Opinião

Bloco de Notas

1 – Paraná ensina o Brasil a fazer o dever de casa

Enquanto o país segue tropeçando nas próprias estatísticas educacionais, o Paraná resolveu dar uma aula — literalmente.

Os resultados do Pisa 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela OCDE e pelo Inep, colocam o estado em primeiro lugar entre todas as unidades da federação nas quatro áreas avaliadas: Ciências, Leitura, Matemática e Resolução Computacional de Problemas.

Mais do que isso, os estudantes paranaenses superaram todos os países latino-americanos participantes da avaliação nesses mesmos quesitos, um feito que nenhum outro estado brasileiro pode reivindicar.

O Pisa é o principal termômetro educacional do planeta: aplicado a cada três anos pela OCDE, a organização que reúne as economias mais desenvolvidas do mundo, avalia estudantes de 15 anos em dezenas de países para medir se eles sabem, de fato, ler criticamente, resolver problemas matemáticos e mobilizar conhecimento científico diante de situações reais — não decorar fórmulas, mas pensar com elas.

Na edição de 2025, Ciências foi o eixo central da prova, com maior peso na avaliação da capacidade de interpretar dados e julgar a credibilidade de informações.

O Paraná não participa como unidade independente, como fazem os países, mas seus resultados são apurados na mesma escala internacional, o que torna a comparação com nações inteiras não apenas possível, mas legítima.

Os números não deixam margem para o discurso de sempre de que se trata de coincidência estatística. Em Ciências, o Paraná obteve 461,6 pontos, contra uma média nacional de 408,5 — uma vantagem de 19 pontos sobre São Paulo, segundo colocado no país. Em Leitura, foram 458 pontos ante 408 da média brasileira, com 24,3 pontos de folga sobre os paulistas. Em Matemática, 423,1 pontos contra 376,8 do Brasil, 19,3 pontos à frente de São Paulo. E em Resolução Computacional de Problemas, 467,4 pontos, quando a média nacional mal passa de 405,5.

A comparação internacional é onde o resultado ganha peso simbólico. O Uruguai, historicamente o melhor da América Latina em Ciências e Matemática, ficou 16,6 e 18,1 pontos atrás do Paraná, respectivamente. O Chile, referência regional em Leitura, foi superado em 22 pontos. Mesmo em Resolução Computacional de Problemas, terreno em que os chilenos vinham na ponta, o Paraná levou a melhor por um ponto.

Para o governador Carlos Massa Ratinho Junior, o resultado “é fruto do trabalho de toda a nossa rede estadual de educação”, somado a investimentos em tecnologia, no programa de intercâmbio Ganhando o Mundo e na merenda escolar.

Já o secretário de Educação, Roni Miranda, prefere ler o resultado como responsabilidade antes de conquista: “a educação precisa preparar os jovens para interpretar informações, resolver problemas, tomar decisões e atuar em uma sociedade cada vez mais complexa e digital”, disse, atribuindo o avanço ao acompanhamento da aprendizagem, à formação docente e ao uso pedagógico de ferramentas digitais.

O Brasil, no conjunto, segue colecionando posições modestas nos rankings mundiais de educação — mas há uma exceção que expõe a regra: um único estado, sozinho, superou nações inteiras.

É o tipo de dado que deveria constranger mais do que orgulhar — não pela conquista paranaense, mas pela distância que o resto do país ainda precisa percorrer.

2 – A imprensa que jura não ter time

Toda vez que um jornalista garante, de peito estufado, que faz um trabalho “isento”, vale lembrar de um número que anda incomodando bastante gente na profissão.

Levantamento do Perfil do Jornalista, coordenado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cruzado com pesquisas recentes sobre o posicionamento político da população brasileira, mostra que a maioria dos brasileiros se declara de direita — enquanto entre os jornalistas essa mesma identificação é praticamente um fóssil raro.

