Opinião

O vício de demonizar a virtude

Uma sociedade se desnuda não nas suas tragédias, mas nas suas trivialidades — nos debates que escolhe elevar à categoria de urgência, nas prioridades que elege, nos aplausos que distribui. O Brasil, neste exato momento, está travando um desses debates reveladores. E o que ele revela não é bonito.

A proposta de extinção da escala de trabalho 6×1 chegou ao centro da agenda política brasileira não como reflexo de um amadurecimento civilizatório, mas como produto de um oportunismo eleitoral que, para se sustentar, precisou fazer algo muito mais grave do que aprovar ou não uma lei trabalhista: precisou inverter uma hierarquia moral que levou milênios para ser construída.

Precisou convencer uma parcela da população de que o trabalho é, em essência, uma forma de punição — e que a virtude, hoje, está do lado de quem trabalha menos.

É contra esse pressuposto corrosivo que Roberto Macedo e Wilson Victorio Rodrigues erguem, em artigo publicado na última sexta-feira, 17, no Estadão, com precisão e firmeza, um libelo primoroso. Um texto que merece ser lido com vagar, porque não se trata apenas de uma crítica a um projeto de lei. Trata-se de uma defesa da civilização.

Os autores não chegam ao assunto pela porta da ideologia, mas pela porta da realidade — e já nessa entrada, o contraste é devastador.

Enquanto o governo federal trata o fim do 6×1 como tema prioritário, o Brasil amarga a 14ª posição no Índice Global de Crime Organizado 2025, que avalia 193 nações.

Trinta por cento dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais, incapazes de interpretar um texto simples ou executar uma operação matemática básica.

Juízes recebem em média R$ 95 mil brutos por mês, com 98% dos magistrados ultrapassando o teto constitucional em pelo menos um período, segundo o próprio Conselho Nacional de Justiça.

A taxa de juros permanece estratosférica, alimentada por um Estado que gasta muito além do que arrecada e que não demonstra qualquer intenção séria de mudar esse padrão.

É nesse cenário que Brasília escolhe debater a redução da jornada de trabalho. O diagnóstico que os autores fazem desse descalabro de prioridades é certeiro: os políticos da capital parecem viver, de fato, em Versalhes — distantes, insulados, entretidos com suas próprias fantasias de popularidade enquanto o país sangra.

Mas o artigo vai além da crítica à incompetência política, e é aí que ele alcança sua dimensão mais profunda. Macedo e Rodrigues entendem que o problema não é apenas de gestão ou de agenda — é de moral.

Ao transformar o trabalho em fardo a ser aliviado pelo Estado, a classe política brasileira não está apenas cometendo um erro de avaliação econômica. Está promovendo uma inversão de valores que tem consequências muito mais duradouras do que qualquer lei ordinária.

O trabalho não é castigo. Essa afirmação, que deveria ser evidente, precisa ser dita com todas as letras porque foi sistematicamente solapada por um discurso que confunde direitos trabalhistas legítimos com uma visão ressentida e distorcida da atividade laboral.

Direitos trabalhistas, claro que sim — jornadas abusivas, condições degradantes, ausência de proteção social são mazelas reais que exigem resposta real.

Mas daí a demonizar o trabalho como tal, a pintá-lo como o inimigo da qualidade de vida, vai uma distância moral enorme. E é exatamente essa distância que o projeto político em torno do fim do 6×1 percorre alegremente, sem nenhum pudor.

Os autores lembram, e é preciso que se repita com ênfase: o trabalho é testemunho da dignidade humana. É o meio pelo qual o homem exerce seu domínio sobre a criação, desenvolve sua personalidade, estabelece vínculos com os demais, sustenta sua família e contribui para o progresso coletivo.

Toda a trajetória da espécie humana — da condição de caçador-coletor à civilização tecnológica — foi construída pelo trabalho. Não pela ociosidade, não pelo dolce far niente, não pela redução progressiva do esforço. Pela dedicação árdua e persistente de gerações que não se perguntavam quantos dias por semana trabalhavam, mas o que poderiam construir com o tempo e a energia que tinham.

A revolução agrícola foi trabalho. A revolução industrial foi trabalho. A revolução científica, que fez a expectativa de vida europeia saltar de 30 ou 40 anos, lá pelo século 16, para mais de 81 anos nos dias de hoje — foi trabalho.

Foram laboratórios acesos de madrugada, campos de estudo exaustivos, engenheiros e médicos e pesquisadores que não estavam contando os dias para o fim da jornada. Estavam contando os passos que faltavam para resolver o problema.

A qualidade de vida que tanto se invoca como justificativa para trabalhar menos é, ela própria, fruto do trabalho intenso de quem veio antes. É uma herança que se dilapida quando se confunde conforto conquistado com direito a não se esforçar.

E aqui os dados econômicos entram não como adorno, mas como confirmação dura de uma lógica que os entusiastas do fim do 6×1 preferem ignorar.

A Fundação Getulio Vargas estima que a extinção dessa escala poderia gerar uma queda de até 7,4% no Produto Interno Bruto — uma sangria expressiva numa economia que já patina.

