O Texas é aqui (e lá não tem nada parecido)

Havia um congestionamento incomum nos céus de Nazário, cidade de 20 mil almas a 80 quilômetros de Goiânia, naquele fim de semana. Não de nuvens — de jatinhos. Dezenas deles disputando espaço na pista de pouso da Fazenda Floresta como táxis na saída de um show. Roberto Justus, o homem de negócios mais fotografado do Brasil, nem chegou a pousar: seu jato era grande demais para a pista. Veio de helicóptero. No Brasil profundo, até o problema de logística é de outro nível.
O que reuniu aquela armada aérea foi o JBJ Ranch, o maior leilão de cavalos Quarto de Milha do mundo — título ostentado com a naturalidade de quem, ao ser perguntado sobre o segundo colocado, responde, sentado à cabeceira de uma longa mesa de pedra em escritório espelhado no topo do World Trade Center de Goiânia: “O segundo é o primeiro dos perdedores.” Quem disse foi José Júnior Batista, o Júnior Friboi, presidente do Grupo JBJ Agropecuária e irmão de Joesley e Wesley Batista — a família que transformou um negócio de frigorífico iniciado em 1953 por “Zé Mineiro” no maior conglomerado de carne do planeta.
A festa foi projetada como um tributo a Fort Worth, Texas — o berço do cowboy, da grande criação bovina e do chapéu de aba larga. A equipe criativa fez até visita técnica ao local para acertar a decoração. O salão central reproduzia fachadas de lojas da cidade texana. Um dos bares tinha notas de dólar coladas na superfície, em referência ao The Basement Bar de Fort Worth — e a reportagem que acompanhou o evento fez questão de registrar que ainda não havia confirmação se as cédulas eram apenas cenografia. “Não nos espantaria se fossem verdadeiras”, escreveram, com a resignação jornalística de quem já viu de tudo.
Seis mil convidados foram atendidos por dois mil funcionários — proporção de atendimento que a maioria dos hospitais públicos brasileiros observaria com curiosidade científica. A meta era arrecadar R$ 150 milhões com a venda dos animais. Foi batida com folga: R$ 257 milhões em um único fim de semana. A estrela da edição foi o garanhão Inferno Sixty Six, vendido por R$ 44 milhões — adquirido em sistema de “condomínio”, com cotas distribuídas entre a JBJ, o Haras Frange e Domenico Lomuto.
Na plateia, quando um dos primeiros cavalos apareceu com lance inicial de R$ 10 mil, alguns jornalistas da mesa de imprensa chegaram a se animar, confabulando possíveis sociedades. A ilusão durou o tempo necessário para descobrir que os R$ 10 mil eram o valor de cada uma das 55 parcelas do negócio — totalizando R$ 550 mil por um animal considerado barato para os padrões do leilão.
A cada lance vencedor, o cavalo subia ao palco ao som de música estridente, com glitter polvilhado sobre o pelo. Quase uma rave western — a descrição é da reportagem, e é perfeita.
Do lado de fora: shows de Paula Fernandes e Maiara & Maraisa. Diamantes avaliados em R$ 700 mil desfilando sobre decotes. Botas Hermès em quantidade suficiente para abastecer uma boutique em Paris. Chapéus de cowboy chegando a R$ 100 mil a unidade — o equivalente a vinte salários mínimos de proteção solar.
Entre os presentes, Wesley Batista, Eike Batista, Alexandre Negrão (que horas depois embarcou para São Paulo para um casamento civil com herdeira de bilionário do setor imobiliário — o networking nunca para), Gusttavo Lima, Roberto Justus com a influenciadora Ana Paula Siebert especulando sobre um cavalo de olhos azuis que combinava com os do marido, e o governador de Goiás, Daniel Vilela, que compareceu com a naturalidade de quem nunca perde um evento importante.
A JBJ Agropecuária foi criada em 2012 com faturamento de R$ 100 milhões. Em 2025, chegou a R$ 6 bilhões. Para 2026/2027, projeta R$ 10 bilhões. O grupo tem 14 fazendas — sete em Goiás, três no Tocantins, três no Mato Grosso, uma no Mato Grosso do Sul — totalizando 150 mil hectares. Abate mais de 500 mil bois por ano, exporta 70% da produção, tem a China como maior compradora e emprega 4.500 funcionários. A frente equina começou com R$ 9 milhões em 2021 e cresceu 2.855% em cinco anos. Tudo isso, segundo Fabrício Batista, CEO da empresa e filho de Júnior Friboi, começou quando ele pediu ao pai para comprarem uma égua para as crianças da fazenda brincarem.
No Texas, eles foram buscar os melhores animais. Hoje, vendem de volta para os americanos. “Antes, os EUA eram os maiores produtores de carne bovina do mundo. Hoje, são os primeiros dos perdedores”, diz Fabrício — com uma cadência de frase que claramente é genética da família.
O seriado Dallas dos anos 1980 — aquela saga de petróleo, fazenda, poder e chapéu de cowboy que hipnotizou o mundo — parece, em retrospecto, uma produção de orçamento contido. O Texas original deve olhar para o Cerrado goiano com uma mistura de admiração e inveja.
O Brasil que produz R$ 257 milhões em cavalos num fim de semana é o mesmo que exporta mais carne bovina do que qualquer país do mundo, que financia boa parte do PIB nacional e que, paradoxalmente, vive sob uma carga tributária que tornaria qualquer fazendeiro texano apoplético.
Mas não se preocupe — enquanto Brasília debate a décima reformulação do Bolsa Família e o governo celebra mais um programa de transferência de renda como conquista civilizatória, em Nazário os garanhões sobem ao palco com glitter no pelo e as parcelas de R$ 10 mil por mês são consideradas pechincha.
O país da desigualdade que nunca acaba tem um talento raro: produzir, simultaneamente, os melhores discursos sobre a pobreza e os leilões mais caros do mundo. Às vezes, no mesmo fim de semana.





