Opinião

Um governo que aparece no sucesso e some na crise

Ribeirão Preto recebeu nesta semana a 31ª edição da Agrishow, a maior feira do agronegócio da América Latina, com toda a pompa que o setor merece e que o Brasil tem razões de sobra para ostentar.

Máquinas de última geração, números de exportação que não encontram paralelo, a certeza renovada de que o campo brasileiro é uma das maiores forças produtivas do planeta. Do lado de fora da porteira, o espetáculo impressiona. E é real.

Mas foi ali mesmo, no evento, que o secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Geraldo Melo Filho, teve a coragem — rara entre lideranças do setor — de dizer o que a paisagem vigorosa faz questão de esconder. Suas declarações não vieram de um oposicionista à espreita de palanque, mas de um gestor público que conhece o campo por dentro e que, diante de microfones e câmeras, escolheu a verdade no lugar do elogio fácil.

O diagnóstico foi preciso e implacável. O setor, disse ele, “trabalha com margem mínima, quando não negativa”, e os maus resultados são “turbinados por juros que beiram a extorsão do produtor”. O crédito anunciado pelo governo federal na véspera, durante a abertura oficial da feira, foi classificado por Melo Filho como “crédito fantasma” — anunciado como se existisse, sem juros definidos, sem prazo para começar a valer, sem direcionamento nenhum voltado às dores de quem está na ponta precisando produzir. Mais uma promessa. Mais uma decepção.

O Plano Safra, acrescentou o secretário, “perdeu a sua relevância e o produtor foi entregue à própria sorte”. O recurso do seguro rural, já insuficiente, some no primeiro contingenciamento orçamentário. E o crédito, quando chega, cobra mais de 20% de taxa de juros. Nesse cenário, ao lado dos recordes de safra que enchem manchetes e discursos, surgem outros recordes — esses, discretamente omitidos pelo governo: o recorde de inadimplência e o recorde de recuperação judicial no campo.

A imagem mais perturbadora, porém, Melo Filho reservou para o final. “O nosso campo vai caminhando no rumo de uma verdadeira reforma agrária, só que ela vai ser imposta pelo endividamento, com os produtores endividados caminhando para perder terra para banco e para credor.” E foi além: “O produtor passou a conviver com um Estado que na prática virou sócio oculto dele, só que é um sócio que não divide o risco, mas exige resultado, que aparece no sucesso e desaparece na crise.”

Não é retórica. É a descrição clínica de uma relação predatória entre o poder público e aquele que alimenta o país.

O produtor rural brasileiro, como bem sabe quem o conhece, não é dado ao lamento. É gente que levanta antes do sol nascer, de replantio depois da perda, de fé compulsória no ciclo seguinte. Quanto mais aperta, como disse o próprio secretário, ele vai lá, planta de novo e bate recorde de safra. É vocação. É identidade. É uma forma de patriotismo que dispensa discurso.

Mas isso tem limite. E Melo Filho, com a seriedade de quem ocupa um cargo e sente a responsabilidade do que diz, avisou: o que sustenta o agronegócio brasileiro hoje não é a política agrícola do governo federal. É a competência e a teimosia do próprio produtor, apesar do sistema que pesa sobre ele.

Num ano eleitoral, em que candidatos de todos os matizes se preparam para cortejar o agro com sorrisos e promessas, as palavras do secretário de São Paulo chegam como um acerto de contas com a realidade.

O campo não precisa de mais anúncios. Precisa de juros que não beirem a extorsão, de crédito que exista de fato, de um Estado que apareça também na crise.

Do contrário, a maior potência alimentar do mundo continuará colhendo recordes para os outros — e endividamento para si.​​​​​​​​​​​​​​​​ Mas até quando?

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