OPINIÃO

A refundação da Argentina

Pedro Cavalcanti e Renato Fragelli, professores da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas, traçam no artigo publicado no Valor Econômico um panorama revelador sobre o que a Argentina está ensinando ao mundo — e, sobretudo, ao Brasil — com a ousada guinada econômica promovida por Javier Milei.

Não se trata de um plano milagroso, tampouco de uma caminhada sem espinhos, mas de um choque de lucidez em um país que parecia condenado ao colapso fiscal e à hiperinflação perpétua.

Ao assumir a presidência, Milei pegou o touro pelos chifres e aplicou um remédio amargo, porém necessário. Com seu polêmico DNU 70/2023, reestruturou radicalmente o aparato estatal: reduziu de 18 para 9 o número de ministérios, extinguiu 34 mil cargos públicos, cortou subsídios, suspendeu reajustes automáticos e congelou aposentadorias. Esse movimento promoveu uma queda vertiginosa do gasto público, que caiu cerca de 5 pontos percentuais do PIB em menos de um ano.

Trata-se de uma austeridade sem eufemismos — a tal “motosserra” — aplicada com convicção e celeridade raras na política latino-americana.

Mas Milei não ficou apenas no ajuste fiscal. O coração da sua estratégia está nas reformas microeconômicas: desregulamentação ampla de mercados, flexibilização das regras trabalhistas, abertura comercial, eliminação de distorções cambiais e desmontagem de monopólios sindicais. O objetivo declarado é destravar a produtividade, abrir espaço para a concorrência e restaurar a lógica de mercado em setores onde imperava o clientelismo, o intervencionismo e o rentismo estatal. Os professores da FGV destacam que, mesmo com resistências políticas e judiciais, esse avanço regulatório já começa a produzir frutos visíveis.

A inflação, que girava em torno de 300% ao ano na virada de 2023 para 2024, vem desacelerando de forma consistente e já registra índices mensais de um dígito — um feito considerável para um país tão cronicamente desajustado. O peso argentino, antes uma caricatura cambial, se valorizou de forma significativa frente ao dólar, permitindo maior previsibilidade nas transações e redução da dolarização informal. O mercado financeiro, por sua vez, começou a dar sinais de confiança: os títulos públicos argentinos passaram a se recuperar, o risco-país caiu, e o investimento voltou a aparecer no radar dos grandes fundos.

Mesmo a atividade econômica, que sofreu forte retração no primeiro trimestre de 2024 como consequência esperada do ajuste, já dá sinais de recuperação. A projeção de crescimento do PIB para 2025 supera 5% em algumas estimativas — o que, num cenário de reequilíbrio fiscal, controle inflacionário e reformas de base, representa um alívio e um sopro de otimismo em um país que parecia fadado ao fracasso.

O custo social, naturalmente, é elevado. A pobreza aumentou de forma sensível nos primeiros meses de governo, ultrapassando a casa dos 50%, embora nos dados mais recentes já haja uma inflexão para baixo. O desemprego subiu, o consumo caiu, e muitas pequenas empresas ainda se ressentem da queda na demanda. Mas, como ressaltam os autores, é impossível reformar um modelo falido sem gerar desconforto e perdas temporárias. A diferença é que, agora, os sacrifícios começam a apontar para um horizonte de reconstrução, e não mais para o abismo da estagnação.

Os professores da FGV também alertam para os desafios que ainda se impõem: Milei não tem maioria no Congresso, o que exige habilidade política e concessões táticas; a manutenção do câmbio valorizado pressiona a competitividade das exportações; e as reservas internacionais ainda estão em níveis baixos. Além disso, a base de apoio popular ao governo, embora ainda sólida, dependerá do ritmo em que os benefícios reais das reformas se materializem na vida cotidiana.

Ainda assim, o que já foi feito em menos de um ano é digno de atenção — e, por que não dizer, de certa inveja. Enquanto o Brasil se afoga em discussões estéreis sobre arcabouços fiscais artificiais, contabilidade criativa e aumento de carga tributária, a Argentina decidiu encarar seus fantasmas e rasgar o manual do populismo econômico.

Milei fez mais do que cortar gastos: impôs uma agenda de desregulação e dolarização funcional, como quem derruba o velho estado paquidérmico para permitir que algo novo floresça. O resultado é uma economia que, apesar de ainda combalida, voltou a respirar. Ele não construiu um sistema robusto nem uma base social sólida do zero, mas abriu clareira em terreno hostil.

E o que se vê agora é a Argentina ensaiando seus passos sobre um palco ainda instável, tropeçando aqui, retomando ali, mas sem perder o compasso. Pela primeira vez em muito tempo, o país não dança mais ao som de um lamento resignado, mas de um tango com gosto de recomeço — intenso, sofrido, mas vivo.

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