O pai tá on — e o PCC também

Ela entrou pelo aeroporto sorrindo, como quem volta de férias. Vinte e dois milhões de seguidores, closet avaliado em fortunas, presença constante nos eventos mais glamourosos do país. Deolane Bezerra, advogada, influenciadora digital, celebridade das redes sociais — e, segundo a investigação do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo, caixa do Primeiro Comando da Capital.
Na quinta-feira 21, a Operação Vérnix prendeu Deolane em caráter preventivo. Junto com ela, R$ 27 milhões bloqueados pela Justiça. Não é a primeira vez: em setembro de 2024, ela já havia sido detida na Operação Integration, em Recife, suspeita de envolvimento em esquema de jogos ilegais e lavagem de dinheiro. Desta vez, a acusação é mais grave, mais precisa e sete anos mais madura.
A Operação Vérnix começou como muitas grandes investigações começam: numa busca de rotina. Agentes de segurança fizeram uma revista na cela de Sharlon Praxedes da Silva, o Maradona, e Gilmar Pinheiro Feitoza, o Cigano, na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Na caixa de esgoto, encontraram bilhetes escritos à mão — um arquivo físico de negócios do crime. As análises revelaram negociações de tráfico dentro do presídio e conexões diretas com a cúpula do PCC, principalmente com Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, que habitava o mesmo pavilhão e mantinha conversas diárias com Gilmar.
Dali, o fio foi puxado. E chegou, entre outros destinos, a Deolane Bezerra.
Segundo os investigadores, valores da facção eram depositados em contas ligadas à influenciadora e misturados a recursos de outras atividades antes de retornarem ao grupo criminoso — técnica clássica de lavagem, que dilui a origem ilícita no ruído de uma movimentação financeira aparentemente legítima.
Uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, curiosamente instalada próxima ao complexo penitenciário do município, era usada para movimentar os recursos. O montante exato ainda está sendo apurado. Não estamos falando de um soldadinho de quadra. Estamos falando de uma liderança de confiança. Quem cuida do caixa de uma organização que fatura R$ 10 bilhões por ano não é figurante — é executiva.
E para entender a dimensão do que isso significa, é preciso conhecer a empresa.
Fazia 20 anos que o PCC existia quando, em 2013, o promotor Lincoln Gakiya entregou à Justiça o resultado da maior investigação criminal até então realizada pelo Ministério Público de São Paulo contra a facção. Eram 876 páginas, 175 denunciados, centenas de horas de escutas e milhares de documentos. Na época, os paulistas comandavam um grupo de 7,6 mil integrantes, com faturamento de R$ 120 milhões anuais e presença em 22 estados e três países. Era o começo da internacionalização.
Passados mais de dez anos, os números são outros. O PCC fatura R$ 10 bilhões por ano, está presente em 28 países, alcançou todas as unidades da federação e reúne um exército de 40 mil homens e mulheres. Seu modelo de gestão permanece organizado em torno de um colegiado liderado por Marcola, preso desde 1999 e hoje recolhido na Penitenciária Federal de Brasília — de onde, evidentemente, segue comandando.
A facção atua em 14 setores da economia: postos de gasolina, agências de automóveis, construção civil, casas de câmbio, fintechs, criptoativos, empresas de ônibus, igrejas, mineração ilegal, ONGs de saúde, coleta de lixo, bets, agrotóxicos e empresas ligadas ao futebol. Operações como Carbono Oculto, Colossus, Tai Pan e Alcaçaria rastrearam movimentações que, somadas, superam R$ 250 bilhões em dinheiro do crime misturado a outras atividades ilícitas. É uma corporação. Uma multinacional criminosa. E seus acionistas controladores dirigem o negócio de dentro das prisões de segurança máxima do governo federal.
Não chegamos aqui por acidente. Chegamos por política.
Por mais de duas décadas de governos petistas, o Brasil adotou uma visão de mundo em que o criminoso é, antes de tudo, uma vítima — da pobreza, da exclusão, da sociedade que o abandonou. Essa narrativa não é apenas equivocada. É perigosa. Porque, ao transformar o agressor em vítima, ela inverte a ordem moral que sustenta qualquer sistema de segurança pública eficaz.
O resultado está nas ruas. Está nas imagens que chegam diariamente do Rio de Janeiro: crianças empunhando fuzis, desfilando por bairros inteiros que o Estado entregou ao crime. Está nas cidades do interior onde o PCC cobra taxas, administra comunidades e executa quem desafia sua autoridade.
O Brasil enfrenta, em câmara lenta, o risco de se tornar um novo Haiti — país hoje dominado por bandos armados, soberano no nome e refém do crime na prática. Essa leniência atávica foi o adubo. O PCC de R$ 120 milhões de 2013 virou o PCC de R$ 10 bilhões de hoje regado por omissões deliberadas, políticas permissivas e, como agora se evidencia, relações que vão muito além da tolerância passiva.
