Bloco de Notas

- Do calçamento ao asfalto – uma transição civilizatória
O Governo do Paraná anunciou um programa estadual que, à primeira vista, parece singelo: pavimentar ruas de pedras irregulares. Mas quem já tentou empurrar um carrinho de bebê, atravessar de bicicleta ou dirigir por um calçamento de paralelepípedo sabe que essa não é apenas uma obra de infraestrutura — é uma reparação histórica. Com R$ 977 milhões reservados, sendo R$ 500 milhões ainda em 2025, o novo programa é uma continuação natural do Asfalto Novo, Vida Nova, que atacava as vias de terra batida. Agora, a meta é cobrir os remanescentes de uma era que já foi solução e hoje é obstáculo. Calçadas de pedra são charmosas em centros históricos, mas não em bairros onde falta dignidade urbana. O secretário Guto Silva acertou o tom: não é só mobilidade, é respeito a quem espera há décadas por uma rua minimamente decente.
- Diplomacia de luxo em tempos de penúria
O presidente Lula gastou R$ 15 milhões com viagens internacionais até maio. Menos que em anos anteriores, dizem seus defensores. Mas ainda muito para um país que não consegue pagar suas próprias contas. A maior fatia foi com hospedagem: R$ 6 milhões. Moscou custou R$ 1,9 milhão. Pequim, R$ 704 mil. Roma, onde foi ao funeral do papa, R$ 380 mil — descanso eterno ao contribuinte. E a comitiva? R$ 3,5 milhões em passagens e diárias. Uma passagem aérea para o ministro Rui Costa, chefe da Casa Civil, custou R$ 142 mil. Pequim–Xangai–Pequim. Tudo pela diplomacia. O que não se sabe é se voltaram de lá com algum resultado além da conta de hotel. Porque exemplo de austeridade, definitivamente, não foi.
- O império do ovo — e o empresário que já lavou uniformes em Cascavel
Ricardo Faria, hoje bilionário e 21º colocado na lista da Forbes Brasil, começou cedo: aos 15 anos, durante um intercâmbio na Califórnia, trocou a medicina pela agronomia ao se encantar com a força do agronegócio americano. Formou-se engenheiro agrônomo pela UFRGS e, ainda durante a graduação, fundou sua primeira empresa. Entre os negócios que comandou, está a Lavebras — especializada na higienização de têxteis e locação de uniformes para empresas e instituições públicas, como hospitais —, com atuação em diversos estados brasileiros, inclusive no Paraná, com operações também em Cascavel.
Em 2006, criou a Granja Faria, que rapidamente se transformou na maior produtora nacional de ovos comerciais, ovos férteis e pintinhos de um dia. Hoje são cerca de 16 milhões de ovos por dia, 2,7 mil funcionários e 34 unidades em 10 estados. O crescimento ultrapassou fronteiras: em 2024, comprou a americana Hillandale Farms por US$ 1,1 bilhão, e neste ano adquiriu o Grupo HEVO, segundo maior produtor de ovos da Espanha. A estratégia de internacionalização é clara — e ousada: “O objetivo é replicar o que temos no Brasil: liderar o segmento em cada país que operarmos”, declarou. De quem lavava uniformes à mesa dos grandes players globais, Ricardo Faria é o retrato contemporâneo do agro nacional.
- Alô, Putin. Rutte recomenda que Lula te ligue.
O novo secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, não perdeu tempo: alertou o Brasil, a China e a Índia que, se continuarem negociando com a Rússia, podem sofrer tarifas secundárias dos EUA. E foi além: sugeriu que Lula ligue pessoalmente para Putin, pedindo que ele leve a paz a sério. A ironia diplomática foi lançada em Washington, onde Trump já avisou: se não houver cessar-fogo em 50 dias, haverá tarifa de 100% para quem fizer negócios com Moscou. O Brasil bateu recorde de comércio com a Rússia no ano passado. E agora dança num campo minado. A pergunta que fica: Lula atende o Rutte… ou continua de telefone ocupado?
- Toda hora é hora
Com o slogan “Tem Frimesa pra todo o dia”, a cooperativa lança sua nova campanha de marketing mirando todos os públicos e horários. Carnes suínas, frios e laticínios aparecem agora em vídeos digitais, ações no ponto de venda, streaming e até no programa É de Casa, da Globo. A estratégia é ambiciosa: dobrar o faturamento até 2032 e chegar a R$ 15 bilhões, processando 23 mil suínos por dia. No digital, a Frimesa quer acompanhar o consumidor desde o café da manhã até o churrasco noturno, com presença em plataformas como Netflix e Spotify. A trilha sonora? Continua com Fernando & Sorocaba, os embaixadores da marca. Do campo ao show business, o agro quer mesmo é palco — e market share.
