OPINIÃO

Entre bravatas e tarifas

Por mais que Lula se esforce para parecer um estadista global, o resultado de suas investidas internacionais se parece mais com uma gafe geopolítica em cadeia — daquelas que custam caro, muito caro.

O editorial do Estadão da última segunda-feira (21) cravou com precisão o veredito: o Brasil está sendo usado como saco de pancadas dos Estados Unidos não por acaso, mas por escolha. E a escolha foi de Lula.

Movido por suas nostalgias terceiro-mundistas e por uma megalomania que resiste ao tempo e à realidade, o presidente decidiu jogar o Brasil no colo de China e Rússia — os dois maiores adversários estratégicos dos EUA.

Tudo isso em nome de um Brics cada vez mais fictício, cada vez menos bloco, e cada vez mais trampolim para os projetos imperiais de Xi Jinping e Vladimir Putin.

O preço dessa aventura ideológica começa a chegar em parcelas dolorosas. O tarifaço de Trump sobre produtos brasileiros — de 50% sobre todas as exportações, sem distinção entre agro, indústria ou minério — é apenas um item da fatura.

Como destaca o editorial, não se trata de “ajudar Bolsonaro”, como tenta vender o Planalto. Trata-se de punir um país que, sem lastro econômico ou militar, resolveu se meter onde não foi chamado: no jogo bruto das superpotências.

É didático o alerta do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, segundo o qual os parceiros do Brics que continuarem a fazer negócios com Moscou poderão sofrer sanções.

O recado veio com destinatário conhecido. Lula insiste em fazer pose contra o Ocidente, mas esquece que o Brasil não é nem China nem Rússia. Somos, no máximo, um fornecedor confiável de soja e minério — e isso se soubermos manter a confiança.

Trump, com sua costumeira brutalidade, decidiu estrangular a Rússia economicamente e avisou: quem continuar a servir de bypass para os negócios do Kremlin pagará o preço.

E o Brasil, com sua assinatura no comunicado final da cúpula do Brics — aquele mesmo que dedicou míseros dois parágrafos à guerra no leste europeu (um deles atribuindo cinicamente à Ucrânia, a nação atacada pelo czar da Praça Vermelha, a culpa pelo conflito) — se ofereceu como coadjuvante de uma peça escrita em Moscou e encenada em Pequim.

A essa altura, russos e chineses brindam, satisfeitos, com vodca e chá de jasmim. O Brasil ficou com a conta do rega-bofe, como bem ironiza o editorial.

Para completar a humilhação, Lula usou seu discurso na cúpula para defender — mais uma vez — o fim do dólar como moeda global.

Como se a hegemonia do dólar fosse uma questão de opinião e não de poder. Como se bastasse um manifesto redigido por diplomatas aloprados para reconfigurar o sistema financeiro mundial. Como se o Brasil tivesse cacife para ditar as regras de um jogo que mal compreende.

Em vez de resgatar a tradição brasileira do não alinhamento, tão útil nos tempos da Guerra Fria e especialmente prudente num mundo fragmentado em blocos de poder, Lula preferiu vestir a fantasia de líder global dos desvalidos.

Mas o mundo mudou. O terceiro-mundismo romântico morreu — só Lula ainda não foi informado.

No fundo, o presidente parece confundir palco com plateia. Acha que ainda está nos anos 2000, quando surfou num ciclo de commodities e tirou aplausos fáceis em Davos.

Hoje, o cenário é outro: a guerra voltou à Europa, a China virou ameaça aberta à ordem mundial e os EUA, sob Trump, abandonaram o verniz diplomático.

E o Brasil? O Brasil foi jogado nesse tabuleiro por um presidente que pensa estar jogando War, quando o jogo, na verdade, é pôquer — e com cartas marcadas.

Talvez ainda haja uma saída: abandonar o Brics, antes que ele nos abandone à própria sorte.

Recolher o que resta de nossa credibilidade internacional e reassumir a sobriedade que marcou o Itamaraty por décadas.

Mas isso exigiria prudência. E prudência, como bem lembra o Estadão, nunca foi exatamente o forte de Lula.

Enquanto isso, seguimos pagando a conta. E não será barata.

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