Nos nove estados analisados pela sondagem, a esquerda, a centro-esquerda e até a extrema esquerda somam, juntas, pelo menos 70% dos profissionais. No Ceará, o índice chega a 90,1%; no Rio de Janeiro, a 87,5%; no Rio Grande do Sul, a 80,5%.

Mesmo nos estados onde a categoria é “menos vermelha”, como Paraná e Santa Catarina, a proporção identificada com a direita ou centro-direita não passa de 6,8% e 6,4%, respectivamente.

A média das nove praças é de 79,7% de jornalistas à esquerda contra meros 4,1% à direita — um abismo que a própria pesquisa de 2022, em nível nacional, já havia flagrado: 81% entre esquerda e centro-esquerda, contra apenas 4% do lado oposto.

Os números do TSE reforçam o retrato. Entre mais de 20 mil candidaturas registradas, 28,1% dos jornalistas-candidatos estão filiados a partidos de esquerda, contra 15,1% em legendas de direita. PDT, PSB, PSOL e PT lideram a preferência partidária da categoria; do outro lado, Novo, PL e Missão dividem o que sobrou.

Não é preciso ser estatístico para perceber que esse desequilíbrio homogêneo não fica trancado nas convicções pessoais de cada repórter.

Ele vaza — na pauta escolhida, no adjetivo emprestado, na entonação da manchete.

Explica muito da cobertura simpática às causas de esquerda e do escrutínio quase sempre mais ácido reservado à direita nos grandes veículos.

A pesquisa não inventou nada: apenas fotografou o que o leitor atento já sentia na pele.

3 – O fiscal que também precisava de fiscal

Com a naturalidade de quem noticia a mudança de horário de verão, a imprensa registrou que Benedito Gonçalves, ministro do Superior Tribunal de Justiça, assumiu a Corregedoria Nacional de Justiça.

Ficará no posto até 2028, encarregado de analisar denúncias disciplinares contra juízes, fiscalizar tribunais e zelar pela celeridade da Justiça. Ou seja: o homem que vai vigiar os vigilantes.

Nenhuma linha, é claro, recuperou a cena que o tornou nacionalmente conhecido — o abraço e o sussurro dados a Alexandre de Moraes durante a diplomação de Lula à Presidência, em dezembro de 2022: “Missão dada, missão cumprida”.

Qual seria essa missão, exatamente? A curiosidade da grande imprensa, nesse ponto específico, sempre foi surpreendentemente modesta. Mas as pistas não faltam: como corregedor-geral da Justiça Eleitoral, coube a Benedito relatar as ações que resultaram na inelegibilidade de Jair Bolsonaro e Walter Braga Netto por oito anos. Imparcialidade cristalina.

Também não constou nos relatos elogiosos o episódio de abril de 2024, quando Benedito participou, em Londres, de um evento jurídico patrocinado pelo Banco Master — o mesmo de Daniel Vorcaro —, com direito a degustação paralela de whisky Macallan de custo estimado em R$ 3,3 milhões.

O contato do ministro, aliás, estava salvo no celular do banqueiro, apreendido pela Polícia Federal. Ninguém achou estranho.

Há ainda a delação premiada de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, na qual o empreiteiro relatou reuniões com Benedito entre 2013 e 2014 para tratar de causas da empresa no STJ — com direito a menção a julgamentos favoráveis e a um pedido de apoio para uma futura indicação ao STF.

Em setembro de 2025, o governo americano revogou o visto do ministro, no bojo das sanções a autoridades ligadas aos processos contra Bolsonaro. Os Estados Unidos enxergam ali um militante disfarçado de magistrado; o Brasil, aparentemente, prefere condecorá-lo.

A indicação, vale lembrar, passou pelo Senado por 53 votos a 16 — Casa hoje presidida por Davi Alcolumbre, que ao lado de Hugo Motta selou recentemente com Lula um acordo para destravar pautas de interesse eleitoral do governo.

Chamam isso de harmonia entre os Poderes. O dicionário talvez precise de uma nova entrada.