Em 2022, Deolane Bezerra visitou Lula durante a campanha eleitoral. O encontro foi gravado em vídeo. A influenciadora aparece eufórica ao lado do então candidato e de Janja: “Alô, mãe, venci na vida!”. Ela pediu voto para Lula. Lula recebeu o apoio com beijo na testa. A frase “o pai tá on” tornou-se um meme afetivo que celebrava a intimidade entre a celebridade das redes e o presidente da república. Hoje, as mesmas fotos circulam com outro peso.
Nenhum dos lados pode alegar desconhecimento inocente. A investigação que resultou na prisão de Deolane vem sendo construída há sete anos, conforme relato do próprio promotor Lincoln Gakiya. Não é uma acusação que surgiu da noite para o dia. É um processo longo, detalhado, internacional — que levou o promotor à Itália, em cooperação com a polícia italiana e a Interpol, para interceptá-la antes de ela desembarcar no Brasil.
Quando Deolane chegou ao país, foi presa. A investigação já estava lá, esperando. O presidente não pode reclamar da associação que seus adversários fazem. Quem recebe com afeto público uma figura que há anos está no radar de investigações sobre o PCC, quem aceita o apoio e retribui com beijo na testa, quem permite que essa relação se torne material de campanha — esse presidente doou o argumento à oposição de bandeja. Não é fofoca. É registro histórico.
E haveria algo mais a dizer, se não houvesse as escutas.
Em fevereiro de 2019, o então ministro da Justiça Sergio Moro coordenou, em ação conjunta com o governo de São Paulo, a transferência de 22 membros da cúpula do PCC para o sistema penitenciário federal — entre eles, Marcola. A medida foi um golpe direto na estrutura de comando da facção. A reação, captada em grampos da Operação Cravada, foi imediata. De dentro da cadeia, um preso identificado como Elias telefonou para outro integrante do PCC e disse o seguinte: “Os caras tão no começo do mandato dos cara, você acha que os cara já começou o mandato mexendo com nois irmão. (…) Se os cara começou mexendo com quem estava na linha de frente, os caras já entrou falando o quê? ‘Com nois já não tem diálogo, não, mano. Se vocês estava tendo diálogo com outros, que tava na frente, com nois já não vai ter diálogo, não’. Esse Moro aí, esse cara é um filha da puta, mano. (…) O PT com nois tinha diálogo. O PT tinha diálogo com nois cabuloso, mano.”
O recado é nítido. O PCC não se queixa de Moro porque ele é rigoroso — se queixa porque ele rompeu um padrão de relacionamento que existia antes. A palavra usada é “diálogo”. E o contraste é explícito: com o PT, havia diálogo. Com Moro, não. Sergio Moro, hoje senador, é jurado de morte pelo PCC. Ele e sua família vivem sob escolta permanente da Polícia Federal. Essa é a diferença entre quem combate o crime organizado e quem dialoga com ele. O preço de uma vida é a melhor bússola moral disponível.
Há, ainda, uma última peça nesse quebra-cabeça. O governo dos Estados Unidos vem pressionando para que o Brasil classifique o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — enquadramento que permite ações de inteligência e cooperação internacional mais amplas no combate ao narcotráfico transnacional.
O governo Lula e o PT opõem-se sistematicamente a essa classificação. A alegação oficial é o risco à soberania nacional: a equiparação abriria espaço para que os norte-americanos realizassem operações dentro do território brasileiro. O argumento seria respeitável, se viesse de um governo que demonstrasse qualquer disposição real em combater essas organizações pelos seus próprios meios.
Mas invocar soberania nacional para manter a fronteira ideológica em torno do PCC — enquanto o presidente recebia com beijo na testa a executiva financeira da facção, enquanto os grampos registravam o “diálogo cabuloso” entre petistas e criminosos, enquanto o Brasil sangra em direção ao abismo haitiano — isso não é posição política. É cinismo de Estado.
Se o PCC não é uma organização terrorista, o conceito perdeu o sentido. Uma facção que paralisou São Paulo em 2006, que matou 564 pessoas em uma semana, que executa autoridades públicas, que comanda 40 mil homens em 28 países a partir de celas de presídio federal, que lava R$ 10 bilhões por ano em 14 setores da economia — o que falta para merecer o nome? O que falta, evidentemente, não é uma atrocidade a mais. É um governo disposto a chamar as coisas pelo nome.
A Operação Vérnix prendeu uma celebridade. Mas o que ela iluminou é muito maior do que uma influenciadora com 22 milhões de seguidores e R$ 27 milhões bloqueados. Iluminou uma relação de cumplicidade — ora ideológica, ora prática, sempre conveniente — entre o PT e o submundo das facções criminosas que transformaram o Brasil no que ele está se tornando.
O pai tá on, sim, mas a pupila, felizmente, tá off. Menos mal.




