas quebradas e os milhões que deixaram o mercado de trabalho após ingressarem no Bolsa Família, o índice real seria de 15,6%.

Ou seja, o pleno emprego existe — desde que metade da realidade fique fora da foto.

Roberto Campos, com o humor ácido que o tempo apenas aprimorou, cunhou a frase que parece feita sob encomenda: as estatísticas são como o biquíni — o que revelam é interessante, mas o que escondem é essencial. É exatamente o caso. O país celebra o número exposto; o problema continua na parte encoberta.

O Brasil parece trabalhar muito — mas para produzir a aparência de que todos estão trabalhando. Usa-se a comunicação para completar o que a economia não entrega; ajustam-se os números para sustentar o discurso. Não estamos diante de um deslize interpretativo ou de otimismo exacerbado, mas da manipulação consciente da estatística para alimentar a narrativa conveniente.

Festejar pleno emprego com um índice que ignora bicos, subocupação e desistentes do mercado de trabalho não é um detalhe técnico — é uma escolha. Uma escolha deliberada e útil. Porque números, quando manuseados com destreza, fazem mais do que fatos: custam menos, rendem manchetes e chegam mais rápido ao eleitor que não tem tempo nem meios para conferir o rodapé.

No fim das contas, não se trata de um país em pleno emprego, e sim de um governo em plena propaganda — aquela que transforma estatística em milagre, omissão em conquista e engodo em esperança.

E sempre haverá quem acredite. Afinal, para enganar os incautos, basta mudar o número — e repetir o post.

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2 Comentários

  1. O percentual de 15,6% mencionado no artigo Caio refere-se a um indicador composto apresentado pela revista Veja na edição de 5 de dezembro de 2025, na reportagem “O Mito do Pleno Emprego”. Trata-se de uma taxa ampliada de subutilização da força de trabalho, construída editorialmente a partir de dados da PNAD Contínua/IBGE.
    Enquanto o desemprego oficial (5,4%) segue a metodologia internacional da OIT, considerando apenas indivíduos que não têm trabalho, procuraram emprego e estão disponíveis, a taxa ampliada incorpora outros grupos relevantes para a análise econômica, tais como: subocupados por insuficiência de horas, trabalhadores informais ou eventuais (“bicos”), desalentados, e pessoas que se retiraram da força de trabalho por desestímulo ou condições socioeconômicas.
    A Veja agregou esses componentes para estimar um quadro mais abrangente da subutilização total da força de trabalho, chegando ao índice de 15,6%. O valor não substitui a taxa oficial de desemprego, mas complementa a interpretação do mercado de trabalho, evidenciando discrepâncias entre o discurso de “pleno emprego” e a efetiva capacidade de absorção e utilização adequada da mão de obra no país.

  2. Além das habituais manipulações estatísticas com expurgos como ignorar os sub-empregos, a informalidade, os beneficiários dos bolsa-tudo, o uso da expressão “pleno-emprego” por mera sonoridade, para definir “falta de desemprego”, é um sintoma claro da falta de conhecimento acerca de conceitos de gestão por parte do desgoverno petista.
    Apenas em sentido estrito essa expressão se refere ao emprego de mão de obra humana, não andróide ou robótica, e mesmo assim não significa desemprego zero, pois admite o não emprego:
    1. friccional: pessoas que voluntariamente estão em transições entre empregos, em mudanças de carreira, em busca de melhores oportunidades, como o caso de evolução a partir do intrapreneuring em direção ao empreendedorismo de fato, etc.
    2. desemprego estrutural: causado por falta de qualificação da mão de obra.
    Por outro lado, em sentido lato, macro-ecnomicamente, essa expressão significa a capacidade máxima da produção de bens e serviços pela economia como um todo, a partir da qual haveria escassez, gerando pressões inflacionárias por desequilíbrio entre oferta e demanda.

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