4 – A amiga que ninguém no Planalto conhecia

Investigada por suposto tráfico de influência ao lado de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger tinha um álbum de Instagram digno de recepção oficial.

Ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, fotografados com ela no STF em agosto de 2023 — “muito bem acompanhada”, escreveu ela, entre os dois últimos.

Flávio Dino, celebrado numa publicação de novembro daquele ano. O vice-presidente Geraldo Alckmin. Ministros do governo como Wellington Dias, Alexandre Padilha, Gleisi Hoffmann e Nísia Trindade. Fernando Haddad, acompanhado numa agenda de campanha em Carapicuíba e Osasco. E, claro, o próprio Lula, em diversos registros ao longo dos anos, inclusive durante a pandemia.

Diante de tanta memória fotográfica, causou certo espanto o presidente afirmar, em sabatina na TV Globo, que nunca havia visto a moça.

Questionado sobre as investigações que envolvem seu filho, chamou-a de “pilantra” e “malandra” — um adjetivo daqueles que, aplicado à pessoa errada, viraria escândalo, mas que na boca certa passa quase despercebido.

O problema é que a “pilantra” circulava com tanta desenvoltura pelos gabinetes de Brasília que só faltava mesmo uma foto ao lado de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do próprio Lula, de quem ela teria pago despesas, segundo as investigações.

O trânsito de Roberta por STF, STJ e Palácio do Planalto não é apenas um detalhe pitoresco da vida de uma lobista bem relacionada.

É um retrato involuntário — mas fartamente documentado em fotos de festas e convescotes — da distância cada vez menor entre os Poderes que, em tese, deveriam se fiscalizar mutuamente.

5 – O testemunho que promete escancarar os cofres do Master

João Carlos Mansur, ex-dono e ex-presidente do conselho da Reag Investimentos, entregou à Procuradoria-Geral da República uma proposta de delação premiada com um alvo nítido: Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Segundo apurou-se, Mansur afirma ter informações sobre cerca de R$ 20 bilhões em ativos que estariam ocultos no Brasil, registrados em nome de terceiros e escondidos atrás de fundos de investimento.

O material, com 17 anexos, chegou a passar por ajustes finais antes de uma eventual assinatura formal — e a proposta prevê o pagamento de R$ 40 milhões em multas por parte de Mansur.

Ele e Vorcaro já haviam tentado, no passado, negociar uma colaboração conjunta, quando compartilhavam o mesmo advogado; as informações apresentadas na ocasião foram consideradas insuficientes pelos investigadores.

Agora, com nova defesa, Mansur concentrou o material exclusivamente na atuação do ex-banqueiro, citando dinheiro, direitos creditórios, imóveis e recursos registrados em nome de laranjas.

Curiosamente, o próprio Vorcaro prestou depoimento à Polícia Federal dias atrás, no inquérito sobre suposta corrupção de servidores do Banco Central.

Negou o crime, mas, segundo sua defesa, sinalizou disposição para colaborar de forma mais ampla numa eventual delação — depois de já ter tido duas propostas recusadas.

A disputa por quem entrega mais informação primeiro promete ser mais um capítulo e tanto para agitar os bastidores de Brasília. Novidades, seguramente, ainda vêm por aí.

6 – Da casca do grão à energia da caldeira

A Lar Cooperativa Agroindustrial conquistou o primeiro lugar na categoria Cooperativas de Produção do prêmio Campeãs da Inovação 2026, promovido pelo Grupo Amanhã em parceria com o IXL Center.

Não é a primeira vez: desde 2021, a cooperativa acumula cinco primeiros lugares e uma segunda colocação na mesma categoria — uma sequência de resultados que já deixou de ser coincidência para virar método.

Na 22ª edição do levantamento, a metodologia avalia a capacidade das organizações de gerir a inovação a partir de dimensões como cultura, estratégia, processos, recursos e resultados — ou seja, não basta ter uma boa ideia isolada; é preciso mostrar que a inovação está de fato incorporada à gestão do dia a dia.

