Opinião

Ratinho Jr em Cascavel: uma agenda de 170 milhões

A menos de um ano de encerrar dois mandatos consecutivos, Ratinho Junior governa como quem não consulta o calendário. A visita desta quinta-feira (9) a Cascavel seria suficiente para coroar uma gestão inteira — e, no entanto, não passa de mais um dia útil num governo que segue a pleno vapor, empilhando entregas e compromissos como se o relógio não existisse.

São mais de 170 milhões de reais anunciados para a cidade, distribuídos entre uma grande inauguração e três novos investimentos que atacam gargalos históricos em transporte, saúde, logística e mobilidade urbana. É nessa rotina, e não em circunstâncias ocasionais, que se encontra a explicação para os índices de aprovação do seu governo que beiram 90% — algo próximo da unanimidade num país onde governar costuma ser sinônimo de desgaste. Quem procura o segredo do fenômeno não precisa ir longe: basta acompanhar a agenda.

O protagonista da manhã foi o Terminal Rodoviário Intermunicipal — reinaugurado após a maior intervenção desde que abriu as portas, em 1987. Quase quatro décadas separam a inauguração original desta entrega, e a diferença entre as duas épocas se mede não apenas em concreto e vidro, mas no papel que a cidade passou a ocupar na geografia econômica do Oeste paranaense.

Os 21 milhões de reais investidos pelo Estado redesenharam por inteiro os quase quinze mil metros quadrados do espaço. O projeto, concebido pela equipe da Secretaria de Estado das Cidades, reconfigurou o layout interno, reorganizou o fluxo de passageiros, reformou integralmente os guichês e criou novas salas comerciais. Trinta e duas plataformas de embarque e desembarque agora servem vinte e seis empresas de transporte rodoviário que operam rotas intermunicipais e interestaduais, consolidando o terminal como um dos principais polos de mobilidade da região.

A intervenção foi além do funcional. Uma praça de alimentação ampliada e diversificada, sanitários inteiramente revitalizados, catracas eletrônicas, elevadores e escadas rolantes compõem uma estrutura pensada para garantir acessibilidade plena, especialmente a idosos e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Os sistemas elétrico e lógico foram modernizados, a iluminação interna e externa substituída, esquadrias trocadas e as áreas de estacionamento requalificadas.

Um setor específico para encomendas passou a integrar o terminal, ampliando o leque de serviços oferecidos à população e às empresas. Nada disso é cosmético. Mesmo durante o período de obras, o terminal registrou salto de nove por cento no fluxo de passageiros. A média mensal chegou a 174 mil usuários, o equivalente a quase seis mil pessoas por dia cruzando aquele espaço.

A cidade cresceu, e a rodoviária finalmente a alcançou. Projetado com visão de longo prazo, o novo terminal foi concebido para funcionar como espaço multifuncional — transporte, comércio e serviços reunidos num único endereço, com capacidade para acompanhar o crescimento de Cascavel nas próximas décadas.

Mas Ratinho Junior não foi a Cascavel apenas para cortar fitas. O gesto mais revelador da agenda talvez tenha sido o anúncio da construção do novo Hospital do Trabalhador, um pleito que a região Oeste carrega há mais de vinte anos e que sai enfim do papel com investimento total de 77 milhões de reais — dos quais setenta e seis milhões bancados pela Secretaria de Estado da Saúde e o restante pelo município.

A unidade nascerá com 124 leitos e estrutura voltada a serviços ambulatoriais, hospitalares e de urgência e emergência vinte e quatro horas. Os números projetados dão a dimensão do impacto: capacidade para até mil e duzentas cirurgias e internamentos por mês, mais de quatro mil exames diagnósticos e cerca de mil e duzentas consultas médicas no mesmo período.

O rol de serviços previstos cobre cirurgia geral, clínica médica, ginecologia e obstetrícia, ortopedia, urologia e cirurgia vascular, além de maternidade voltada a gestantes de risco habitual. Na retaguarda diagnóstica, laboratório de análises clínicas, exames de imagem de tomografia e ressonância magnética, endoscopia, eletrocardiograma e ecocardiograma. A proposta é organizar o fluxo de pacientes por áreas — saúde da mulher, pediatria, especialidades médicas —, promovendo melhor distribuição dos serviços e redução das filas que hoje congestionam a rede.

O hospital chega para aliviar a pressão que recai sobre a Décima Regional de Saúde, composta por vinte e cinco municípios e com população estimada de quinhentos e setenta e seis mil habitantes.

Boa parte dessa gente já se desloca rotineiramente a Cascavel em busca de atendimento especializado. A rede atual dispõe de mil duzentos e setenta e um leitos pelo SUS — mil cento e cinquenta e quatro de enfermaria, oitenta de UTI geral (dos quais cinquenta e um implantados durante a pandemia e depois incorporados de forma permanente), nove de UTI pediátrica, quinze de UTI neonatal e dez de Unidade de Cuidados Intermediários neonatal. Catorze hospitais de pequeno porte e cinco unidades de alta complexidade sustentam essa estrutura, atendendo também pacientes de outros municípios da macrorregião, o que amplifica a sobrecarga.

