OPINIÃO

Bloco de Notas

Trucando sem carta

Na tentativa de evitar a queda do decreto que aumentava o IOF, Gleisi Hoffmann teve a brilhante ideia de convocar uma reunião entre o chefe da Casa Civil, Rui Costa, e líderes da Câmara. Deu no que tinha que dar. Em vez de pedir apoio, Rui subiu o tom, culpou o Congresso pelo descontrole fiscal e disse que o Parlamento precisava ser mais responsável com os gastos — como se o rombo das estatais e os pacotes eleitoreiros não fossem gerados no Planalto. Hugo Motta e companhia saíram do desastrado encontro mais decididos ainda a votar contra o governo. E foi assim que o Palácio, ao invés de construir pontes, ergueu um palanque de arrogância. Resultado: derrota acachapante. O governo jogou truco… sem ter nem o três de paus na mão.

Quadrilha premiada

Junho é mês de bandeirinhas, balões, milho cozido — e quadrilha. Mas nem toda dança em roda é folclore. Vinte anos depois do escândalo que inaugurou a era petista das propinas em série, o que resta do Mensalão é uma quadrilha junina de luxo, cujos integrantes trocaram a Papuda pelo salão político. Zé Dirceu, o mestre de cerimônias, já ensaia retorno em 2026. Delúbio e Genoino seguem de camisa xadrez ideológica. Roberto Jefferson, sempre performático, intercalou tiroteios e internações. Marcos Valério, condenado a quase 40 anos, hoje curte o arraiá em prisão domiciliar. E Valdemar Costa Neto dança forró em cargo de liderança. De 38 réus, 24 condenados — nenhum preso. Mas nada supera a sinceridade candente do próprio Dirceu, que nesta semana resolveu rasgar a fantasia e dizer o óbvio: “não é porque as ações da Lava Jato foram anuladas que não houve corrupção na Petrobras”, falou em alto e bom som. Está na hora, companheiros, de parar de brincar de São João e reconhecer: não é quadrilha de mentira. É real. E o Brasil dançou.

A fila anda — menos no INSS

Segundo denúncia da Folha de S. Paulo, o governo Lula orientou o INSS a segurar a fila de beneficiários para conter gastos com aposentadorias e auxílios. A fila, que já ultrapassa 2,6 milhões de requerimentos, virou política pública de austeridade seletiva: corta-se onde o povo é vulnerável, mas mantém-se intactos os gastos que rendem aplauso e voto. Ex-ministro Carlos Lupi, que chefiava a Previdência, confirmou a manobra e lavou as mãos com honestidade brutal: “quando há decisão governamental, a gente acata ou sai do governo”. A orientação oficial era priorizar revisões e apurações, não concessões. A crueldade travestida de técnica. Os pobres que esperem.

O carteiro toca, a guitarra também

Afundados em R$ 2,6 bilhões de prejuízo em 2024 — mais R$ 1,7 bilhão só no primeiro trimestre deste ano — os Correios decidiram entregar, com pontualidade exemplar, R$ 4 milhões ao cantor Gilberto Gil para patrocinar sua turnê de despedida. Desde que o PT voltou ao poder, a estatal já torrou R$ 38,4 milhões em patrocínios culturais. No governo anterior, eram R$ 430 mil por ano. A logística agora é outra: distribuir dinheiro para artistas amigos. À frente da operação está Fabiano Silva dos Santos, presidente da empresa e, nos bastidores, o celebrado “churrasqueiro de Lula”. É ele quem vira a carne nas confraternizações do Prerrogativas, o bloco de advogados de esquerda que está sempre às ordens do Palácio do Planalto. E se no marketing institucional a entrega atrasa, no aparelhamento ideológico a entrega é expressa.

Estatais: o retorno dos companheiros

Com 273 cargos políticos criados desde 2023, Lula reativou o velho motor do clientelismo estatal. A justificativa? Melhorar a gestão. O efeito? R$ 206 milhões por ano em salários e penduricalhos para petistas, apadrinhados e familiares. O Grupo Hospitalar Conceição lidera o ranking do inchaço: saltou de 16 para 69 cargos comissionados. A justificativa oficial é um novo centro oncológico. A real, um novo centro de convivência para companheiros sem função. É a volta do modelo que troca governança por governismo, meritocracia por militância e eficiência por fidelidade. O Brasil que combate a fome… de poder.

