Opinião

Em nome da reeleição vale tudo

Há um ponto em que o discurso se gasta como metal barato — perde o brilho, perde a liga, perde a capacidade de sustentar o peso que lhe pedem. O governo Lula chegou a esse ponto. Três mandatos de retórica, escândalos acumulados, uma narrativa surrada de tanto uso, e agora a perseguição a um quarto mandato como horizonte declarado de toda a política de Estado.

As pesquisas traduzem o que o olho nu já enxerga: rejeição crescente, aprovação em queda, e uma equipe de comunicação que tenta estancar a hemorragia com o único recurso que conhece: distribuir agrados para o eleitorado – com os impostos escorchantes cobrados dos contribuintes.

O pacote de bondades anunciado pelo governo federal soma mais de R$ 400 bilhões em ações. A lista é extensa e generosa ao ponto do inverossímil: auxílio a endividados, crédito para a classe média, isenção de imposto de renda até R$ 5 mil, reajuste do salário mínimo, ampliação do Bolsa Família, auxílio creche, distribuição de botijões de gás, isenção de conta de luz para 17 milhões de famílias, subsídios no diesel e no biodiesel para conter a inflação, bolsa para estudantes do ensino médio e, nos corredores do Congresso, a promessa do fim da escala 6×1. Nem o país mais rico do mundo ousaria tanto de uma só vez. O Brasil, que não é, ousa.

O problema é que a conta chega — e já chegou. A dívida pública brasileira atingiu R$ 10,2 trilhões em fevereiro, correspondendo a 79,2% do PIB, impulsionada por juros altos e déficits fiscais que se repetem como estação. O FMI e especialistas independentes alertam que, mantida a trajetória, a dívida pode ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos — patamar em que o Estado simplesmente para de funcionar como Estado, restando-lhe apenas pagar salários de servidores e honrar obrigações constitucionais.

Zero para investimento. Zero para o país. Tudo para o projeto. Existe uma frase atribuída a Margaret Thatcher que nunca envelheceu: o socialismo — e com ele, toda a distribuição populista de benesses — só dura até acabar o dinheiro dos outros.

E é exatamente quando o dinheiro dos outros começa a escassear que a criatividade do poder revela sua face mais sombria.

Todos hão de lembrar que Lula prometeu, em campanha, acabar com o que chamou de fila vergonhosa do INSS — os pedidos represados de aposentadorias, auxílios e pensões.

Assumiu a presidência com cerca de 1,6 milhão de requerimentos pendentes. A fila não diminuiu; dobrou. Chegou a 3,1 milhões de pedidos em fevereiro deste ano, o maior patamar da série recente, com a troca do presidente do INSS no meio do caminho como resposta política ao fracasso.

Então, nas últimas semanas, o indicador começou a cair. O governo comemorou nas redes. A fila recuou para 2,7 milhões em março. Um número que o governo celebrou — e que, pelos critérios do próprio Lula, ainda merece o único adjetivo que ele reservou para a herança que recebeu: vergonhoso.

Advogados previdenciários, porém, apontam o que os números não dizem: parte relevante dessa redução resulta de indeferimentos em massa — rejeições sumárias de requerimentos que, na prática, apenas postergam o problema, já que os beneficiários retornam ao sistema com novos pedidos.

A fila não foi resolvida. Foi encolhida, perversamente, na marra. Quando as bondades não bastam e as promessas não colam, sobra o truque — e o truque, aqui, é negar direitos e prejudicar milhões de brasileiros e brasileiras – gente humilde em sua esmagadora maioria – para maquiar estatísticas e tentar melhorar a imagem carcomida de uma presidência em franca deterioração.

Para quem sempre fez da compaixão o seu discurso, é uma confissão involuntária e devastadora.​​​​​​​​​​​​​​​​ É a face real de um governo dissimulado, cruel, pérfido e desumano. Ou não é?

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