Os custos operacionais das empresas subiriam em até 15%, especialmente no varejo, setor que emprega uma fatia enorme da população de menor renda — exatamente aquela que a retórica populista da medida pretende defender.

O custo da hora trabalhada poderia subir 22%, pressionando a inflação e alimentando a informalidade, que já sufoca boa parte do mercado de trabalho brasileiro.

Em outras palavras: a medida que se apresenta como proteção ao trabalhador pode muito bem piorar as condições materiais do trabalhador. Esse é o paradoxo que o oportunismo eleitoral não tem interesse em explicar.

Há ainda o elefante na sala que os autores nomeiam com precisão: a baixa produtividade da mão de obra brasileira. Não é um insulto à classe trabalhadora — é o resultado inevitável de décadas de subinvestimento em educação.

Quando três em cada dez adultos brasileiros não conseguem interpretar um texto simples ou fazer uma conta básica, não há redução de jornada que resolva o problema de competitividade do país.

O mundo segue em frente — inteligência artificial, computação quântica, automação em escala — e o Brasil ainda enfrenta um déficit de alfabetização que deveria envergonhar qualquer governo que se pretenda sério.

Reduzir a jornada de um trabalhador analfabeto funcional não o torna mais produtivo nem mais próspero. Educá-lo, sim.

Mas educação exige investimento, planejamento e décadas de consistência — coisas que não rendem manchete nem voto rápido.

Macedo e Rodrigues tocam também, com elegância, na oposição clássica entre laboriosidade e preguiça. Não como juízo moral gratuito, mas como referência a uma tradição ética consolidada: a preguiça, vício capital, é mãe de todos os vícios precisamente porque corroe a capacidade do homem de realizar, de construir, de servir.

Uma política pública que, ainda que involuntariamente, aponta na direção da preguiça como ideal não está apenas errando na técnica econômica. Está errando na antropologia. Está construindo uma imagem de ser humano que vai na contramão de tudo o que a civilização aprendeu sobre florescimento humano.

É claro que ninguém aqui está falando de servidão. Ninguém defende jornadas desumanas, condições insalubres ou a exploração do trabalho alheio.

Trabalho remunerado justamente, em condições dignas, com equilíbrio entre a esfera profissional e a vida pessoal — isso é uma conquista civilizatória legítima, construída ao longo de décadas por sindicatos, legislação e pressão social.

Mas uma coisa é garantir condições dignas de trabalho; outra, radicalmente diferente, é transformar o trabalho em si num problema a ser resolvido pelo Estado, em algo que deveria ser minimizado como se fosse uma doença. A distância entre essas duas posições é a distância entre uma política séria e uma demagogia conveniente.

Os autores encerram com um gesto de honestidade admirável: declaram, com orgulho, que sua própria jornada é 7×0. Não como provocação, mas como testemunho.

Porque é assim que funciona, na prática, o trabalho que realiza — aquele que não é contado em dias na semana, mas medido pelo que constrói, pelo que serve, pelo que deixa. E na Corte de Versalhes tupiniquim, enquanto os cortesãos debatem formas de trabalhar menos, quem sustenta o país segue — silencioso, disciplinado, virtuoso — fazendo exatamente o oposto.

O libelo de Macedo e Rodrigues não é um texto nostálgico nem reacionário. É um alerta.

Uma lembrança de que os alicerces do progresso não são feitos de leis que reduzem o esforço, mas de culturas que celebram o mérito, valorizam a dedicação e entendem que a qualidade de vida não é dada — é construída. Tijolo por tijolo, dia por dia, pelo trabalho que dignifica, que une, que transforma.

Pelo trabalho que, contra toda a demagogia do momento, continua sendo o que sempre foi: não um castigo, mas uma virtude.

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2 Comentários

  1. Tem uma coisa que nenhum político demagogo, seja de esquerda ou de direita, nunca vai entender que é a questão do EQUILIBRIO NATURAL E INSTANTANEA das coisas na NATUREZA.
    No passado tinha até uma anedota do vereador que apresentou um PROJETO PARA REVOGAR A LEI DA GRAVIDADE.
    Essa iniciativa do rato de esgoto vai dar no seguinte: a economia vai se ajustar e em breve teremos ela funcionando na base de dois turnos. Por exemplo, na área da saúde, é comum o turno de 6 horas… e ai vai acontecer o de sempre: aqueles trabalhadores que não se importam vão ter dois empregos. Em resumo o tiro vai sair pela culatra, é só uma questão de tempo, pois tudo tem um equilíbrio e no caso não é demonizando a virtude que se vai resolver o problema.
    A iniciativa do rato de esgoto é meramente eleitoreira.
    Vamos aguardar os fatos e ver se isso vai mantê-lo no cargo.

  2. Perfeito Caio, wie immer. “Eles” são tão falsos que a escala usada no mundo todo não é 6×1, mas 5,5 x 1. Sábado é meio expediente até na China. Mas eles arredondam para 6 para criar a ideia de que os coitados dos trabalhadores só têm 1 dia de descanso. Falsos, enganadores assim como o líder Luiz Inácio.

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