Opinião

Galípolo e o limite da lealdade

Há momentos em que a política, na sua vocação mais rasteira, aposta todas as fichas naquilo que considera previsível: a lealdade automática, a obediência silenciosa, a conveniência ideológica.

E é justamente nesses momentos que a realidade — às vezes encarnada em uma única pessoa — desmonta o enredo inteiro.

O caso do Banco Master, com seu rombo superior a R$ 50 bilhões e o abalo no Fundo Garantidor de Crédito, virou rapidamente um campo de batalha narrativo.

Antes mesmo de se consolidarem todas as evidências, Lula e o PT já tinham um culpado pronto: Roberto Campos Neto. Não por aquilo que fez, mas pelo que representa — o elo com o governo anterior, a herança incômoda, o alvo conveniente.

O roteiro parecia simples. Bastava alinhar o discurso, repetir a acusação em série e transformar suspeita em versão oficial.

Não por acaso, a crise passou a ser tratada também sob a lógica eleitoral, com o receio de contaminar o projeto de reeleição. Em meio a isso, expressões fortes foram lançadas ao debate — o “ovo da serpente” de um passado que se pretendia responsabilizar.

O problema é que toda narrativa precisa de um fiador com credibilidade. E foi exatamente aí que a engrenagem emperrou.

Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, indicado por Lula e com trajetória ligada ao campo econômico do próprio PT, recusou-se a cumprir o papel que dele se esperava nos bastidores.

Ou seja, negou-se a endossar a mentira.

Na CPI do Crime Organizado, diante da pergunta direta — se havia culpa de seu antecessor no episódio — respondeu com o que a política mais teme: a ausência de ficção.

“Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos Neto.”

Não foi apenas uma resposta. Foi um desmonte.

Porque, quando a absolvição vem do adversário, ela carrega um peso que nenhuma defesa interessada alcança.

Galípolo tornou-se, por força das circunstâncias e por escolha pessoal, o advogado improvável de Campos Neto — e, mais do que isso, um obstáculo incômodo a uma estratégia que dependia exatamente do contrário: da sua adesão.

A reação veio rápida, e sem nenhuma sutileza, através de uma saraivada de comentários depreciativos postados por petistas ilustres nas redes sociais contra o atual presidente do BC. Chegaram a acusá-lo de blindar Campos Neto e Bolsonaro. Uma espécie de alta traição.

O desconforto do Planalto com o “companheiro” não é difícil de entender.

Esperava-se alinhamento; encontrou-se independência. Esperava-se narrativa; veio a honestidade. Esperava-se conveniência; surgiu caráter.

E caráter, na política, costuma ser visto como uma espécie de indisciplina.

Há, claro, quem tente reduzir o episódio a um detalhe institucional, a um excesso de zelo técnico. Não é.

O que está em jogo ali é algo mais raro: a recusa explícita de um homem de governo em servir à distorção dos fatos, mesmo quando essa distorção interessa diretamente ao grupo que o nomeou.

Galípolo não defendeu Campos Neto. Defendeu algo mais simples — e, por isso mesmo, mais difícil: a verdade possível dentro dos limites técnicos disponíveis.

Num ambiente em que a culpa muitas vezes é distribuída antes mesmo de ser apurada, isso basta para provocar irritação.

E revela, talvez sem intenção, o ponto mais sensível de toda a história: não é que faltem culpados. O que falta é a disposição de encontrá-los onde eles realmente estão.

Porque, no fim das contas, quando até o aliado se recusa a mentir, o problema já não é mais de narrativa — é de realidade.

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3 Comentários

  1. Excelente a materia Caio. Nesse dia, caíram por terra até então, as tentativas dessa corja de ladrões, que tomou de assalto o Brasil, de tirar a culpa dessa gangue, incluindo Executivo, Legislativo, com a maioria com seus, com rabos presos em falcatruas, e STF, exclua-se Fux e Mendonça. Nestes a nossa esperança, que possa haver verdadeiramente JUSTIÇA em nosso país. Para eles, nossas orações para sustentarem a esperança do povo brasileiro.

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