OPINIÃO

Guzzo — A voz que não se calou

O jornalismo brasileiro perdeu, no dia 2 de agosto, uma de suas vozes mais inspiradoras, lúcidas e corajosas.

José Roberto Dias Guzzo partiu aos 82 anos, vítima de um infarto, deixando um vazio impossível de preencher para quem acredita que a função maior da imprensa é questionar o poder, expor a verdade e não se curvar a conveniências políticas.

Sua ausência ecoa ainda mais forte num tempo em que a liberdade de expressão é testada todos os dias — e poucos, como ele, tiveram a coragem de defendê-la até o fim.

Guzzo iniciou sua carreira em 1961, passou por Última Hora e Jornal da Tarde, foi correspondente internacional em Paris e Nova York, e marcou época na revista Veja, onde foi diretor-de-redação de 1976 a 1991, voltando depois como colunista até 2019.

Foi um dos fundadores da revista Oeste e, nos últimos anos, escreveu também para o jornal O Estado de S. Paulo e a Gazeta do Povo.

Sua pena — sempre precisa, elegante e implacável — fez dele um dos principais porta-vozes do jornalismo de direita no Brasil.

Combateu, com argumentos sólidos e ironia ácida, os arbítrios do Supremo Tribunal Federal, o retrocesso institucional e a volta de figuras políticas cuja “biografia” mais parece um extenso prontuário policial.

Reproduzo a seguir, como minha homenagem ao grande jornalista, o último artigo escrito por ele, que faleceu antes que o texto fosse publicado:

Sova dos EUA foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para Lula na sua Terra do Nunca

Se a decisão fosse disponível neste momento para ele, Lula estaria vivendo com toda certeza na Terra do Nunca que a mídia brasileira criou.

Nada do que acontece ali, ou muito pouco, tem alguma coisa a ver com a vida como ela é na realidade dos fatos.

Em compensação, o presidente teria um mundo ideal por lá. Tudo o que ele faz dá certo. Nas matérias do tipo “quem ganhou e quem perdeu”, está sempre nos “quem ganhou”. Só tem vitórias. Nunca perde nada: eleição municipal, pesquisa de opinião, arcabouço fiscal. Não é o chefe de um governo senil, desmoralizado e corrupto, com zero de resultados em dois anos e meio. É Peter Pan.

A miragem do momento é o que os comunicadores descrevem como a sua vitória no contencioso contra os Estados Unidos e Donald Trump.

Levou 50% de imposto nas exportações do Brasil para lá, e não conseguiu punir os americanos em nada – mesmo porque não tem a menor condição para fazer isso. Não conseguiu dar sequer um telefonema para Trump.

A ficção de que Lula é um grande “negociador”, criada por ele próprio e aceita como verdade científica pela imprensa, não rendeu dois minutos de conversa com ninguém.

Comprou uma briga com a maior potência do planeta sem ganhar nada em troca; não tinha, aliás, nada a propor.

Seu único contato no exterior foi com Colômbia, Chile e outros anões que lhe deram apoio verbal, desejaram boa sorte e foram cuidar da vida.

Seus imensos aliados no Brics, a China e a Rússia, continuaram imaginários; não lhes passou pela cabeça criar nenhum problema novo com os americanos para ajudar o Brasil na briga. Muito pelo contrário: a China, mais uma vez sem dar vantagem alguma ao Brasil, está desfrutando de uma inédita licença para entupir o mercado brasileiro com a importação de carros elétricos, que a propaganda lulista apresenta como fabricados “em Camaçari”.

Festejaram a vitória da “soberania”, da “honra” e da “firmeza” do Brasil, mas ganhar alguma coisa de útil que é bom, nada.

Na mídia, porém, esse balanço miserável foi transformado num êxito histórico para Lula. Trump, por essa visão, deu “um tiro no pé”; não se explica o que ele perdeu, mas e daí? A popularidade de Lula, que vinha derretendo nas pesquisas, ressuscitou de um dia para outro.

A “população”, supostamente indignada com os Estados Unidos, se juntou em apoio decidido ao presidente. O fracasso do seu governo se desfez sem que ele tenha tido de entregar um único mata-burro a ninguém.

As sanções não terão efeito na economia; algum probleminha aqui ou ali, mas nada de sério. Lula, dizem em peso os analistas, tornou-se o grande favorito nas eleições do ano que vem – que estavam indo para o saco.

Enfim, a sova que o Brasil acaba de levar foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para Lula na sua Terra do Nunca.

Mais do que um texto afiado, essa crônica é o retrato fiel do olhar que Guzzo mantinha sobre a política nacional: direto, bem-humorado, rigoroso e alheio a conveniências.

Sua obra e seu exemplo permanecem como farol para jornalistas que não se deixam domesticar, que defendem os princípios da liberdade e do pensamento independente.

José Roberto Guzzo deixa um legado que transcende sua vasta produção — deixa a coragem de escrever o que muitos pensam, mas poucos ousam dizer.

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