Nada é meu, é tudo do amigo

Existe um padrão na biografia política de Luiz Inácio Lula da Silva que resiste ao tempo, aos mandatos e às reinvenções. Quando a conta chega, o dono da festa nunca está.
O triplex era de um amigo. O sítio era de um amigo. A taxa das blusinhas, agora, foi culpa do Congresso. As bets, uma imposição que ele, cristão e zeloso, jamais teria desejado.
O INSS desaba, e o culpado é o presidente do instituto. O Banco Master contamina tudo à sua volta, e o veneno, claro, veio do governo anterior.
É uma habilidade rara, quase artística: governar por três anos e meio e não ser responsável por nada do que aconteceu nesses três anos e meio.
Os números, porém, não têm essa flexibilidade retórica. A pesquisa Quaest de abril registra 52% de desaprovação contra 43% de aprovação — a pior relação desde julho de 2025, com uma erosão contínua que já dura quatro meses.
O Datafolha corrobora: reprovação de 51%, aprovação de 45%, e apenas 29% dos brasileiros classificando o governo como bom ou ótimo.
Nas projeções eleitorais, Flávio Bolsonaro apareceu pela primeira vez numericamente à frente de Lula no segundo turno na Quaest (42% a 40%, em empate técnico), e a Futura/Apex já o projeta vencedor em simulação de segundo turno por 48% a 42%.
Diante desse cenário, o Planalto recorre ao manual de sempre: abrir o cofre.
Prepara-se um “Desenrola turbinado”, versão requentada do programa de renegociação de dívidas que já fracassou uma vez — o endividamento das famílias atingiu 80,4% em março, praticamente o mesmo patamar de quando Lula prometeu, em campanha, que zeraria o problema.
Agora fala-se em incluir inadimplentes do Fies, em usar R$ 10,5 bilhões em recursos esquecidos no sistema financeiro como fundo garantidor, em auxílio-creche, em subsidiar combustível.
A lógica é a de sempre: irrigar o bolso do eleitor com dinheiro público antes que a urna se feche.
E aí entram as piruetas retóricas que definem esta fase do governo.
Lula declarou, em entrevista à mídia aliada, que a taxa das blusinhas foi “desnecessária” e que “sabe do prejuízo” político que trouxe. Omitiu, convenientemente, que a sancionou em 2024, que ela gerou R$ 5 bilhões de arrecadação em 2025 e mais R$ 425 milhões só em janeiro deste ano, e que seu próprio vice-presidente, Geraldo Alckmin, defendeu a cobrança há menos de duas semanas.
Sobre as bets, o presidente disse que, como cristão, fecharia todas. Esqueceu que em 2023 seu governo regulamentou e taxou as apostas online, que hoje operam com 133 empresas licenciadas, mais de 25 milhões de apostadores e arrecadação bilionária para a União.
Quando entra receita, é mérito da gestão. Quando dá desgaste, é pecado alheio.
A mesma lógica do descolamento rege o caso do INSS.
Lula prometeu zerar a fila de espera quando tomou posse. Encontrou 1,2 milhão de pessoas aguardando. Em fevereiro deste ano, a fila bateu 3,13 milhões — recorde absoluto, superior ao pior momento do governo Bolsonaro. Em março, recuou levemente para 2,79 milhões, ainda num patamar catastrófico.
A resposta do Planalto foi demitir o presidente do órgão, Gilberto Waller, atribuindo-lhe a lentidão que é, na verdade, resultado sistêmico de uma gestão que não consegue processar 61 mil novos requerimentos diários.
E vale lembrar: o antecessor de Waller, Alessandro Stefanutto, caiu sob suspeita de envolvimento no esquema de fraudes que desviava dinheiro de aposentados — fraudes operadas por sindicatos ligados ao PT.
O ex-ministro da Previdência, Carlos Lupi, que prometia mutirões e “redes integradas” ao lado desses “parceiros sindicais”, que seriam “essenciais” para resolver o problema da fila, pediu demissão em maio de 2025 engolido pelo mesmo escândalo.
Quanto ao Banco Master, o governo tentou durante meses empurrar a paternidade do escândalo para Roberto Campos Neto e a gestão anterior do Banco Central.
Mas os fatos são teimosos: os vínculos financeiros de Toffoli com Daniel Vorcaro, os contratos do escritório da esposa de Alexandre de Moraes com o banqueiro, a assessoria do ex-ministro Guido Mantega, os serviços advocatícios do filho do ex-ministro do STF e da Justiça Ricardo Lewandowski, as conexões do PT baiano com sócios do Master — tudo converge para a órbita do poder atual.
E quando as CPIs do INSS e do Crime Organizado ameaçaram expor essas ligações, o governo as sepultou. A CPI do INSS se aproximava perigosamente do entorno de Lulinha. A do Crime Organizado produziu um relatório que pedia o indiciamento de três ministros do Supremo. A solução, nos dois casos, foi a mesma: trocar membros das comissões de última hora e derrotar os relatórios com votos de senadores obedientes ao Planalto.
O presidente da República governa, portanto, dentro de uma bolha de negação onde tudo que funciona é obra sua e tudo que desmorona é herança maldita, pressão do Congresso, incompetência de subordinados ou conspiração da oposição.
A taxa das blusinhas, que ele sancionou, não era dele. As bets, que ele regulamentou e taxou, são contrárias à sua fé. O INSS, que ele prometeu reformar, desaba por culpa de quem ele mesmo nomeou. O Banco Master, que contaminou figurões alinhados ao seu governo, é problema de gestões passadas. E as CPIs que poderiam lançar luz sobre tudo isso foram eliminadas por sua própria base aliada.
Há uma expressão popular que descreve com perfeição esse método de governo: é a síndrome do “não fui eu”.
Nos tempos da Lava Jato, a versão era “é de um amigo meu”. A diferença é que, naquela época, tratava-se de um triplex e de um sítio.
Agora são filas de milhões de aposentados, um escândalo financeiro de proporções históricas, um Supremo Tribunal Federal que afunda no descrédito e arrasta junto seus comparsas do lulopetismo e uma população que aposta o que não tem em plataformas que o próprio governo regulamentou.
A escala mudou. O método, não. Haja cinismo.



