O apetite do dragão

Enquanto o mundo acompanha a disputa entre China e Estados Unidos pelos chips, pela inteligência artificial e pela liderança tecnológica do século XXI, Pequim continua voltada para uma preocupação tão antiga quanto qualquer civilização: garantir comida para sua população.
Reportagem especial publicada pelo Estadão neste domingo (14) mostra que a segurança alimentar passou a ocupar posição central na estratégia chinesa.
Não por acaso.
Com cerca de 1,4 bilhão de habitantes, a China produz muito, mas precisa alimentar uma população equivalente a quase um quinto da humanidade. Com apenas uma pequena parcela das terras aráveis do planeta, transformou a produção de comida em assunto de Estado.
Os Planos Quinquenais, que há décadas orientam o desenvolvimento do país, passaram a tratar a agricultura sob a mesma lógica aplicada à energia, à indústria e à defesa nacional.
O objetivo não é fechar as portas para o mercado internacional, mas reduzir vulnerabilidades. Para isso, os chineses investem pesadamente em biotecnologia, melhoramento genético, sementes de alta produtividade, mecanização, rastreabilidade e novas fontes de proteína.
É justamente nesse ponto que o Brasil entra na equação.
Nas últimas duas décadas, o país consolidou-se como um dos principais fornecedores de alimentos para a potência asiática. A integração entre a demanda chinesa e a capacidade produtiva brasileira ajudou a transformar o agronegócio nacional em uma das maiores forças econômicas do País.
Para o Paraná, a discussão ganha contornos ainda mais relevantes. O Estado tornou-se uma potência global na produção de proteína animal, grãos e alimentos industrializados, sustentado por um modelo cooperativista frequentemente citado como referência internacional.
Quando Pequim discute segurança alimentar, parte dessa conversa inevitavelmente passa pelos campos, cooperativas e agroindústrias paranaenses.
A reportagem deixa claro que não há sinais de ruptura. Mas há um recado.
A China continuará comprando alimentos do Brasil, embora de forma cada vez mais exigente.
Sustentabilidade, rastreabilidade, sanidade animal, qualidade e previsibilidade regulatória tendem a ganhar peso crescente nas decisões de compra. Em outras palavras, não basta produzir muito. Será preciso produzir melhor e comprovar isso ao mercado.
Os satélites chineses podem estar apontados para a Lua e para Marte. Mas os olhos de Pequim continuam voltados para algo muito mais terreno.
Afinal, nenhuma potência se sustenta apenas sobre circuitos eletrônicos.
Impérios podem ser construídos com tecnologia. Mas, antes dos chips, dos foguetes e da inteligência artificial, existe uma necessidade que continua movendo a história: alimentar as pessoas que tornam tudo isso possível.



