Sempre valerá a pena

Maurício Camisotti será, nos próximos meses, um homem livre. E rico. Preso desde setembro de 2025 como um dos principais operadores do esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS, ele assinou acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal, confessou os crimes, entregou nomes, detalhou conexões políticas — e se comprometeu a devolver a bagatela de R$ 400 milhões.
Em troca, espera a conversão da prisão preventiva em domiciliar. É a primeira delação da Operação Sem Desconto, que levantou desvios de mais de 6 bilhões de reais cometidos nos últimos anos, e sua importância é inegável: o acordo destrincha a engrenagem das fraudes, expõe figuras como Roberta Lauschinger — amiga do filho do Lula —, aponta ministros do governo petista que souberam do esquema e nada fizeram, nomeia parlamentares que receberam propina e desvenda o escritório de advocacia usado para lavar o dinheiro surrupiado.
O efeito cascata já começou: outros investigados, inclusive o próprio “Careca do INSS”, Antônio Carlos Camilo Antunes, movimentam-se agora em busca de seus próprios acordos.
Não por acaso, o nome de Lulinha — Luís Cláudio Lula da Silva — aparece nas investigações como um dos beneficiários do esquema. É a mesma figura que a CPI do INSS tentou alcançar e não conseguiu. A comissão foi sistematicamente sabotada: pelo governo, por lideranças do Congresso e, de forma decisiva, pelo Supremo Tribunal Federal, que anulou quebras de sigilo bancário de investigados-chave, blindando justamente quem mais interessava investigar.
A CPI encerrou seus trabalhos sem chegar a lugar algum. O que a política não permitiu que o parlamento fizesse, a Polícia Federal está fazendo — e a delação de Camisotti, agora nas mãos do ministro André Mendonça para ser homologada (ou não), é a prova mais concreta disso.
É um avanço real da justiça. Mas há uma aritmética incômoda que merece ser dita em voz alta.
As entidades controladas por Camisotti — Ambec, Unsbras e Cebap — movimentaram R$ 845 milhões desde 2021. Seu eixo, isoladamente, é uma das maiores peças do xadrez bilionário. Os R$ 400 milhões que ele promete devolver correspondem ao que a PF apura que passou por sua conta — com correção e penalidades aplicadas.
O próprio empresário alega ter lucrado “apenas” pouco mais de R$ 200 milhões com o esquema. Alega. Enquanto isso, saques em espécie de R$ 7,2 milhões foram documentados pelo Coaf. Esculturas, quadros, carros de luxo e uma arma foram apreendidos em sua residência na hora da prisão. O que não foi apreendido — o que circulou pelos caminhos invisíveis do dinheiro lavado por anos de rapinagem — permanece incalculável.
No balanço derradeiro, a conta é simples e perturbadora: Camisotti devolverá aquilo que o Estado conseguiu rastrear, negociará uma pena generosamente reduzida, cumprirá provavelmente uma fração dela em regime domiciliar — e estará livre para desfrutar do que sobrou. Não há romantismo nisso, apenas matemática.
É quase uma impunidade total.
Quem rouba com escala industrial, com estrutura jurídica e proteção política, e depois coopera com a justiça, não paga o preço do crime. Paga o preço da delação, que é substancialmente menor.
O sistema de colaboração premiada tem sua razão de ser: sem ele, muitos esquemas de corrupção jamais seriam desvendados.
O problema não está na ferramenta — está no que a ferramenta revela sobre o cálculo que criminosos de colarinho branco fazem antes de agir.
Roubar muito, esconder bem, colaborar na hora certa: essa é, no Brasil, uma estratégia com taxa de retorno historicamente positiva.
Camisotti sabia disso. Os que vieram antes dele também sabiam. E os que operam agora — observando este desfecho com atenção profissional — continuam seguindo a mesma cartilha, porque nunca precisaram aprender nada diferente.
No final da história, o crime compensa. E como compensa.




E assim segue o baile… infelizmente