Deu no que deu

Foi um ataque anunciado. E, nesta quarta-feira (30), a bomba caiu — com estrondo político e estilhaços econômicos. A ordem executiva assinada por Donald Trump confirmou o que já vinha sendo preparado nos bastidores: a imposição de uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, elevando o total para 50%. Uma medida de força, com feições diplomáticas e alma punitiva.
O impacto, embora pesado, veio com certo alívio técnico: cerca de 700 produtos foram excluídos da lista tarifária, preservando setores estratégicos tanto nos EUA quanto no Brasil. Mas isso em nada ameniza a mensagem política da medida — nem disfarça sua origem. O gesto de Trump não foi um ato comercial. Foi um recado calculado, carregado de indignação e respaldo estratégico.
Trump não agiu por impulso — agiu por acúmulo. A medida representa a resposta a uma sequência de ações do governo brasileiro que envolvem perseguições políticas, coerções ilegais contra empresas americanas, censura institucionalizada, ataques públicos ao presidente dos EUA durante a campanha eleitoral de 2024 e uma política externa hostil aos valores do Ocidente. Foi a soma dos desaforos diplomáticos com os desmandos institucionais — e a caneta presidencial não hesitou.
A ordem cita diretamente o ministro Alexandre de Moraes, denunciando-o como autor de abusos de autoridade, perseguições contra opositores, censura a plataformas digitais e violações de liberdades civis — inclusive contra cidadãos e empresas americanas. O texto destaca que o ministro emitiu centenas de ordens de censura secretas contra críticos políticos, sem transparência ou direito de defesa, e que ameaçou executivos de empresas americanas com prisões, multas astronômicas e congelamento de ativos.
Uma dessas empresas teve, como sabemos, seus bens bloqueados no Brasil por se recusar a cumprir determinações ilegais de censura. A nota acusa Moraes de exigir que plataformas entregassem dados sensíveis de usuários americanos e modificassem suas políticas de conteúdo sob pena de banimento. E mais: menciona que o ministro estaria conduzindo processos criminais contra o comentarista Paulo Figueiredo, residente nos EUA, por declarações feitas em solo americano — um caso exemplar da extrapolação extraterritorial de sua autoridade.
Inclui ainda a perseguição judicial ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, que segundo o texto comprometeu o Estado de Direito e desfigurou o processo democrático. As ações descritas são enquadradas como “graves violações de direitos humanos” e justificam, segundo o governo americano, a aplicação de sanções, tarifas e medidas extraordinárias de proteção à sua soberania.
É verdade que o texto tem um tom duro, talvez excessivo em passagens que invocam “ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos”. Mas o incômodo que ele verbaliza não nasceu em Washington. Ele fermenta no Brasil há tempos — ainda que muitos tenham fingido não ver. Hoje, mesmo entre os que antes silenciavam por conveniência, cresce o reconhecimento de que o STF ultrapassou todos os limites constitucionais. Renomados juristas, colunistas, veículos de imprensa e parlamentares já admitem abertamente que há um poder descontrolado no topo da Justiça brasileira.
Não é à toa. A Corte é composta por sete ministros indicados por Lula ou Dilma, cuja atuação converge cada vez mais com os interesses do Executivo. A separação entre os Poderes virou peça de ficção institucional. Os tribunais inferiores até podem exibir autonomia — mas o Supremo tornou-se, na prática, um bastião do projeto petista de poder.
A Ordem Executiva, portanto, não mira apenas balanças comerciais. Mira a deformação institucional de um país que traiu o compromisso com a democracia liberal, flerta com ditaduras e ousa afrontar a soberania americana. Em linguagem diplomática, o governo dos Estados Unidos está dizendo: o Brasil cruzou uma linha.
Ainda assim, o golpe veio com freio. Cerca de 700 produtos foram excluídos da lista tarifária, fruto da pressão de setores econômicos americanos e brasileiros que integram cadeias binacionais. Um alívio parcial — sem qualquer mérito diplomático do governo brasileiro, que sequer teve interlocução séria com a Casa Branca.
A decisão de Trump integra um pacote mais amplo da política “América Primeiro”. Nos dias anteriores à ordem, o presidente já havia determinado a revogação dos vistos de Alexandre de Moraes, de seus aliados no Supremo e até de seus familiares diretos. Um gesto simbólico, mas com peso internacional. E que mostra que, ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos ainda há reação institucional quando a liberdade é ameaçada.
Diferentemente da retórica tropical que transforma qualquer visita protocolar em vitória histórica, a política externa dos EUA opera com pragmatismo e força. Quando vê seus princípios ameaçados — a liberdade, o mercado, o Estado de Direito —, responde com instrumentos de poder, e não com discursos floridos em cúpulas progressistas.
Que fique, então, a lição não para a História — mas para o presente: a soberania se conquista com instituições confiáveis, e não com toga ativista, delírio ideológico e provocação irresponsável a potências que sabem exatamente o que estão fazendo.
Em resumo: não se brinca com fogo.











