Opinião

“Nós, vermelhos”

Há declarações que escandalizaram porque revelaram o que ninguém sabia. E há declarações que escandalizaram porque confirmaram, em voz alta e em público, o que todo mundo já sabia.

O discurso do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Luís Felipe Vieira de Mello Filho, no 22º Congresso Nacional das Magistradas e dos Magistrados da Justiça do Trabalho, pertence à segunda categoria — e é exatamente por isso que é mais grave.

“Não tem azul ou vermelho, tem quem tem interesse e tem quem tem causa. Nós, vermelhos, temos causa, não temos interesse.” A frase não escapou por descuido. Foi construída, aplaudida e celebrada. O presidente do TST, diante de seus pares, declarou abertamente que a corte tem lado — e que o lado é conhecido. Que as pessoas vulneráveis do país precisam deles e que a Constituição lhes dá poderes para isso. Convicção sem disfarce, militância sem véu.

A declaração não surpreendeu ninguém que acompanha a trajetória da Justiça do Trabalho no Brasil. Criada no governo Vargas, em pleno Estado Novo, ela nasceu com DNA definido: proteger o trabalhador contra o patrão, enquadrar o capital, disciplinar as relações de trabalho segundo a cartilha corporativista.

Décadas se passaram, governos vieram e foram, o país mudou — a corte não. O TST foi sendo sistematicamente ocupado por magistrados de convicções homogêneas, e o resultado é o que Vieira de Mello descreveu sem pudor: uma instituição com causa, não com isenção.

O ex-presidente do próprio TST, Almir Pazzianotto, que comandou a corte entre 2000 e 2002, manifestou surpresa em tom de alarme. “Não havia divisão entre vermelhos e azuis. Prevalecia a regra da igualdade de todos perante a lei”, escreveu no X. E foi além: afirmou que o discurso do atual presidente gera medo entre micro, pequenas e grandes empresas com processos no tribunal — instalando, na prática, um clima de caçada institucional contra empregadores. “Haverá ou já existe clima de perseguição contra patrões?”, perguntou.

Depois completou, com precisão cirúrgica: “Os ministros vermelhos do TST são adeptos do marxismo-leninismo, adversários da livre iniciativa, da propriedade privada? Como explicar a divisão da Corte em vermelhos e azuis?” A pergunta é retórica. A resposta foi dada pelo próprio Vieira de Mello, no microfone, com aplausos.

O Brasil tem uma Constituição e um arcabouço legal que, a despeito de suas imperfeições, existe para ser aplicado com isenção. O mínimo que se espera de um tribunal é que julgue segundo a lei — não segundo a causa que seus integrantes consideram justa.

Quando um magistrado substitui a interpretação jurídica pela convicção ideológica, ele deixa de fazer justiça e passa a fazer justiça a seu modo: vira justiceiro. E justiceiros com toga, mandato vitalício e meio milhão de reais por trimestre são, talvez, a versão mais cara e institucionalizada do problema.

O custo institucional dessa estrutura não é apenas simbólico. O Brasil é um dos raríssimos países do mundo a manter uma justiça específica para o trabalho — cara, lenta e volumosa. Os custos de manutenção do sistema superam, em múltiplos exercícios, os valores efetivamente revertidos aos trabalhadores.

A facilidade de acesso e a certeza prática de que o empregado raramente sai derrotado criaram uma cultura de litigância frouxa, onde ações de má-fé se misturam às legítimas sem maior custo para quem as ajuíza. Tramitam no Congresso propostas de emenda constitucional para reduzir o tamanho do TST ou transferir sua competência para a Justiça Federal — medidas defendidas por juristas respeitáveis há décadas.

A reforma trabalhista de 2017 tentou ao menos conter o protagonismo excessivo da corte. O resultado foi que o TST começou, metodicamente, a desmontá-la por dentro, via interpretação criativa e precedentes contrários ao espírito da lei.

Vieira de Mello também falou em conter “um capitalismo selvagem e desenfreado” — linguagem que casa perfeitamente com o clima do governo Lula e com a cruzada pelo fim da escala 6×1, calcada na tese de que patrões exploram trabalhadores por vocação. O TST, fiel à origem, não é árbitro do conflito entre capital e trabalho — é parte nele. E agora tem presidente disposto a assiná-lo.

Resta a cerejinha, como manda o figurino. O mesmo Vieira de Mello que clama por justiça social e denuncia o capitalismo selvagem embolsou, nos três primeiros meses de 2026, quase meio milhão de reais em vencimentos e penduricalhos — R$ 116 mil em janeiro, R$ 145 mil em fevereiro e R$ 144 mil em março —, valores que, em tese, já deveriam estar vedados pelo Supremo Tribunal Federal, dado o teto constitucional de pouco mais de R$ 46 mil.

O juiz vermelho, ao que parece, tem causa. Mas não dispensa o bônus.

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2 Comentários

  1. A (in) justiça do Trabalho já criou a fama de tendenciosa… sabe-se de antemão que o trabalhador sairá vencedor no litígio.

  2. belo artigo Caio, boa pesquisa. como sempre. O que essa corte vermelha de brasilia nao se incomoda em resolver sao os 60 milhoes de brasileiros que trabalham sem carteira assinada, na informalidade. Qual lei protege eles? nenhuma. Já os outros 50 milhoes com carteira assinada, sustentam essa tropa de brasiliia, estao muito ocupados trabalhando.

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