- Fies sem teto, diploma sem chão
Enquanto Lula repete que o filho do pobre voltou a sonhar com a universidade, milhares de estudantes de Medicina vivem um pesadelo bem real. O teto do Fies não acompanha os aumentos abusivos das mensalidades e a “coparticipação” dos alunos — o valor que eles devem pagar além do financiamento — se tornou impagável. A inadimplência chegou a 60% e a evasão beira os 80%. O curso que era financiado agora cobra mais de R$ 10 mil por mês, dos quais uma parte considerável sai do bolso de quem já não tem como pagar. O movimento “Fies Sem Teto” pede revisão urgente do limite de financiamento. Mas o governo, sempre tão eloquente nos palanques sobre educação, prefere ignorar. Afinal, discurso não tem carência de verba. Já diploma…
- Os fantasmas de Atibaia ainda rondam o Planalto
Enquanto o STF arquiva processos e varre provas para debaixo do tapete, a Receita Federal continua querendo saber o que aconteceu com os R$ 132 milhões recebidos por Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, da operadora Oi entre 2004 e 2016. Resultado: seis autos de infração, mais de R$ 10 milhões em cobranças por sonegação. A defesa alega perseguição política e confia na anulação. E quem duvida? A PGFN afirma que tem o dever legal de cobrar — mas não parece muito confiante na eficácia dessa missão. Num país onde delações viraram ficção e decisões judiciais seguem a partitura da conveniência, ainda há quem pense que o Lulinha vai mesmo pagar essa conta. Ingenuidade também não tem teto.
- Curitiba entre as cidades mais inovadoras do mundo
A capital paranaense foi anunciada como uma das três finalistas do GIMI Awards — considerado o Oscar global da inovação — na categoria “Entidade Governamental Mais Inovadora”. A responsável é a Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, que vem articulando universidade, setor privado, startups e governo em um ecossistema exemplar. O reconhecimento internacional veio após um rigoroso processo de avaliação com jurados de renome mundial. A conferência de premiação será em Roma, em setembro. Enquanto muitas prefeituras brasileiras ainda tentam entender o que é “transformação digital”, Curitiba já concorre ao pódio global. Que sirva de inspiração para o resto do país.
- Por dentro da pesquisa: os números que o governo não quer comentar
A Genial/Quaest divulgou pesquisa mostrando uma ligeira melhora na aprovação do governo Lula: de 40% para 43%. A desaprovação caiu de 57% para 53%, o que ainda mantém o presidente com saldo negativo. O que explica essa oscilação? A reação populista e nacionalista ao tarifaço anunciado por Trump. O discurso da soberania brasileira voltou a funcionar — por alguns dias. Mas, nos bastidores dos números, o estrago é visível. O pessimismo econômico cresceu: 43% acham que a economia vai piorar, contra 35% que acreditam em melhora. Em maio, os otimistas ainda eram maioria. Hoje, 56% dizem que está mais difícil conseguir emprego do que há um ano; 80% acham que o poder de compra piorou. E o velho truque de dividir o país entre ricos e pobres bateu no muro: 53% rejeitam esse discurso. Lula surfa uma onda patriótica, mas em mar de lama econômica.
- PRC-280: da vergonha à vitrine
A rodovia PR-280 já foi chamada de a pior do Paraná. Buracos, acidentes, mortes, abandono. Agora, com 140 km totalmente restaurados em concreto, passa a se chamar PRC-280 — o “C” de corredor logístico. Foram investidos R$ 180,9 milhões só no último trecho, entre Pato Branco e Clevelândia, com a aplicação da tecnologia whitetopping, que reutiliza o asfalto antigo como base e garante uma vida útil de até 20 anos. Durante a inauguração, o governador Ratinho Junior celebrou o que chamou de “dia histórico para o Paraná”. Ele lembrou que, quando assumiu o governo, a PR-280 era símbolo do descaso: “A pior em acidentes, em número de mortes, em buracos. Só o recapeamento não resolveria. Buscamos o que havia de mais tecnológico e inovador no mundo”, afirmou. Além de reduzir custos de manutenção e aumentar a segurança em frenagens, a nova estrutura em concreto melhora o escoamento da produção agropecuária e industrial da região rumo a Curitiba e ao Porto de Paranaguá. O governador destacou que a obra responde a uma demanda antiga do Sudoeste e transforma uma estrada esquecida em referência nacional de engenharia rodoviária. No país das obras inacabadas e dos contratos superfaturados, é bom registrar quando algo dá certo — e nesse caso, deu. Com louvor.
- IOF e o condomínio da fatura
O STF validou o aumento do IOF, contrariando o Congresso. A decisão foi assinada por Alexandre de Moraes, o mesmo que agora é, politicamente, fiador de um sistema no qual o governo edita decreto, o Congresso revoga, e o Supremo decide a quem pertence a última palavra. Como já era de se esperar, o ministro ficou com o Planalto. O detalhe é que, dias antes, Lula nomeou dois novos ministros para o TSE: um apadrinhado de Moraes, outro de Flávio Dino. Coincidência? Talvez. Mas nesse condomínio Brasília-STF, a conta quem paga é sempre o contribuinte. O governo estoura gastos, o Congresso tenta barrar impostos, e o Supremo os ressuscita. Tudo muito democrático — para quem manda.











