Missão (im)possível em Washington

Na lista de tragédias anunciadas da diplomacia brasileira, a recente excursão de senadores a Washington merece menção honrosa — e talvez uma indicação ao Emmy, categoria comédia involuntária.
Oito senadores cruzaram o continente com visto diplomático em mãos e a cabeça cheia de esperanças, sonhando reverter o tarifaço de 50% imposto pelo presidente Donald Trump aos produtos brasileiros. Voltaram com exatamente o que levaram: nada. E custaram quase R$ 500 mil ao contribuinte por isso.
A “missão oficial”, coordenada por Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, incluiu os senadores Carlos Viana (Podemos-MG), Jacques Wagner (PT-BA), Rogério Carvalho (PT-SE), Tereza Cristina (PP-MS), Esperidião Amin (PP-SC), Marcos Pontes (PL-SP) e Fernando Farias (MDB-AL). Um time suprapartidário, mas não exatamente suprarracional.
Sem qualquer reunião agendada com integrantes do governo Trump, a comitiva achou por bem pedir ajuda a… senadores democratas. Sim, o partido que Trump considera um inimigo existencial. Conversaram com três deles — todos críticos ferrenhos do presidente. E, para fingir equilíbrio, incluíram na agenda o republicano Thom Tillis, notório desafeto de Trump, que anunciou que não disputará a reeleição em 2026 após ter sua carreira política dizimada pelo atual presidente.
Traduzindo: pediram ajuda aos adversários. Um gesto de gênio diplomático: em vez de abrir portas, bateram de frente com os muros.
Como cereja do bolo de trapalhadas, visitaram a redação do Politico, um dos jornais mais críticos da atual administração. Uma gentileza simbólica que, na linguagem da política americana, equivale a declarar apoio à oposição. Não houve sequer uma reunião com algum funcionário do governo — nada, zero, nenhuma autoridade do Executivo. Ou seja: um giro turístico com moldura oficial e custo de executivo cinco estrelas.
E o timing? Sublime. Enquanto os senadores perambulavam sem rumo pelos gabinetes de Washington nesta quarta-feira, 30 de julho, Donald Trump assinava a Ordem Executiva que confirma as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. No mesmo dia — poucas horas antes — o secretário do Tesouro dos EUA anunciava a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, por violações sistemáticas à liberdade de expressão, abuso de autoridade e censura às redes sociais.
Vale observar que, embora a sanção tarifária tenha sido confirmada, a medida final veio com certo alívio: cerca de 700 produtos foram excluídos da lista, resultado de pressões internas nos Estados Unidos. A decisão visou proteger interesses de empresas americanas e de importadores estratégicos brasileiros, com forte integração na cadeia produtiva dos EUA. Nada teve a ver com atuação diplomática do governo brasileiro ou da comitiva parlamentar — que, aliás, sequer teve acesso a alguém com poder de decisão.
Ambas as medidas — a sanção ao ministro e o tarifaço ao país — têm a mesma raiz: o ativismo judicial exacerbado do Supremo Tribunal Federal, encarnado na figura de Moraes.
Ainda que envolvam elementos econômicos, o conteúdo central é político. Os Estados Unidos sinalizaram, de forma clara e inédita, que não enxergam o Brasil como uma democracia funcional, mas como um país onde os tribunais superiores atuam em consonância com o projeto de poder do governo.
A resposta oficial do Itamaraty, dizendo que o Brasil é um Estado democrático com poderes independentes, não convenceu ninguém — talvez nem os próprios redatores da nota.
O STF, hoje, é um órgão composto majoritariamente por ministros indicados pelos governos petistas: sete dos onze. E desde o retorno de Lula ao poder, a Corte tem atuado de forma sistemática para proteger os interesses do Executivo, perseguir opositores e censurar vozes críticas. A suposta separação entre os poderes é uma fábula tropical que não resiste a um Google.
Aliás, não foi de agora. Já nas eleições de 2022, o TSE — sob a presidência de Alexandre de Moraes — boicotou abertamente a campanha de Jair Bolsonaro, interditou o debate político nas redes e blindou o então candidato Lula de qualquer crítica incômoda. O resultado foi o que se viu: uma eleição tutelada, uma vitória construída sob vigilância judicial e um ambiente institucional corroído pela parcialidade.
Em suma, se o objetivo da viagem dos senadores era “abrir canais de diálogo com o governo americano”, o efeito foi o oposto. Além de fracassar rotundamente, a “missão” virou piada nas redes: memes, charges e vídeos satíricos ironizaram o tour diplomático que conseguiu a proeza de irritar quem se pretendia convencer — e cortejar quem nada podia ajudar.
Fica para a história — e para os arquivos do humor político — a imagem de senadores brasileiros posando para fotos nos corredores do Capitólio, enquanto o mundo real os ignorava solenemente.
Uma crônica de fracasso anunciado, com custo elevado, roteiro risível e lição amarga: não se enfrenta uma crise institucional com amadorismo diplomático e narrativas fantasiosas.











