Opinião

O sistema em pleno funcionamento

Existe uma arte específica, cultivada com maestria em Brasília, que consiste em fazer o tempo trabalhar a favor do culpado e a serviço da impunidade de sempre.

Daniel Vorcaro, arquiteto da maior fraude financeira da história do país, está entre os seus praticantes mais aplicados do momento.

O dono do famigerado Banco Master está para apresentar sua segunda proposta de delação premiada à Polícia Federal. A primeira foi rejeitada. Esta, ao que tudo indica, será rejeitada também.

Não porque o banqueiro não tenha o que contar — tem, e muito —, mas porque o que ele oferece não corresponde ao que as investigações já descobriram por conta própria.

A Polícia Federal quebrou o sigilo de sete celulares seus. Ouviu corréus e investigados. Avançou. Sabe de sobra. O que Vorcaro entrega nas propostas é uma versão curada, expurgada dos grandes nomes, uma confissão arquitetada para proteger os que precisam ser protegidos.

Uma delação sem delatados, por assim dizer.

O que evita a todo custo é apontar os grandes cúmplices e beneficiários de sua organização criminosa — aqueles que, ao longo dos anos, lucraram, se protegeram ou simplesmente fecharam os olhos em troca de favores, contratos e generosidades várias.

Ele não está, portanto, negociando com a Justiça. Está ganhando tempo — à espera do que, nos velhos faroestes americanos, resolvia tudo nos últimos minutos: a cavalaria. Aquela tropa que chegava a galope quando os cercados já não tinham mais saída, salvando quem precisava ser salvo e enterrando o episódio na poeira do caminho.

No caso de Vorcaro, a cavalaria tem toga, pauta deliberativa e, de vez em quando, pedido de vista na hora certa.

Ou seja: Vorcaro espera ser salvo pelo sistema — e o sistema, por sua vez, precisa ser salvo por ele.

O sistema ao qual aposta suas fichas tem endereço conhecido: o alto escalão do governo Lula, ministros do STF — com destaque para Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques, os mais citados nas investigações —, senadores, deputados federais e caciques partidários do mais amplo espectro político, de esquerda e de direita, salvo raras e honrosas exceções.

Mas a relação não é de um lado só. Vorcaro quer ser salvo pelo sistema — e o sistema precisa que ele continue calado. É uma troca silenciosa, sem contratos assinados, mas perfeitamente compreendida por todos os envolvidos.

Na semana que vem, o STF decide se Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, sai da prisão. O julgamento já foi suspenso por pedido de vista de Gilmar Mendes — detalhe que, para quem acompanha o roteiro desde a Lava Jato, tem a familiaridade de um tema musical muito bem conhecido. Se o script seguir os trilhos, Henrique será recategorizado de réu a vítima de coerção, e a liberdade virá embalada em garantias constitucionais.

O passo seguinte seria a Procuradoria-Geral da República homologar uma delação convenientemente higienizada. A PGR, órgão de natureza eminentemente política, tem razões próprias para não se apressar — e são razões que não precisam ser explicadas em voz alta para serem compreendidas.

Já a Polícia Federal, instituição de Estado com menos compromissos de pauta, é quem de fato empurra as investigações para a frente. A diferença entre as duas não é de velocidade. É de interesse.

Há quem estude, inclusive, a hipótese mais elegante: a PGR simplesmente não aceitar a delação enquanto Vorcaro segue encarcerado — por ora. Preso preventivamente, sem prazo definido, e com o relógio correndo.

Não seria surpresa se, antes que qualquer acordo se firme, ele ganhasse a liberdade pela via mais prosaica: o excesso de tempo de custódia que a própria lei não tolera indefinidamente.

Em qualquer dos cenários, o próprio banqueiro poderia declarar, com a compostura de quem saiu ileso de um incêndio que ele mesmo ateou, que as instituições estão funcionando.

E funcionando estão, a seu modo.

Enquanto a delação circula entre rejeições e rascunhos, os celulares apreendidos vão revelando outra dimensão da história — a que acontecia do lado de fora dos balanços e das planilhas.

Em maio de 2024, Vorcaro gastou mais de R$ 3,7 milhões em uma única noite, numa suíte presidencial em Nova York, num evento que ficou conhecido como a “noite das astronautas”.

Os convidados, todos homens, todos com mandato ou toga ou cargo de peso, foram entretidos por belas “modelos” russas e ucranianas vestidas com malhas prateadas e acessórios de vidro que simulavam trajes espaciais — contratadas como “artistas” responsáveis por “performances”, na linguagem da prestação de contas encontrada pela Polícia Federal.

O fetiche espacial é novidade; a lógica, não.

Trocaram-se as costumeiras fantasias de enfermeira, babá, faxineira e diabinha, disponíveis nas sex-shops, pelo sofisticado traje de astronauta, mas o roteiro permanece o mesmo que acompanha o imaginário masculino do poder desde que o poder existe.

Noutra noite, no Carnegie Club em Manhattan, a algumas quadras do Central Park, Vorcaro reuniu senadores, deputados e o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, para uma degustação de uísques e charutos que custou mais de R$ 5,3 milhões.

Cada convidado saiu com uma garrafa de Macallan 25 anos — avaliada em R$ 30 mil — e uma caixa de charutos sob o braço.

Entre os presentes estavam o senador Ciro Nogueira, os deputados Hugo Motta, Marcos Pereira, Isnaldo Bulhões e Doutor Luizinho, vários deles cotados à época para disputar a presidência da Câmara. Motta foi eleito para o cargo meses depois. A garrafa de 30 mil, aparentemente, não pesa no currículo.

No meio desse escândalo descomunal, convém lembrar sempre que o rombo que o Banco Master deixou no Fundo Garantidor de Crédito já chega a R$ 52 bilhões — o maior da história do sistema bancário brasileiro, maior que o lucro líquido do Itaú, do Bradesco, do Banco do Brasil e do BTG, cada um deles.

Dinheiro de pequenos investidores, de fundos de previdência de estados e municípios, de brasileiros que confiaram suas economias a uma instituição que por dentro funcionava como uma organização criminosa de alto padrão: com orçamento generoso para russas e ucranianas em traje espacial, uísques raros e a lealdade de quem governa, legisla e julga.

Há uma palavra precisa para descrever um lugar onde o poder se compra, onde favores se trocam por entretenimento noturno de luxo e onde a proteção se garante com Macallan e malhas prateadas. Essa palavra é prostíbulo.

Não é elegante. Mas é exata.

E é dentro dela que, ao que tudo indica, boa parte da República brasileira tem feito seus negócios.

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