OPINIÃO

Governo Lula vai à COP-30 culpar o agro e envergonhar o país

Em mais um capítulo da longa novela de atritos entre o lulopetismo e o agronegócio, o chamado Plano Clima ameaça transformar a próxima Conferência do Clima da ONU, a COP-30 — marcada para novembro, em Belém — num espetáculo de autossabotagem diplomática.

De acordo com o texto que o Palácio do Planalto pretende apresentar no evento, o setor que mais gera divisas para o Brasil e que sustenta o superávit da balança comercial seria, ironicamente, o grande vilão climático da Terra. É o roteiro perfeito do realismo mágico da política brasileira: o país que alimenta o mundo passa a ser acusado de destruir o planeta.

Elaborado por um comitê com 23 ministérios e coordenado pela Casa Civil e o Ministério do Meio Ambiente, o documento projeta metas ambiciosas de redução de emissões até 2035. Até aí, nada fora do razoável. O problema está na forma enviesada com que o agronegócio foi retratado — como se concentrasse toda a culpa pelos males ambientais, enquanto setores urbanos, energéticos e industriais aparecem com responsabilidades suavizadas ou até com licenças para poluir um pouco mais.

A reação foi imediata. O deputado federal Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, classificou o plano como uma “autossabotagem com verniz ideológico” e afirmou que ele vai na contramão dos esforços diplomáticos que buscam defender a imagem do agro no exterior — justamente num momento em que o Itamaraty tenta conter os ataques de concorrentes internacionais que sonham em enfraquecer o gigante brasileiro do campo. “O agro é o grande ativo do Brasil”, resumiu Lupion. “Não é responsável pelo desmatamento, é responsável pela geração de empregos, renda e conservação.”

A distorção, de fato, salta aos olhos: enquanto o agro teria que reduzir em até 54% suas emissões até 2035, o setor de energia pode aumentá-las em 44%.

Mais grave ainda, o plano atribui ao campo mais de 800 milhões de toneladas de CO₂ equivalentes por desmatamento — incluindo áreas de assentamentos e comunidades tradicionais —, número que supera as próprias emissões produtivas do setor. É uma aritmética política, não científica.

A indignação não ficou restrita ao Parlamento. A Sociedade Rural Brasileira pediu publicamente o adiamento da publicação do plano e sua revisão integral.

O presidente da entidade, Sérgio Bortolozzo, foi direto: “O Plano Clima precisa de consenso técnico e clareza metodológica. Do contrário, comprometerá a competitividade do agro brasileiro nos mercados globais.” A SRB lembra que a proposta rompe com critérios reconhecidos pela ONU e transfere ao campo a responsabilidade até por desmatamentos fora de sua governança — um golpe na credibilidade internacional do país.

Em sintonia, a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável também se manifestou, propondo ajustes técnicos para reconhecer práticas já adotadas no campo — como integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de pastagens e uso de bioinsumos — e para contabilizar corretamente a remoção de carbono no solo. A presidente da entidade, Ana Doralina Menezes, destacou que “a pecuária brasileira já é parte da solução climática; falta o governo enxergar isso”. A crítica toca num ponto sensível: enquanto países ricos ainda dependem fortemente de práticas intensivas e poluentes, o Brasil rural avança em tecnologia verde e mantém uma das legislações ambientais mais rigorosas do planeta.

Na mesma toada, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) classificou como “preocupante” a forma como o Plano Clima atribui responsabilidades ao setor. O coordenador de Sustentabilidade da entidade, Nelson Ananias Filho, apontou que o governo mistura desmatamento legal e ilegal e se baseia em fontes não auditáveis, como o MapBiomas, para montar um cenário de culpa coletiva. “Desmatamento ilegal não é responsabilidade do produtor rural”, afirmou. Para ele, é fundamental que as metas assumidas pelo país sejam discutidas pelo Congresso Nacional, garantindo transparência e participação democrática antes que compromissos internacionais sejam firmados em nome de toda a sociedade.

A mesma preocupação foi expressa pelo Sistema OCB, que representa o cooperativismo brasileiro. O consultor ambiental da entidade, Leonardo Papp, questionou o fato de o plano ter sido elaborado sem participação efetiva do Legislativo, mesmo tratando de compromissos internacionais que impactam diretamente o patrimônio nacional. “O Parlamento precisa estar no centro desse debate”, observou. Faz sentido: não é democrático que se assinem compromissos externos em nome do país sem o aval de quem o representa de fato.

Enquanto o governo aponta o dedo para o campo, ignora o óbvio: nenhum país do mundo preserva tanto quanto o Brasil rural. Os produtores mantêm 20% de reserva legal obrigatória no Sul e Sudeste e até 80% na Amazônia, além de áreas de preservação permanente que sequestram milhões de toneladas de carbono — justamente o que o texto do Plano Clima finge não ver. Cooperativas agroindustriais, como as paranaenses que há décadas praticam sustentabilidade concreta, poderiam dar aulas ao próprio Ministério do Meio Ambiente.

Mas parece que, no Brasil, a ideologia continua falando mais alto do que a razão. E o governo que deveria defender seus heróis produtivos prefere tratá-los como vilões. Se insistir em levar à COP-30 um documento que criminaliza o setor que mais contribui para o país, o Planalto corre o risco de se tornar o autor de um constrangimento diplomático sem precedentes.

Porque não há nada mais contraditório do que um governo que se diz verde — mas denigre sorrateiramente o setor que mais mantém o Brasil de pé.

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2 Comentários

  1. É mesmo lastimável que a ideologia fale mais alto que a razão, e até mais alto que os interesses nacionais, mas a meu ver isso cocorre por existir uma superrazão acima, que é a pressão dos agronegócios alienígenas para incrementar o custo-Brasil, reduzindo a competitividade de nossas comódities rurais (agrícolas ou pecuárias) no mercado internacional.
    A primeira lição de uma aprendiz de detetive é: a quem o crime beneficia, e isso nos leva diretamente aos interesses estrangeiros acima citados.

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