OPINIÃO

Os lados de cada um

O cortejo fúnebre dos quatro policiais mortos na megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha foi seguido por multidões que, em lágrimas e aplausos, prestaram uma última homenagem aos heróis que tombaram em combate.

Nas calçadas, o povo se perfilava — chapéus nas mãos, sirenes ligadas, silêncio respeitoso, olhos marejados. Aquelas palmas eram mais do que um gesto de dor: eram um ato de reconhecimento e gratidão a quem morreu defendendo uma sociedade encurralada há décadas entre a covardia e o crime.

As imagens correram o país. E, nas redes, o sentimento foi uníssono: apoio esmagador à operação, à coragem das forças policiais e à reação de um Estado que, por alguns dias, pareceu não temer o tráfico. O povo é sábio. Sabe distinguir quem protege e quem ameaça.

Em contrapartida, as ministras Anielle Franco (Igualdade Racial) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos) percorriam, já no dia seguinte, as vielas do Alemão e da Penha, ladeadas pelas deputadas Benedita da Silva, Jandira Feghali, Talíria Petrone e pelo deputado Reimont. Foram, segundo disseram, “ouvir as famílias” e “cobrar providências” pelas mortes da Operação Contenção — aquela mesma em que 121 criminosos do Comando Vermelho foram mortos em confronto com o BOPE, após horas de tiroteio e drones atirando bombas nos agentes da lei.

Nada disseram, porém, sobre os quatro policiais assassinados. Nenhuma visita, nenhuma palavra às famílias dos agentes caídos — igualmente dignas, igualmente humanas.

A preocupação com os “direitos humanos” segue sempre no mesmo endereço: o dos bandidos. Nunca o das vítimas.

A cena fala por si. Ao mesmo tempo em que o Brasil real aplaudia seus mortos fardados, o Brasil oficial acenava aos meliantes mortos.

O governo federal, que tenta se vender como protagonista do combate ao crime organizado, dá mais um tiro no pé — ao mandar seus representantes prestarem solidariedade justamente a quem espalhou o terror.

Essa leniência reincidente não é acidente: é traço. É a velha relutância dos governantes de esquerda em se declarar, de fato, inimigos do crime. Sempre um pé atrás, sempre um discurso ambíguo, como se combater bandido fosse pecado político. É dessa negligência que nasce a imagem de um poder que não apoia o crime, mas também não o enfrenta. E quem se cala diante dele, o fortalece.

Ironias da história: Benedita da Silva, que governou o Rio em 2002, afirma ter combatido o tráfico sem disparar um tiro. Os números a desmentem — 1.195 mortos pela polícia em seu governo, recorde absoluto de letalidade da série histórica.

Mas, claro, nada que atrapalhe a narrativa de quem confunde ativismo com verdade.

Na Bahia petista, governada pelo PT, o discurso também se desfaz diante dos fatos: é o estado com o maior número de casos de letalidade policial do país — 1.556 mortos em ações policiais apenas no último ano, superando as somas de São Paulo e Rio de Janeiro juntos.

Nenhum ministro apareceu por lá para “ouvir as famílias”. E que fique claro: não se questiona a ação da polícia baiana, confrontada com a bandidagem como em qualquer outro estado, mas sim a seletividade de quem só se indigna quando o gatilho é apertado fora da própria trincheira ideológica.

E o gran finale: durante a posse de Guilherme Boulos como novo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, o agora representante oficial dos “movimentos sociais” pediu um minuto de silêncio “por todas as vítimas” da operação no Rio.

Não teve coragem de dizer por quais vítimas, mas para bom entendedor, bastou o silêncio.

No fim das contas, ficou tudo muito transparente.

Afinal, vivemos num país onde a transparência é tanta que já se enxerga, sem esforço, os lados de cada um.

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3 Comentários

  1. A repetição da cena dos bandidos entrando na mata com aquela outra do passado em que a rede Globo até ganhou prêmio em Hollywood, mostra que naquela ocasião era uma fuga desordenada, mas nesta não era fuga mas uma MANOBRA EM ORDEM PELA FILA INDIANA Treinamento militar da bandidagem fardada com vestimenta de guerra mesmo.

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