OPINIÃO

Xandão: uma toga cada vez mais tóxica

Não foi uma semana ruim para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Foi uma semana desastrosa — daquelas que escancaram, com requintes de ironia, os limites da soberba judicial quando ela finalmente encontra um muro de contenção vindo de fora das fronteiras nacionais.

Primeiro, o baque: o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos enquadrou o xerife do STF na Lei Global Magnitsky, uma legislação destinada a punir agentes de regimes autoritários por violações de direitos humanos.

Entre os motivos, perseguição política, censura, prisões arbitrárias, intimidação a opositores e empresas — um currículo digno de regimes que costumam ilustrar relatórios da Anistia Internacional, não de um membro da mais alta Corte brasileira. Mas aconteceu. E com selo oficial da maior potência do planeta.

Desesperado, Moraes recorreu à sua tradicional estratégia de poder: pressionar. Tentou arrancar uma declaração coletiva de apoio de seus colegas do Supremo.

Queria uma carta pública, forte, unida, condenando a decisão do governo americano. Recebeu uma recusa constrangedora. Mais da metade dos ministros — em silêncio, mas eloquentemente — lavou as mãos.

Avaliaram, com razão, que seria impróprio emitir um protesto institucional contra um ato soberano de outro país. Talvez tenham também ponderado que, ao embarcar nesse abraço, poderiam ser os próximos alvos da mesma lei.

Como prêmio de consolação, Moraes ganhou uma nota insossa, formal, solitária, redigida apenas pelo presidente da Corte, Luís Roberto Barroso. Nada de solidariedade em bloco. Nada de indignação coletiva. Um gesto protocolar, quase envergonhado. Um alerta vermelho soando em meio à mudez do plenário.

Ainda assim, Lula tentou salvar a encenação. Promoveu um jantar no Palácio da Alvorada para celebrar o “companheirismo institucional” e prestigiar Moraes. Convocou os onze ministros do STF. Compareceram seis. Os outros cinco — Luiz Fux, Dias Toffoli, André Mendonça, Cármen Lúcia e Nunes Marques — optaram pela prudência, pela decência ou, no mínimo, pela autopreservação diplomática.

A foto oficial do Planalto saiu menor do que o desejado. E revelou, sem querer, o que ninguém mais esconde: o Supremo está rachado — e parte dele não quer ser arrastado pelo vendaval que cerca o ministro.

Mas como toda tragédia grega que se preze, o terceiro ato veio com um traidor de dentro do castelo.

Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Moraes no TSE, decidiu deixar o Brasil. Em vídeo, confirmou que fugiu para escapar da perseguição do próprio ministro, com quem rompeu relações — e prometeu revelar o que chama de “coisas fraudulentas” praticadas nos bastidores do Judiciário.

Segundo ele, Moraes é “narcisista, autoritário”, e adota a prática de “amedrontar, assustar e calar as pessoas”. Alega ter provas. Declara que as guardou. Garante que vai falar. Pretende ir aos Estados Unidos.

O roteiro está armado. O personagem principal começa a experimentar o que costumava aplicar. Os cúmplices se afastam. Os inimigos se multiplicam. E agora um ex-subordinado bate à porta do Império do Norte, onde não há censura por ordem judicial nem passaportes diplomáticos que protejam os que cruzam a linha.

Alexandre de Moraes, antes figura central do tabuleiro institucional, tornou-se uma companhia a ser evitada. Ministros correm de sua sombra. Bastidores do Judiciário e do Executivo murmuram temores.

Corre à boca pequena — e em análises de comentaristas bem informados — que as sanções americanas devem se expandir nos próximos dias.

Atingiriam não apenas outros ministros do STF considerados aliados de Moraes, mas também figuras próximas ao presidente Lula. A lista ainda é uma incógnita. Mas o temor é real. E crescente.

Se as promessas de Tagliaferro se confirmarem, Moraes deixará de ser apenas um problema diplomático incômodo. Tornar-se-á um caso internacional com ramificações delicadas — para ele, para seus pares e para um governo que já coleciona desgastes no cenário externo.

E pensar que, até pouco tempo atrás, era ele quem distribuía os enredos e escolhia os vilões.

Pois bem: o juiz perdeu o controle da narrativa. E o tribunal, agora, é o mundo.

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