OPINIÃO

A nova era da inteligência rural

O agronegócio brasileiro vive uma transição silenciosa, mas profunda. Uma transformação que não se anuncia com fogos nem slogans, mas que se percebe no ritmo das decisões, no rigor dos dados e na sofisticação dos processos. O campo, que por séculos operou na intuição e na tradição, agora se rende à lógica da análise e da antecipação.

Nesse novo cenário, como destacou o professor e engenheiro agrônomo Marcos Fava Neves — o Dr. Agro — em entrevista à revista Exame, realizada durante o Ifama 2025 World Conference em Ribeirão Preto, o que se desenha é um futuro em que a inteligência no campo será mais relevante do que a força bruta. Fava Neves é titular na Faculdade de Administração da USP e fundador da Harven Agribusiness School, além de ser referência internacional em estratégias para o agronegócio.

É nesse contexto que surge o conceito de “agricultura por píxel”, expressão que sintetiza o avanço da inteligência artificial na lavoura. A tradicional agricultura de precisão, baseada em metros quadrados, agora evolui para o monitoramento milimétrico, permitindo aplicar fertilizantes, defensivos e irrigação de forma localizada, com altíssimo grau de eficiência. A IA, segundo Fava Neves, não vem substituir ninguém — mas sim otimizar tudo. Mais produtividade, menos desperdício, decisões certeiras. O campo, aos poucos, se transforma numa planilha viva, inteligente — e rentável.

Mas inovação, por si só, não garante perenidade. O debate sobre sustentabilidade e as pressões ESG também estiveram no centro das discussões. E aqui, Dr. Agro é direto: o agro está superando a fase da “moda ESG” e amadurecendo para um entendimento mais objetivo — sem lucro, não há sustentabilidade. Responsabilidade ambiental e social, sim, mas com rentabilidade. “Quem entrega resultado sobrevive. Quem não entrega, está fora”, resume.

A visão de futuro inclui também o papel do Brasil diante de um mundo instável, com guerras comerciais, tensões geopolíticas e mudanças climáticas. Segundo Fava Neves, a posição estratégica do Brasil é clara: ser a cozinha do mundo. E, como tal, deve manter neutralidade política, pragmatismo comercial e confiabilidade na entrega. “Você não pode brigar com o cozinheiro”, ironiza. O Brasil não precisa tomar partido — precisa entregar comida com rastreabilidade, qualidade e sustentabilidade. Se for carne embalada com certificação de origem, ótimo. Se for boi em pé, também — desde que seja rentável.

Sobre as tarifas recém-impostas por Donald Trump, o engenheiro agrônomo alerta que os efeitos podem ser ambíguos. Num primeiro momento, o Brasil pode até se beneficiar, já que os EUA taxam produtos de países concorrentes. Mas basta um acordo comercial robusto entre americanos e compradores estratégicos para que o Brasil fique de fora. Daí a importância de ampliar mercados e reforçar a competitividade, mesmo diante das fragilidades conhecidas: insegurança jurídica, logística deficiente, lentidão institucional. A boa notícia? Apesar dos entraves, o agro brasileiro segue entregando — e encantando.

No âmbito dos acordos comerciais, o tratado entre Mercosul e União Europeia surge como janela de oportunidade, sobretudo para segmentos como café, suco de laranja, frutas e carne bovina. No entanto, o especialista adverte: cada avanço tarifário traz um custo regulatório elevado — rastreabilidade, certificações, exigências ambientais. A UE, diz ele com franqueza, é o cliente mais exigente do Brasil. E, ao mesmo tempo, o que mais impõe obstáculos à imagem do agro brasileiro no exterior. Enquanto isso, a Ásia avança como principal destino das exportações: é para lá que migrarão 80% dos estômagos do planeta até 2050.

Fava Neves também projeta os riscos e oportunidades da COP30. Se o Brasil souber mostrar ao mundo sua verdadeira realidade ambiental, separando desmatamento ilegal de produção responsável, poderá sair fortalecido. A chave é narrativa. Se a conferência virar um palanque circense contra o agro, o país perde. Mas se conseguir evidenciar o combate à criminalidade fundiária e o avanço tecnológico no campo, terá a chance de redefinir sua imagem global. “A COP é como um casamento: não é hora de brigar com os garçons”, dispara.

Por fim, os biocombustíveis — tema caro ao especialista — aparecem como fronteira promissora. O etanol, que vai e volta da moda há décadas, retorna com força, agora com 30% de mistura na gasolina. O biodiesel já atinge 15% no diesel e deve chegar a 20% em 2030. O SAF (combustível sustentável de aviação) também ganha espaço, com metas graduais até 2037.

A única dúvida, confessa Dr. Agro, é o tamanho real do apetite das turbinas e motores. Mas o apetite global por soluções energéticas limpas é evidente. E o Brasil, com sua capacidade única de expandir área produtiva sem abrir novas fronteiras ambientais, está diante de uma oportunidade histórica. É pegar ou largar.

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