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Ratinho Júnior deixa a disputa presidencial para coroar governo histórico no Paraná

A decisão chegou numa noite de domingo, como costumam chegar as decisões que custam mais do que qualquer cálculo político consegue medir.

Carlos Massa Ratinho Júnior, o governador mais bem avaliado do Brasil, comunicou que não disputará a Presidência da República em 2026.

Ficará no Paraná até dezembro, honrando o mandato que recebeu com quase 70% dos votos válidos.

Não há aqui derrota pessoal. Há aritmética — a aritmética implacável de um país que, pela terceira eleição consecutiva, parece caminhar para o mesmo corredor estreito da polarização.

De um lado, o senador Flávio Bolsonaro, ungido herdeiro do capital eleitoral paterno, já consolidando em torno de si o voto antipetista, o eleitorado de centro-direita que se movimenta por rejeição antes mesmo de se mover por adesão.

Do outro, o presidente Lula, em busca de um quarto mandato, inabalável no reduto da esquerda, onde lealdade e memória afetiva ainda funcionam como moeda corrente.

Entre esses dois polos magnéticos, o espaço se comprime.

Não importa quão sólida seja a biografia, quão expressivos sejam os números, quão real seja a transformação impressa num estado inteiro.

A polarização não pergunta pelo mérito — impõe sua geometria e redistribui os assentos antes mesmo de o espetáculo começar.

O que se viu em 2018 e se repetiu em 2022 ameaça cristalizar-se como padrão estrutural da democracia brasileira: dois campos gravitacionais tão densos que qualquer corpo que tente orbitar fora deles acaba atraído ou esmagado.

Ratinho Júnior leu esse tabuleiro com a lucidez de quem governa pelos resultados e não pela vaidade.

Oitenta e cinco por cento de aprovação, a melhor educação do país, os menores índices criminais em duas décadas, investimentos recordes em infraestrutura — tudo isso, num cenário político saudável, seria passaporte natural para voos maiores.

Mas o cenário não é saudável.

É um cenário em que a disputa nacional se decide menos pelo que se construiu e mais pelo campo emocional a que se pertence.

A nota oficial fala em compromisso com os paranaenses, em não interromper um ciclo de crescimento.

São razões legítimas e verdadeiras.

Mas a causa mais profunda é aquela que nenhum comunicado precisa soletrar: a configuração eleitoral de 2026, tal como se desenha hoje, simplesmente não reservou oxigênio suficiente para candidaturas que se apresentem fora do eixo da polarização.

O PSD seguirá buscando um nome.

O governador seguirá, como prometeu, à disposição do partido e do país — defendendo estado menor, educação como instrumento de ascensão e diálogo como alicerce democrático.

Há quem enxergue nessa desistência um recuo. É mais honesto enxergá-la como uma leitura — severa, madura e provavelmente correta — de um país que ainda não aprendeu a escapar de seus próprios espelhos.

Leia, abaixo, a íntegra do comunicado divulgado pela assessoria do governador:

“O governador Ratinho Junior decidiu concluir seu mandato no Paraná até dezembro deste ano. Portanto, ele deixa de participar da discussão interna do PSD (Partido Social Democrático), que escolherá um candidato disposto a concorrer às eleições presidenciais deste ano. A decisão foi tomada na noite deste domingo, 22, após profunda reflexão com sua família. O fato foi levado ao conhecimento do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, nesta segunda, 23.
Ratinho está convicto que deve manter o compromisso selado com os paranaenses nas eleições de 2018 e não pode interromper o projeto que tem garantido o ciclo de crescimento econômico do Paraná. Sob a gestão de Ratinho Junior, que alcançou 85% de aprovação, o Estado se consolidou como a melhor educação do Brasil, obteve os menores índices criminais dos últimos 20 anos, o maior investimento em infraestrutura da história, e conquistou, por quatro vezes consecutivas, a excelência em sustentabilidade no Brasil.
O governador do Paraná continuará à disposição do PSD para ajudar o Brasil virar a página do atraso, criar perspectivas mais otimistas para os jovens, ser destravado com menos burocracia, endurecimento de leis criminais e tenha o agronegócio brasileiro como trunfo na competição global entre nações.
Eleito com quase 70% dos votos válidos em 2022, Ratinho permanecerá pautando a sua vida para ajudar o Brasil a partir do Paraná, ao defender um estado menor e mais eficiente, que tem a educação como instrumento para melhorar a vida de jovens e apostando na pacificação e no diálogo como alicerces do Estado Democrático de Direito.
Carlos Massa Ratinho Júnior nasceu numa família humilde em Jandaia do Sul. Mudou para Curitiba ainda criança, onde o pai chegou desempregado na década de 80. A trajetória simples do governador permitiu que ele jamais fosse contaminado pelas benesses do Poder.
Ao encerrar em dezembro essa fase de sua vida, Ratinho Júnior pretende voltar ao setor privado e presidir o Grupo de Comunicação criado pelo pai, o apresentador Ratinho”.

Independentemente do capítulo que a política nacional lhe reserve adiante, o que Ratinho Júnior construiu no Paraná já não pertence ao terreno das promessas — pertence ao dos fatos consumados.

Levou a educação paranaense ao topo do país. Devolveu às ruas uma segurança que há vinte anos parecia miragem. Transformou infraestrutura em legado visível, mensurável, quilômetro a quilômetro.

São marcas que não cabem numa urna e que nenhuma desistência apaga, porque estão inscritas naquilo que um estado inteiro viveu e pode atestar.

O menino de Jandaia do Sul, filho de um pai que chegou a Curitiba desempregado, entrega ao Paraná um governo que qualquer métrica séria situa entre os melhores de sua história.

Há carreiras políticas que se medem pelo cargo mais alto que alcançaram.

A de Ratinho Júnior, até aqui, se mede por algo mais raro e mais difícil de contestar: pelo tamanho daquilo que deixou de pé.

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4 Comentários

  1. Análise brilhante, texto equilibrado, maduro, perfeito. Parabéns, Caio Gottlieb. Assim, como Ratinho Junior, você também nos honra. Bravo! Gratidão!!!

    Vania Mara Welte
    Jornalista

  2. Perfeito Caio. Mas uma marca que não deveria ser marca de nenhum governo, mas é também uma marca do Ratinho aqui no Paraná, é corrupção zero. Só isso já nos enche de orgulho, sentimento que os finlandeses, noruegueses, islandeses, suíços, alemães e alguns outros, sentem todos os dias. Estamos nivelados

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