Rejeição de Messias: a suprema humilhação de Lula

Havia 132 anos que o Senado não devolvia ao Palácio do Planalto o nome de um indicado ao Supremo Tribunal Federal. A última vez foi em 1894, nos dias conturbados do governo Floriano Peixoto, quando a República ainda engatinhava e os acordos de poder se faziam pela força dos canhões.
Nesta quarta-feira (29), por 42 votos contra e 34 a favor, os senadores resolveram revisitar aquele passado remoto — e a conta chegou para Luiz Inácio Lula da Silva com juros de mais de um século.
A derrota histórica do advogado-geral da União, Jorge Messias, não surgiu do acaso. Ela foi construída com paciência, camada sobre camada, como se as circunstâncias conspirassem para que o resultado fosse não apenas uma rejeição, mas uma desonra calculada.
O primeiro tijolo da muralha foi assentado pelo próprio presidente do Senado.
O poderoso Davi Alcolumbre queria ver o senador Rodrigo Pacheco na vaga aberta pela aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso. Lula preferiu o seu advogado-geral. Com esse gesto, transformou o homem que controla os votos e a agenda da Casa Alta em adversário declarado — adversário que recusou-se sistematicamente a receber Messias em seu gabinete, enquanto o indicado percorria os corredores do Senado na peregrinação protocolar de quem pede votos sem ter muito a oferecer.
E havia mesmo pouco a oferecer.
O currículo de Messias não impressionava os meios jurídicos nacionais — sem obra acadêmica de relevo, sem trajetória que impusesse respeito intelectual à instituição que se candidatava a integrar.
Seu principal título era uma longa e ardorosa militância petista. Lula, fiel ao padrão que vinha adotando nas últimas indicações à Corte, não buscava um jurista à altura do cargo: buscava um estafeta com fidelidade canina, mais um operador a serviço dos interesses do governo dentro do Supremo.
Essa lógica, que por vezes funciona quando o poder é sólido, torna-se fatal quando o poder vacila.
A ironia mais afiada do episódio veio de dentro da própria Corte. O ministro Alexandre de Moraes — inimigo público número um do bolsonarismo e figura central nos embates institucionais dos últimos anos — aliou-se aos adversários do governo e empenhou-se ativamente para impedir a entrada de Messias no STF, fazendo contatos e disparando telefonemas que movimentaram os bastidores do Senado.
A razão era pessoal e cristalina: a indicação era defendida com entusiasmo pelo ministro André Mendonça, com quem Moraes hoje trava relação de franca hostilidade — o mesmo Mendonça que preside o processo do Banco Master. Nas entranhas do poder, os inimigos do meu inimigo se encontram nos lugares mais improváveis.
Sobre esse terreno já minado, a oposição se lançou com faca nos dentes. Flávio Bolsonaro capitaneou o esforço de derrubada com olhos no calendário eleitoral de 2026, e o centrão — aquela tropa que costuma dividir seus votos entre governo e oposição conforme a temperatura da caneta presidencial — viu na derrota de Messias a oportunidade de revelar seu peso real ao Planalto e de acenar para o campo bolsonarista. Alcolumbre os deixou livres. Entre aspas, “liberou” — como se diz nos bastidores com o sorriso de quem escolheu não aparar as velas do vento contrário.
A tempestade perfeita estava armada.
Desde cedo, o desfecho da votação já era cantado em prosa e verso — mas o Planalto não quis ouvir, ou simplesmente não foi capaz de enxergar. Esperava uma vitória apertada, e na véspera da sabatina apostou na cartada que julgava definitiva: empenhou cerca de R$ 12 bilhões em emendas parlamentares — saltando de menos de 2% para mais de 58% do total autorizado para o semestre.
As “emendas Pix” foram distribuídas generosamente, inclusive para o PL, principal legenda da oposição, que recebeu R$ 479 milhões. Nem isso sensibilizou os senadores a mudarem seus votos. Negócios, negócios, política à parte.
A história registra presidentes que chegaram ao Senado em minoria e ainda assim emplacaram seus indicados ao Supremo — pela força das articulações, pela autoridade natural de quem governa com perspectiva de futuro.
Não há derrota mais eloquente do que aquela que nem o dinheiro foi capaz de evitar. É o retrato de um governo desmoralizado, sem força de convencimento e sem horizonte eleitoral que inspire lealdade. Um governo que, faltando ainda oito meses para acabar, já afundou em melancólico estado terminal.
É verdade que nem todos os motivos que levaram à rejeição de Messias são nobres.
Mas ver a maioria dos senadores, ao menos por um momento, não se curvar às pressões e às chantagens do atual inquilino do Palácio do Planalto e de seus parceiros do STF reacende a esperança de que é possível recolocar o Brasil nos trilhos da normalidade constitucional e voltarmos a ser uma democracia de fato e de direito.
Que seja o começo das mudanças que todos almejamos.



