Opinião

A lição que os progressistas nunca aprendem

Há uma arte que os governos de esquerda dominam com rara perfeição: a de transformar o adiamento de problemas em narrativa de triunfo. Nova York, em maio de 2026, nos deu uma aula magistral do gênero.

O prefeito Zohran Mamdani — o queridinho das esquerdas americanas, eleito sob a promessa luminosa de taxar os ricos e devolver a cidade ao povo — apresentou seu primeiro orçamento executivo com a pompa de quem acabou de quitar uma dívida histórica. O déficit de US$ 12 bilhões herdado do governo anterior? Zerado. Sem corte de serviços, sem aumento do imposto sobre propriedade, sem tocar nas reservas de emergência da cidade.

Um prodígio. Uma façanha. Uma vitória.

Exceto que não é bem isso.

Vale recuar ao começo. Mamdani tomou posse em janeiro deste ano e, menos de um mês depois, convocou uma coletiva para anunciar o que chamou, dramaticamente, de “Crise Orçamentária Adams” — um rombo de US$ 12 bilhões deixado pelo ex-prefeito Eric Adams como herança envenenada. O gesto tinha duas funções simultâneas: estabelecer o vilão da história e preparar o terreno para as medidas que viriam. Missão cumprida em ambas as frentes.

Vale o registro: Adams também era democrata — tanto que iniciou sua carreira política dentro do partido antes de se candidatar à reeleição como independente, após envolver-se em escândalos. Ou seja, o rombo que Mamdani herdou tem endereço e partido bem definidos — o mesmo partido.

Nos meses seguintes, Mamdani fez o que havia prometido: foi a Albany pedir dinheiro, ameaçou aumentar impostos sobre propriedade e pressionou por uma taxação dos mais ricos. O resultado anunciado em maio foi um orçamento de US$ 124,7 bilhões apresentado como equilibrado. A imprensa progressista celebrou. O prefeito sorriu.

Mas os números que não entraram no discurso são os que importam.

O equilíbrio orçamentário foi alcançado com US$ 4 bilhões injetados pelo governo do Estado de Nova York — um socorro financeiro que analistas chamaram, sem eufemismo, de resgate puro e simples. Sem essa transferência de Albany, o déficit permaneceria aberto. A “taxação dos ricos”, por sua vez, rendeu muito menos do que a retórica sugeria — e especialistas já alertam para o risco de fuga de contribuintes de alta renda, fenômeno bem documentado em jurisdições que trilharam o mesmo caminho.

O fiscal das contas municipais advertiu para déficits futuros superiores a US$ 7 bilhões. Analistas independentes apontam que os gastos municipais crescerão 28% até 2030 — e que os rombos projetados para os próximos anos chegam a quase US$ 10 bilhões.

Em outras palavras: o orçamento foi equilibrado no papel, no presente, às custas do futuro.

É uma façanha conhecida. Não se chama gestão — chama-se postergação. O problema não foi resolvido; foi empurrado alguns anos adiante, com juros, devidamente embrulhado em linguagem de vitória. O pior de Nova York, ao contrário do que o discurso oficial sugere, ainda está por vir.

E é aqui que a história nova-iorquina deixa de ser curiosidade americana para se tornar espelho brasileiro.

O Brasil de Lula opera sob a mesma gramática fiscal. A dívida pública se aproxima de 80% do PIB. O déficit é crônico. Os gastos crescem num ritmo que nenhuma economia em desenvolvimento sustenta com serenidade — e crescem com especial entusiasmo neste ano eleitoral, quando o objetivo declarado é a reeleição a qualquer custo. Leia-se: a qualquer custo para o país.

As propostas de taxação sobre renda elevada, lucros e patrimônio surgem como solução estrutural, ignorando solenemente o impacto que produzem sobre investimentos e segurança jurídica.

A semelhança mais profunda, porém, não está nos números — está no método. É a arte de apresentar o adiamento como conquista. De chamar de equilíbrio o que é apenas um desequilíbrio disfarçado. De colher os aplausos hoje e deixar a conta para o próximo governo, para a próxima geração, para os mais pobres — que pagarão na forma de inflação, de juros, de serviços que prometeram nunca cortar mas que a aritmética, no tempo certo, cortará por eles.

Nova York não quebrou em janeiro. Celebrou em maio. Mas os números que ninguém leu no discurso do prefeito dizem, com a frieza que só os balanços têm, que a festa foi financiada a crédito — e que a fatura chegará com correção.

Sempre chega.

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