Na Lar, esse programa existe desde 2016 e hoje reúne seis frentes de atuação, que vão da eficiência operacional e melhoria contínua ao desenvolvimento de novos produtos, novos negócios e cultura interna, passando por iniciativas que estimulam a participação direta de funcionários e associados — do campo às unidades industriais, laboratórios e áreas administrativas.

O case premiado nesta edição ilustra bem essa lógica. Batizado de “Eficiência no uso dos recursos e geração de energia a partir de resíduos”, o projeto nasceu de um problema simples: o que fazer com os resíduos vegetais do beneficiamento de soja e milho, que antes eram armazenados a granel ou em bags e sofriam com deterioração, contaminação e perda de qualidade.

A solução encontrada foi transformar esse material, por meio de secagem e compactação, em briquetes capazes de gerar energia — hoje usados como biomassa, junto com cavacos de eucalipto, nas caldeiras e sistemas de secagem da cooperativa.

A aplicação já funciona em Caarapó, no Mato Grosso do Sul, e passa por testes em outras unidades, com possibilidade de expansão.

“Inovar significa encontrar soluções que tornem a operação mais eficiente, segura, sustentável e preparada para o futuro”, resumiu o diretor-presidente da Lar, Irineo da Costa Rodrigues.

De fato, poucas coisas são mais originais do que converter um resíduo indesejado em recurso energético, consolidando uma das maiores cooperativas agroindustriais do Brasil entre as referências nacionais em inovação.

7 – O parlamento que abriu as portas e não fechou mais

Pelo segundo ano consecutivo, a Assembleia Legislativa do Paraná recebeu o Selo Diamante do Programa Nacional de Transparência Pública, concedido pela Atricon (Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil), alcançando 100% de cumprimento nos critérios avaliados.

A conquista coloca o parlamento paranaense no topo do ranking nacional de transparência — um resultado que não caiu do céu.

A evolução impressiona pelo ritmo: em 2023, a Casa cumpria 59,10% das exigências do programa; em 2024, saltou para 95,32%; em 2025, bateu os 100%.

Entre os fatores que explicam o avanço estão a reformulação completa do Portal da Transparência, a implementação de ferramentas de acessibilidade para pessoas com deficiência e a liberação ampla de dados abertos e agendas de comissões — mudanças que tiraram a transparência do discurso e a colocaram, de fato, ao alcance de um clique do cidadão comum.

A gestão administrativa e financeira da Casa é comandada pelo primeiro-secretário, deputado estadual Gugu Bueno (PSD), primeiro parlamentar de Cascavel a ocupar o cargo, ao lado do presidente da Alep, deputado Alexandre Curi. “Esse resultado é a comprovação daquilo que a gente busca fazer todo dia à frente da gestão da Assembleia Legislativa: uma gestão eficiente, sempre buscando fazer mais com menos”, resumiu Bueno.

Curi, por sua vez, destacou a criação de uma comissão permanente dedicada a adequar o portal aos critérios dos órgãos de controle.

Nas eleições deste ano, Gugu Bueno disputa a reeleição para deputado estadual, enquanto Curi concorre a uma vaga no Senado — ambos no mesmo grupo político do governador Ratinho Junior, que tem em Sandro Alex seu candidato ao Palácio Iguaçu.

O resultado prático dessa engrenagem administrativa não ficou só no papel: no ano passado, a Assembleia economizou cerca de R$ 600 milhões, a maior economia de sua história, colocando-a entre as duas Casas legislativas mais econômicas do país — recurso que, em parceria com o governo estadual, foi revertido diretamente para os municípios.

Transparência que também é economia é, convenhamos, um tipo raro de excelência na administração pública brasileira.

8 – Duas garrafas, uma carreira

Poucos episódios ilustram tão bem a distância entre o discurso e a prática judicial quanto o desfecho da carreira de Eduardo Appio na magistratura federal.

