Quinhentos e cinco dias no subsolo do terror

Há uma palavra em árabe que Eliya Cohen aprendeu não nos livros, mas acorrentado pelos pés a cinquenta metros abaixo da superfície de Gaza. A palavra é mufawadat — negociação. Com ela batizou o livro que veio lançar no Brasil no fim de março, diante de um público que, ao ouvi-lo, compreendia enfim a distância entre o que se sabe e o que se viveu.
Cohen tinha vinte e seis anos na manhã de 7 de outubro de 2023, quando participava do festival de música Nova, no sul de Israel, a poucos quilômetros da fronteira com Gaza. Havia mais de quatro mil jovens dançando ao amanhecer quando os primeiros tiros rasgaram o ar.
O que se seguiu ficou registrado nas imagens que o mundo viu, mas que nenhuma imagem foi capaz de conter por inteiro: terroristas do Hamas atravessaram a fronteira, mataram cerca de mil e duzentas pessoas, feriram milhares e arrastaram duzentos e cinquenta reféns para dentro da Faixa de Gaza. Cohen foi um deles. Não voltaria a ver a luz do sol por mais de quinhentos dias.
O relato que ele faz em Mufawadat não é político. Não discute estratégia militar, não toma partido em disputas diplomáticas. É algo ao mesmo tempo mais simples e mais insuportável: o testemunho minucioso de um jovem que foi despido de toda a sua humanidade e, ainda assim, recusou-se a morrer.
A rotina nos túneis do Hamas era desenhada para destruir a mente antes de destruir o corpo. Eliya permanecia imobilizado com pesadas correntes de ferro nos pés durante praticamente todo o cativeiro. A escuridão era quase absoluta. Os captores instalavam luzes de LED nas paredes dos túneis e gritavam em intervalos irregulares para impedir que os reféns dormissem. A privação de sono como instrumento de tortura — técnica que remonta aos campos de concentração nazistas — era aplicada com método e com prazer.
A fome servia ao mesmo propósito. Cohen recebia, em muitos dias, um único pedaço de pão pita para ser dividido entre quatro prisioneiros. Enquanto os reféns definhavam, os terroristas comiam fartamente diante deles, negando até um gole extra de água. O israelense perdeu dezenas de quilos ao longo do cativeiro.
Em seu relato, descreve o momento em que passou a enxergar os próprios ossos sob a pele e perdeu a força para falar ou caminhar. As agressões físicas eram constantes. Em certos episódios, os captores simulavam execuções: apontavam armas para a cabeça dos reféns, exigiam que dissessem suas últimas palavras e, quando o terror atingia o paroxismo, riam. A crueldade como entretenimento — uma assinatura que atravessa o relato de todos os sobreviventes libertados ao longo dos meses que se seguiram ao massacre.
Nos primeiros tempos de cativeiro, Cohen compartilhou o espaço com outros jovens capturados no mesmo festival, entre eles Ori Danino, que havia conseguido escapar da festa, mas ao ouvir gritos de socorro voltou para ajudar desconhecidos e acabou sequestrado. Danino carregava uma bala alojada no ombro. Tornou-se amigo íntimo de Eliya no túnel, e antes de ser executado pelo Hamas — ao lado de outros cinco reféns, em agosto de 2024 — fez Cohen prometer que, se sobrevivesse, mandaria escrever um rolo da Torá em sua memória.
Cohen cumpriu a promessa poucos dias depois de sua libertação. O título do livro revela a tese central da experiência. Mufawadat — negociação — não se referia apenas às conversas diplomáticas que ele sequer conhecia enquanto apodrecia no subsolo. Era a palavra que definia cada minuto da sobrevivência: negociar com o carcereiro o direito de ir ao banheiro, permitido uma única vez ao dia; negociar duas horas a mais de sono; negociar um pedaço ligeiramente maior de pão.
Em certo momento, Cohen descobriu que poderia cortar o cabelo e a barba dos próprios terroristas em troca de migalhas adicionais — e passou a fazê-lo, com as mãos acorrentadas, transformando um gesto banal num instrumento de sobrevivência. A negociação mais importante, porém, era interna. Para preservar a lucidez, Eliya construía diálogos imaginários com sua noiva, Ziv Abud, e escrevia mentalmente cartas que jamais seriam enviadas. Repetia para si mesmo que a vida continuaria com ou sem ele — e que não queria perder a oportunidade de voltar para a sua.
