O dia em que o Supremo tropeçou na própria consciência

O Brasil assistiu, atônito, a uma cena rara na Corte onde a palavra “erro” parece ter sido banida do vocabulário. O ministro Luiz Fux, em gesto de desassombro pouco comum na Praça dos Três Poderes, admitiu que o Supremo Tribunal Federal cometeu injustiças nas condenações ligadas à suposta “trama do golpe”.
E o fez começando por si mesmo — reconhecendo que o entendimento anterior que o levou a condenar centenas de réus do 8 de janeiro foi injusto. Um ato de coragem pessoal que, em tempos de justiçamento travestido de virtude, soa quase como heresia.
Durante o julgamento do chamado “núcleo 4”, o núcleo da desinformação, Fux leu um voto que já nasce histórico. Disse, com todas as letras, que sua consciência não lhe permitia mais sustentar a posição adotada no passado. E, ao fazê-lo, devolveu ao Supremo um lampejo de dignidade há muito soterrado sob camadas de arrogância. Em poucas palavras, o ministro que um dia marchou com o pelotão decidiu agora parar e perguntar para onde todos estavam indo.
O gesto de Fux teve o poder de uma pedrada jogada no espelho da autossuficiência. Porque admitir injustiças num tribunal que se acostumou a confundir poder com razão é o mesmo que acender luz em sala de reunião onde todos preferem o breu. A reação dos colegas foi a esperada: desconforto, silêncio e olhares de quem prefere manter o script do heroísmo institucional, mesmo quando a história já começa a registrar o contrário.
Não é exagero dizer que o voto de Fux foi um raro momento de oxigênio num Supremo que há muito respira vaidades. Ao contrário de seus pares mais performáticos, ele lembrou que a toga não é manto de infalibilidade — é símbolo de responsabilidade. Enquanto uns se comportam como justiceiros de toga, Fux resgatou o juiz que ainda havia dentro dele. E isso, no cenário atual, soa quase como ato de rebeldia.
Sem citar nomes, ele expôs o que todo o país já sabia: que há ministros que transformaram a Corte em palco, as sessões em espetáculo e a imprensa em plateia cativa. A crítica indireta a Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes foi o soco de luva que ninguém teve coragem de devolver. Porque, convenhamos, no Supremo, a coragem anda em falta e a autocrítica virou artigo de colecionador.
Há algo de profundamente simbólico em ver um ministro admitir que o STF violou princípios em nome da “defesa da democracia”. É como se, por um instante, a toga tivesse pesado mais do que o aplauso da plateia. E é disso que a Justiça é feita: não de espetáculos, mas de consciência.
O gesto de Fux não reverte condenações, nem apaga abusos. Mas expõe a farsa da unanimidade moral que há tempos domina o Supremo. Foi um instante de humanidade em meio à liturgia do autoritarismo. E, de algum modo, uma lembrança incômoda de que, por trás da toga, ainda pode bater o coração de um homem — não o ego de um deus.








Síntese perfeita do atual momento. Oxalá o resto da trupe acorde para a realidade.