Desde 2019, o governo já havia praticamente triplicado os leitos de terapia intensiva e dobrado os do Hospital Universitário. O novo Hospital do Trabalhador é o capítulo seguinte dessa expansão — e não será o último.

Em 2026, foram anunciadas unidades em Foz do Iguaçu, Assis Chateaubriand, Guaíra, Bituruna, Nova Esperança, Paiçandu, Guaratuba, Matinhos e Paiçandu. No ano anterior, Pinhais e Rio Branco do Sul já ganharam hospitais novos, enquanto Colombo, São José dos Pinhais, Cianorte, São Mateus do Sul e Loanda seguem com obras avançadas. Soma-se a esse mapa o apoio à construção do HCzinho, a unidade infantil do Hospital das Clínicas de Curitiba, e do novo Hospital Pequeno Príncipe. É uma política de Estado.

Na logística, o investimento de 80,7 milhões de reais na pavimentação do terminal da Ferroeste representa o maior aporte já feito pelo governo estadual na empresa. O projeto prevê oito quilômetros de vias internas pavimentadas em concreto — material escolhido pela durabilidade e resistência ao tráfego pesado —, abrangendo noventa e cinco mil metros quadrados de área, com a implantação de cinco rotatórias e um pátio de estacionamento para sessenta caminhões.

A escala do investimento se justifica pela escala da operação: o terminal, com 1,7 milhão de metros quadrados, abriga hoje catorze empresas — cooperativas, multinacionais e companhias regionais — que utilizam a estrutura para exportação de grãos, farelos e produtos industrializados. Cerca de mil e duzentos caminhões acessam o pátio diariamente, e a ferrovia, responsável pelo trecho de duzentos e quarenta e oito quilômetros entre Cascavel e Guarapuava, movimenta anualmente perto de oitocentos mil contêineres de soja, milho, trigo, farelos, além de transportar, no sentido inverso, insumos agrícolas como adubos e fertilizantes, cimento e combustíveis.

A obra não se explica isoladamente. Ela se conecta a outro investimento de envergadura no litoral — o Moegão, no Porto de Paranaguá, que praticamente dobrará a capacidade de descarga ferroviária do porto.

Quem enxerga a cadeia por inteiro percebe que não se trata de asfaltar um pátio: trata-se de desobstruir, ponta a ponta, a artéria por onde escoa boa parte da riqueza paranaense. A pavimentação atende a uma demanda de quase três décadas do setor produtivo e garante ao terminal condições operacionais compatíveis com o crescimento da produção do Oeste, oferecendo mais segurança, agilidade e organização ao fluxo que ali se concentra.

A quarta peça do pacote é a autorização de licitação para a construção de uma trincheira sob a BR-277, interligando os bairros Região do Lago e Cascavel Velho — uma intervenção de 22,2 milhões de reais, viabilizada pela Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística. O trecho é um dos pontos mais críticos de circulação do município, com elevado índice de acidentes e volume de tráfego que se adensa nos horários de pico.

Hoje, o principal acesso da região se faz pelo Trevo do Portal, já incapaz de atender a população com segurança. A obra prevê passagem inferior com trincheira, duplicação de pista e implantação de alças de acesso à rodovia, facilitando a entrada e saída de veículos e beneficiando diretamente sessenta e cinco mil moradores da região sul.

Vidas foram perdidas ali, como lembrou o prefeito Renato Silva ao destacar que a trincheira era desejo antigo da sociedade cascavelense. A licitação deve tramitar por aproximadamente noventa dias, mas a assinatura desta quinta já converteu décadas de espera em cronograma concreto.

Não é coincidência que tudo isso aconteça no Estado que liderou os investimentos públicos do país em 2025, com 7,18 bilhões de reais empenhados, e que abriu 2026 repetindo a vocação — mais de setecentos milhões já no primeiro bimestre.

Ratinho Junior governa como quem sabe que cada obra inaugurada é, ao mesmo tempo, a melhor justificativa para a próxima — não a dele, mas a do modelo que construiu. Em Cascavel, nesta quinta, reinaugurou-se uma rodoviária, anunciou-se um hospital, pavimentou-se o futuro da logística e autorizou-se uma trincheira que vai salvar vidas. Tudo num único dia.

Quem conhece o ritmo sabe: quando a colheita chega, a semeadura já começou.

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Um Comentário

  1. …meu amigo Caio parabéns por esse espaço magnífico!…passando para informá-lo que o primeiro e o projeto recém inaugurado da Rodoviária foram elaborados por esse seu amigo e não pela secretaria de estado como consta no texto. Grande abraço !

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