Enquanto Cohen agonizava no subsolo, Ziv travava sua própria guerra na superfície. Ela também estava no festival Nova na manhã do ataque. Sobreviveu escondendo-se sob uma pilha de corpos num abrigo no deserto, onde viu o sobrinho de dezenove anos ser assassinado. Dos vinte e nove jovens que estavam naquele ponto, apenas sete saíram com vida.
Sem saber se o noivo estava morto ou vivo, Ziv transformou o luto em mobilização internacional. Discursou no Parlamento britânico e na Casa Branca, apareceu em fotos virais usando um vestido vermelho para lembrar ao mundo que Eliya não era um cartaz, mas um homem com uma família que o esperava. Descreveu a própria transformação com uma franqueza dilacerante: disse que se reprogramou como um robô, apagou sentimentos, apagou o luto, apagou tudo — apenas para focar no que faria no dia seguinte para trazê-lo de volta. Lutou por ele, disse, mesmo sem saber se receberia de volta um corpo ou um homem.
Em 22 de fevereiro de 2025, quinhentos e cinco dias depois do sequestro, Eliya Cohen foi entregue à Cruz Vermelha numa cerimônia macabra organizada pelo Hamas no campo de refugiados de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza. Os terroristas obrigaram os reféns a subir num palco diante de uma multidão de milicianos armados e mascarados, acenar para câmeras e segurar documentos que lhes eram entregues como se se tratasse de uma formalidade protocolar e não do encerramento de quinhentos dias de barbárie.
Cohen foi libertado ao lado de Omer Shem Tov e Omer Wenkert, todos capturados no festival Nova. Voltou a Israel com estilhaços de bala na perna, lesões graves no ombro — consequência de meses dormindo no chão de concreto — e um repertório de traumas que nenhuma cirurgia alcança: gatilhos tão simples quanto ver comida provocam suores frios, falta de ar e confusão mental. Mesmo assim, recusou-se a operar enquanto companheiros de túnel ainda estivessem cativos.
O que Mufawadat devolve ao leitor é o rosto individual do horror. É fácil, na distância confortável dos noticiários, reduzir o 7 de outubro a números e geopolítica. É fácil, e é frequente, tratar o Hamas como um ator político legítimo, uma facção de resistência que luta pela autonomia da Faixa de Gaza.
O livro de Eliya Cohen destrói essa ficção página a página. O que ele descreve não é resistência. É sadismo organizado, exercido com método e com gosto contra civis indefesos — jovens que dançavam numa festa de música, famílias arrancadas de suas casas em kibutzim pacíficos, crianças, idosos, trabalhadores estrangeiros.
Os homens que o mantiveram acorrentado não eram combatentes desesperados em busca de liberdade: eram, nas palavras do próprio autor, bárbaros medievais cujo ódio pelos judeus e por Israel superava o amor pela própria vida. Muitos estavam ali para fazer dinheiro extra; entre eles, um vendedor de falafel. Não acreditavam apenas na destruição de Israel — não acreditavam na legitimidade da França, da Grã-Bretanha ou da Suécia. O fanatismo que os movia não reconhece fronteiras nem distinções.
O Hamas faz com os israelenses sequestrados o que faz, há décadas, com o próprio povo de Gaza: submete-o a uma tirania impiedosa, usa-o como escudo humano, desvia a ajuda humanitária para abastecer seus arsenais e seus túneis, e executa quem ousa divergir. A diferença é que o massacre de 7 de outubro arrancou o véu que uma parte considerável da opinião pública internacional insistia em manter sobre a natureza do grupo.
Já não é possível alegar ignorância. Os relatos estão publicados, os testemunhos são de primeira mão, os sobreviventes falam em todas as línguas do mundo — inclusive em português, numa livraria de São Paulo.
Eliya Cohen planeja casar-se com Ziv Abud em agosto. Será, nas palavras do casal, uma vitória sobre o terror — a reafirmação de um compromisso que quinhentos e cinco dias de escuridão não conseguiram apagar. Cohen dedica-se agora a percorrer o mundo com seu testemunho, para que o esquecimento não complete a obra que o Hamas iniciou naquela manhã de outubro.
Há quem prefira não ouvir. Há quem considere o assunto distante, complexo, politicamente inconveniente. Mas há, nos subterrâneos de Gaza, histórias que o mundo tem a obrigação moral de conhecer. Mufawadat é uma delas. E a palavra que dá nome ao livro — negociação — deveria servir de lembrete permanente: quando a civilização precisa negociar o direito de um ser humano usar o banheiro, já não resta nada a negociar.
Resta apenas decidir de que lado se está.