O rico, segundo Lula, é quem vende pão sem pagar ICMS

Em mais uma de suas parábolas econômicas, Lula declarou que o Brasil concede R$ 860 bilhões em isenções “para os ricos”. Comparou o número ao Bolsa Família e garantiu que só há barulho quando o gasto é para os pobres. O problema é que a conta não fecha — nem com a boa vontade da Receita. O número real, segundo o Demonstrativo de Gastos Tributários, é R$ 587 bilhões, incluindo medicamentos, cesta básica e o Simples Nacional — que, aliás, atende micro e pequenas empresas. Mas por que os fatos importariam? Melhor é a narrativa: um país oprimido por padeiros milionários e feirantes engravatados, que vivem de sugar os impostos que deveriam ir para Brasília. O problema fiscal não está nas isenções — está no gasto. E nisso, sim, o governo tem se especializado com louvor.

Tropa, atenção! Eles querem fechar as escolas que funcionam

Enquanto o Brasil luta para alfabetizar adolescentes de 15 anos, a ONU, o PSOL e o governo Lula resolveram mirar sua artilharia em quem está entregando resultado. As escolas cívico-militares — que reduzem a violência, melhoram o aprendizado e resgatam territórios dominados pelo crime — foram classificadas como “ameaça aos direitos humanos”. Uma “ameaça” que, por exemplo, ajudou o Paraná a obter o primeiro lugar no IDEB. O relatório da ONU, evidentemente motivado por pressões ideológicas do PSOL, recomenda o fim do modelo em nome de um humanismo seletivo. Em resposta, o governador Tarcísio de Freitas reafirmou que implantará em São Paulo 100 escolas cívico-militares no segundo semestre. E para desespero da militância, as crianças vão aprender português, matemática e, vejam só, respeito.

Cade aprova, mas fica de olho

A compra do Hospital Policlínica pela Unimed Cascavel foi finalmente aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, mas não sem antes um receituário robusto de obrigações. O risco era simples: quando quem paga o plano vira dono do hospital, o remédio pode virar veneno para a concorrência. Por isso, contratos com outros hospitais terão de ser mantidos por dez anos, novas aquisições estão proibidas por cinco e qualquer tentativa de favorecer a casa nova será vigiada por um “trustee” com crachá e lupa. O negócio de R$ 85 milhões poderá até melhorar a saúde da cidade — mas só se o mercado continuar respirando por aparelhos próprios.

Ponte sem travessia

A Ponte da Integração Brasil–Paraguai está pronta desde dezembro de 2022. Bonita, imponente, moderna — e fechada. A travessia entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco segue interditada à espera das aduanas e dos acessos rodoviários. Essas obras estão 65% concluídas e a inauguração, se não for adiada mais uma vez, deve acontecer em dezembro próximo. Enquanto isso, a velha Ponte da Amizade, que une Foz e Ciudad del Este, segue sobrecarregada e a tão sonhada fluidez logística permanece no campo da ficção. É mais um exemplo de uma das maiores pragas que provoca o atraso do país: a falta de planejamento.

A rebelião vem pelo voto

Para o cientista político Christopher Garman, mesmo que a direita chegue fragmentada em 2026, ainda poderá vencer. O recado é simples: o sentimento de revolta com o sistema está mais forte do que o desejo de moderação. A tal “terceira via” só terá chance se vestir a fantasia do outsider e falar a língua da indignação. Com Lula em queda e a segurança pública em alta no ranking de preocupações, o terreno está fértil para quem representar mudança real. A dúvida que resta é: quem vai encarnar esse sentimento? Porque o povo já decidiu que quer virar a mesa. Falta só quem puxe a toalha.

