Tarifaço: Lula não soube ou não quis negociar?

O tarifaço nasceu como pauta econômica e hoje incendeia a disputa eleitoral. A nova tarifa de 25%, que os Estados Unidos justificam com uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil, virou munição política antes de virar prejuízo para o exportador.
Lula acusa Flávio Bolsonaro e a família de terem se articulado com o próprio governo Trump contra o Brasil; a oposição devolve a acusação, atribuindo ao presidente uma relação hostil e mal calculada com Washington.
Entre os dois nomes mais fortes da corrida de 2026, o assunto virou palanque. É nesse ruído que a voz do embaixador Rubens Barbosa, em entrevista ao Estadão, corta com uma clareza rara: no mundo do tarifaço, vale a lei da selva, e o Brasil chega a esse território armado com as regras de um jogo que já não existe.
Barbosa fala com a autoridade de quem não precisa se explicar.
Embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004, conhece os corredores, os gabinetes e o temperamento de uma potência que decidiu, segundo ele, reescrever unilateralmente as regras do comércio internacional.
Não é voz de oposição, não milita em nenhum lado da trincheira político-eleitoral que se formou em Brasília. É leitura de bastidor, de quem viu o filme antes e sabe onde a trama vai dar.
A tese que ele apresenta é simples e incômoda: as tarifas americanas não nasceram de birra contra Lula, tampouco foram engendradas por Jair Bolsonaro ou por sua família dentro do próprio governo americano, como o Palácio do Planalto insinua.
Começaram em abril do ano passado, atingem mais de 80 países e obedecem a uma lógica que Barbosa descreve com precisão cirúrgica: atrair investimento para o solo americano, corrigir o desequilíbrio comercial e afastar a China do tabuleiro.
O Brasil entrou nessa conta não por ideologia, mas por omissão.
Porque aí está o ponto que o embaixador ressalta com uma insistência quase didática: o Brasil é um dos poucos países do planeta que não negociou acordo comercial com os Estados Unidos.
Enquanto o Reino Unido abriu seu mercado ao etanol americano, enquanto a União Europeia, a Índia, o Vietnã e praticamente toda a Ásia sentaram à mesa e cederam no que era preciso ceder, Brasília escolheu a postura de resistência, o gesto de peito aberto, a nota oficial dizendo que não se dobrou às exigências.
Resistiu, ou fingiu resistir: manteve a aparência de disposição ao diálogo sem nunca sentar de fato à mesa, como se a própria recusa em ceder fosse, disfarçada de princípio, a estratégia.
Só que não se trata de uma negociação em curso, aponta Barbosa: é uma investigação, uma acusação em seis ou sete frentes às quais o Brasil apresentou defesa, e essa defesa simplesmente não foi levada em conta. A tarifa alta, nesse cenário, é reservada a quem não fechou acordo. Não é sofisticado. É aritmética de poder.
O que resultou em alívio concreto para 2.100 produtos brasileiros, o embaixador não deixa por conta do governo: foi o setor privado americano, pressionando a Casa Branca com números de impacto na própria economia dos Estados Unidos, quem conquistou essa exceção.
Não houve, descreve Barbosa, canal minimamente funcional entre o Itamaraty e a Secretaria de Comércio americana, nem entre Brasília e a Casa Branca. Não houve agenda. Não houve terras raras postas na mesa como moeda de troca, apesar de ser esse justamente o único interesse direto que os Estados Unidos têm no Brasil hoje.
E é aqui que a entrevista encontra o que talvez seja o seu momento mais revelador: a política interna descobriu, na crise, uma mina de ouro eleitoral. Barbosa enumera 62 críticas de Lula a Trump ao longo de três anos, um acúmulo que culminou na resposta do secretário de Estado Marco Rubio chamando o presidente brasileiro de egoísta, e na réplica do Itamaraty falando em ataque grosseiro e arrogante.
Nenhum dos duzentos países do mundo, sublinha o embaixador, ameaçou escalar uma disputa dessas contra Washington. Nem a China, que discutiu tarifa no ano passado, chegou a esse ponto.
O Brasil, sozinho, decidiu que valia a pena testar os limites de uma potência que já deixou claro que não tem mais limites.
Barbosa não pede submissão. Defende que o Brasil negocie, cite os próprios interesses, proteja o que precisa proteger, abra o que precisa abrir.
O que ele rejeita, com a delicadeza de quem já disse coisas mais duras em salas mais fechadas, é a confusão entre narrativa política e interesse nacional, entre o discurso de soberania que rende votos e o custo que cai, silencioso, sobre empresas e setores que não têm microfone.
Como resumiu o embaixador, o mundo mudou.
E a verdade, mais dura do que a diplomacia costuma admitir, é que o Brasil do PT não deixou de entender essa mudança: simplesmente escolheu não entender.



