Opinião

Todos saem de casa, nem todos voltam

Há um ritual silencioso que se repete todas as manhãs no Brasil: portas que se fecham, chaves que giram, motores que despertam. Ninguém, ao atravessar a soleira de casa, calcula a hipótese de não retornar. E, no entanto, para milhares de famílias brasileiras, todos os anos, essa é exatamente a sentença que o trânsito impõe — sem aviso, sem apelação.

Os números confirmam a tragédia silenciosa. Segundo dados do Ministério da Saúde, o país já registrou anos com quase 35 mil mortes em acidentes de trânsito — uma vida perdida a cada 15 minutos. Somem-se a isso mais de 300 mil feridos anualmente, muitos com sequelas permanentes, e o retrato que se desenha é o de uma guerra não declarada, travada diariamente nas ruas e rodovias do país.

E é uma guerra que ceifa, sobretudo, os mais jovens: em levantamentos recentes, a faixa etária mais atingida pelas mortes no trânsito é a de 25 a 29 anos, seguida de perto pela de 20 a 24 — justamente os anos em que uma vida deveria estar se afirmando nos estudos, na profissão, na formação de uma família.

Não é exagero afirmar que o Brasil perde, todos os dias, parte de seu futuro produtivo no asfalto.

O prejuízo não se limita à dor das famílias. Estudos do Ipea estimam que a sociedade brasileira perde cerca de R$ 50 bilhões por ano com acidentes de trânsito, somando perda de produção, custos previdenciários e gastos hospitalares — e a Organização Pan-Americana da Saúde vai além, calculando que os sinistros viários podem consumir de 1% a 3% do PIB dos países latino-americanos, o que no caso brasileiro representaria uma cifra ainda mais alarmante.

Apenas em internações pelo SUS, o país gastou R$ 449 milhões em um único ano recente — valor equivalente a mais de mil ambulâncias do SAMU que poderiam estar salvando vidas em vez de remendando as consequências de sua ausência.

E há um efeito colateral pouco discutido: em diversas regiões do país, o volume de vítimas de trânsito sobrecarrega prontos-socorros e leitos de urgência, comprometendo o atendimento de pacientes com outras doenças e emergências, que passam a competir por uma estrutura hospitalar já estrangulada.

É diante desse cenário que a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP) promove, no dia 31 de agosto, segunda-feira, às 19h, o Fórum GLESP 2026: “Prevenção de Acidentes e Mortes no Trânsito”.

A iniciativa nasceu da provocação de médicos maçons, sensibilizados pela dimensão dessa tragédia cotidiana, e resultou em um evento aberto ao público, com entrada gratuita, no Auditório da GLESP, na Rua São Joaquim, 138, no bairro da Liberdade, em São Paulo, e transmissão simultânea pelo canal oficial da instituição no YouTube, o que permitirá que interessados de todo o país acompanhem o debate à distância.

A relevância do Fórum se reflete também na chancela institucional que reuniu: além da GLESP, como realizadora, o evento conta com o apoio da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET), da Santa Casa de São Paulo (ISCSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) — um conjunto de instituições que, juntas, atestam a seriedade e o alcance técnico da iniciativa.

O corpo de palestrantes confere ao evento peso técnico e credibilidade médica: o cirurgião Celso de Oliveira Bernini e a fisiatra Júlia Maria D’Andrea Greve, ambos da FMUSP; José Heverardo Montal, da ABRAMET; Fernando Ribo, especialista em cirurgia buco-maxilo-facial da Polícia Militar de São Paulo; o ortopedista Marcos Musafir, da SBOT; Paulo Candelaria, do Núcleo ATLS da Santa Casa de São Paulo; Luiz Eduardo Montello, do projeto Anjos do Asfalto; e Zied Rasslan, clínico do Hospital Albert Einstein.

Trata-se de uma convocação à consciência coletiva — motoristas, motociclistas, pedestres, todos os que compartilham o mesmo asfalto e o mesmo destino comum.

Não é pauta de nicho, nem discussão de gabinete: é a defesa da vida em sua forma mais elementar, a de simplesmente voltar para casa.

Que o Fórum GLESP sirva, então, não apenas como espaço de reflexão médica e institucional, mas como lembrete definitivo de que nenhuma pressa, nenhuma distração e nenhuma imprudência valem o preço que o trânsito brasileiro continua cobrando — em vidas, em futuro e em hospitais que já não suportam mais perdas evitáveis.

Serviço: Fórum GLESP 2026 — Prevenção de Acidentes e Mortes no Trânsito. Dia 31 de agosto, segunda-feira, às 19h. Auditório da GLESP — Rua São Joaquim, 138, Liberdade, São Paulo/SP. Entrada gratuita. Transmissão ao vivo: youtube.com/@glespoficial

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