A 13ª Vara Federal de Curitiba foi o palco onde a Operação Lava Jato desvendou, a partir de 2014, o esquema de corrupção na Petrobras sob a condução do então juiz Sergio Moro — até ele deixar a magistratura, em 2019, para se tornar ministro da Justiça do governo Bolsonaro.

Passou depois pelas mãos de outros magistrados, como Luiz Antonio Bonat, até que, em fevereiro de 2023, Eduardo Appio assumiu o posto — já com a operação em fase avançada de desmonte pelo Supremo Tribunal Federal — e não escondeu a postura crítica em relação à condução anterior dos trabalhos.

Agora, esse mesmo juiz acaba de perder o cargo e o salário, por 15 votos a 2 na Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, sediado em Porto Alegre. O caso segue para o Conselho Nacional de Justiça, que deve ratificar ou não a sentença.

O episódio que selou o destino do magistrado tem um quê de comédia trágica: câmeras de segurança de um supermercado em Blumenau o flagraram furtando duas garrafas de champanhe francesa Moët & Chandon — cada uma avaliada em cerca de R$ 400.

Espumante gaúcho, diga-se, sai mais barato e não fica atrás em qualidade, mas isso é outra discussão. O carro usado na fuga, um Jeep Compass registrado em nome do próprio juiz, entregou o que as câmeras já mostravam.

Appio nunca escondeu sua devoção ao presidente Lula: chegou a assinar processos sob o codinome “LUL22” no sistema da Justiça Federal e fez doações à campanha petista em 2018 e 2022.

Fã declarado, portanto, do mesmo presidente que uma vez tratou com certa complacência quem furta celular “pra comprar uma cervejinha”.

Pela mesma régua, talvez o próprio Appio mereça o benefício da dúvida: afinal, ninguém morre por dois goles de champanhe roubado.

A ironia, aqui, escreve sozinha — o juiz que deveria encarnar o respeito à lei tropeçou justamente no artigo mais elementar do Código Penal, e o fez em nome de um brinde que nem sequer foi pago.

9 – Quando o ator digital não pede cachê

Na China, a rápida adoção de ferramentas de inteligência artificial para produção de vídeos e conteúdo de comércio eletrônico já ameaça um setor que emprega diretamente centenas de milhares de pessoas.

No primeiro trimestre deste ano, o país lançou cerca de 128 mil séries de episódios curtos para plataformas digitais — mais do triplo do que havia sido produzido em todo o ano anterior.

Segundo a Associação Chinesa de Serviços de Difusão pela Internet, cerca de 95% dessas produções já nascem geradas por inteligência artificial, sem atores, sem câmeras, sem intervalo para o almoço da equipe.

O detalhe mais curioso — e mais perverso — desse movimento é que boa parte dessas réplicas digitais nasce da colaboração voluntária dos próprios atores e de pessoas comuns.

Plataformas como a ActID e a New Claw já conectam donos de rosto a empresas interessadas em transformá-los em personagens virtuais: mediante pagamentos que variam de cerca de US$ 15 a US$ 700, dependendo do tipo de licença, o participante cede o direito de uso de sua imagem, voz e expressões para que a inteligência artificial gere avatares capazes de atuar, falar e interpretar personagens sem que a pessoa precise sequer aparecer diante de uma câmera.

Na prática, atores e figurantes estão sendo pagos para treinar o próprio substituto — um efeito colateral raramente mencionado quando se fala em automação do trabalho, mas que talvez seja o mais eloquente de todos: aqui, a vítima ajuda a fabricar a arma.

A automatização também já provoca disputas trabalhistas envolvendo o uso não autorizado da imagem, da voz e do estilo de interpretação de profissionais reais.

Em Hangzhou, um dos polos tecnológicos do país, a Justiça determinou que uma empresa indenizasse um trabalhador substituído dessa forma sem consentimento — um pequeno freio judicial num movimento que, do ponto de vista tecnológico, parece cada vez mais irreversível.