Irã: a ditadura que a esquerda abraça de olhos bem fechados

Enquanto celebram diversidade nas redes e discursam contra o genocídio, muitos ativistas brasileiros silenciam diante das atrocidades cometidas pelo Irã. Lá, mulheres são executadas por “desonra”, obrigadas a usar véus, submetidas a testes de virgindade e casadas aos 13 anos. Homossexuais são chicoteados ou enforcados. O mesmo regime que financia o Hamas, aplaudido em certos círculos progressistas, enforcou uma jovem que matou seu estuprador e prendeu uma Nobel da Paz. Janja, Erika Hilton e outros defensores dos “direitos das minorias” seguem mudos. Talvez porque, na militância seletiva, nem todo grito cabe no palanque.

A marcha dos insensatos

Maílson da Nóbrega foi às páginas da Veja achando que presenciaria o nascimento de uma agenda séria de reformas. Saiu de lá de toalha na cabeça, depois da ducha de água fria. O encontro entre governo e Congresso, que poderia ser um raro momento de grandeza institucional, virou mais um teatrinho de repartição: nada de enfrentar o monstro do gasto público — o negócio é espremer a receita até a última gota. Deu-se, então, o retorno à estratégia suicida de empilhar impostos para tapar o buraco cavado pela gastança. O ex-ministro avisa: seguimos na trilha rumo ao abismo fiscal, talvez com chegada antecipada. Mas ainda nutre uma esperança — que o cheiro de queimado desperte, enfim, o instinto de sobrevivência nacional. Que das cinzas da irresponsabilidade surja, quem sabe, uma faísca de lucidez.

O remédio que não vem da farmácia 

No maior congresso de oncologia do planeta, realizado neste mês em Chicago, um dos estudos mais esperados não envolvia nanotecnologia, edição genética nem fórmulas milionárias guardadas a sete chaves por alguma farmacêutica. O tratamento que parou o salão de conferências tinha outro nome: atividade física. Isso mesmo. O bom e velho exercício — esse mesmo que muita gente evita com a disciplina de um devoto. Pesquisadores americanos acompanharam por mais de dez anos pacientes com câncer de cólon e constataram que o hábito de se mexer, depois da quimioterapia, reduziu em 30% o risco de a doença voltar e em 37% a chance de morrer nos dez anos seguintes. Publicado no New England Journal of Medicine e aplaudido por mais de 40 mil profissionais da saúde, o “remédio suado” — como batizou um jornalista mais inspirado — é gratuito, acessível e eficaz. O único efeito colateral: sair do sofá. E, para muitos, esse continua sendo o obstáculo mais difícil de superar.

Turno ininterrupto da ladroagem 

No Brasil, os casos de corrupção já não se atropelam — formam fila, puxam senha e esperam a vez de entrar em cena. Mal o país começa a lidar com o rombo bilionário dos descontos indevidos em aposentadorias, lá no INSS, surge outro descalabro saindo do forno: o seguro-defeso para “pescadores”. Em Mocajuba (PA), por exemplo, uma cidade com 15 mil adultos, praticamente todos receberam o benefício em 2024 — mesmo que peixe, por lá, seja mais raro que auditor. O prejuízo estimado chega perto dos R$ 6 bilhões, pagos a uma multidão de fantasmas cuidadosamente cadastrados, muitos dos quais repassavam parte do valor a atravessadores do esquema. É fraude profissional, com organograma, logística e repasse. Agora, entre um incêndio e outro, o governo anuncia biometria e cruzamento de dados — a eterna política pública da porta arrombada. Por aqui, o problema nunca é a surpresa. É a frequência.

Não é pra rir, tá?

O Brasil perdeu 94% de sua população de jumentos nos últimos 30 anos. Sim, é sério. Dados do Ministério da Agricultura apontam que 248 mil jegues foram abatidos entre 2018 e 2024, a maioria para atender à indústria chinesa de Ejiao, um suplemento feito com colágeno extraído da pele do asno, prometendo vitalidade e longevidade — ao consumidor, não ao bicho. Há quem alerte para o risco de extinção do animal, símbolo da resistência nordestina, dono de um genoma único e de um temperamento, digamos, teimosamente nobre. Mas nas redes, a preocupação tomou outro rumo: diante da matança, muitos passaram a temer que, sem jumentos, um certo grupo político fique sem mascote simbólico. Seria o fim de uma era — ou o início de uma transição evolucionária. Afinal, nesse Brasil surreal, quem vai carregar o fardo quando o burro não estiver mais lá?

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