O temor do desemprego causado pela inteligência artificial deixou de ser hipótese de futuro distante: já é notícia de jornal, com data e capítulo específicos, sobre atores que se veem obrigados — ou tentados pelo dinheiro fácil — a ceder o próprio rosto ao algoritmo que um dia poderá dispensá-los de vez.

10 – Quem vai limpar a sujeira que ficou

Um comentário do presidente Lula sobre a profissão dos garis, feito num comício em Belo Horizonte no último dia 29 de agosto, rendeu uma resposta à altura do jornalista e escritor Paulo Briguet.

Na ocasião, Lula disse: “Quando eu passo na rua e eu vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre, porque não é uma profissão que dá orgulho: ‘Eu sou lixeiro’. O cara tem orgulho de falar: ‘Eu sou engenheiro’, ‘eu sou médico’. Mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pôde estudar.”

Na sequência, tentou suavizar o tom dizendo esperar que essas pessoas soubessem da “importância” do próprio trabalho — como quem primeiro descarta o valor de uma profissão para, só depois, lembrar-se de elogiá-la.

Em crônica publicada sob a forma de carta aberta, Briguet contrapõe o próprio ofício — o de lidar com palavras — à grandeza cotidiana do trabalho de quem recolhe o lixo das ruas, e não esconde a indignação com a leveza com que o chefe do Executivo tratou uma categoria que, sem alarde, garante a saúde e o funcionamento das cidades brasileiras.

O texto ganha ainda mais força ao lembrar que o mesmo presidente que hoje despreza o trabalho dos garis já defendeu publicamente, em outra ocasião, quem furta celular “para comprar uma cervejinha” — uma escala de valores em que o trabalho honesto rende menos consideração do que o pequeno delito relativizado por conveniência discursiva.

É nesse ponto que a crônica encontra seu centro de gravidade.

Depois de percorrer a história da retórica sobre a dignidade do trabalho manual — do comunista Trotsky, que sonhava com um mundo em que todo lixeiro seria um Aristóteles, ao escritor tchecoslovaco Ivan Klíma, proibido de escrever pelo regime socialista e reduzido a varrer ruas —, Briguet chega à pergunta que sustenta todo o texto: quem será capaz de limpar toda a sujeira que essa gente deixou?

Tarefa para muitas gerações, segundo ele — e da qual, ironicamente, todos os brasileiros parecem condenados a participar, um pouco garis cada um.

11 – Degustação histórica barrada na estrada

Na madrugada deste domingo, dia 6, a Receita Federal abordou, na BR-277, em São Miguel do Iguaçu, no oeste do Paraná, um veículo com cinco ocupantes — dois casais e uma adolescente, todos moradores de Foz do Iguaçu — que vinha do Paraguai carregado de garrafas de vinho sem uma única nota fiscal.

Ao todo, cerca de 45 rótulos estrangeiros, sem qualquer comprovação de entrada regular no país.

As imagens divulgadas pela própria Receita explicam por que essa não é mais uma apreensão de rotina na fronteira.

Entre as garrafas estão exemplares de Pétrus, da região de Pomerol, em Bordeaux — um dos rótulos mais cobiçados do planeta, produzido em escala tão reduzida que uma única garrafa de boa safra costuma valer, sozinha, o equivalente a um carro popular.

Ao lado, garrafas de Château Trotanoy, também de Pomerol e da mesma família Moueix responsável pelo Pétrus: um rótulo mais discreto que o “irmão” ilustre, mas ainda assim reverenciado entre os conhecedores de Bordeaux.

Não é a adega de quem pretende brindar num churrasco de fim de semana.

O motorista disse aos fiscais que levava os vinhos para “um amigo” em São Paulo, aproveitando a viagem para dar carona aos demais ocupantes, com destino a Pilar do Sul.

Amizade, aliás, das mais caras: o conjunto de garrafas raras foi avaliado em meio milhão de reais — verdadeiras joias da vitivinicultura mundial.

Um brinde e tanto à malandragem nacional, envelhecida em carvalho francês, destilada em pura sonegação. Santé!

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