Liberou geral

E depois a turma que hoje ocupa o Palácio do Planalto se ofende quando é acusada de leniência com a corrupção.
Pois o governo Lula acaba de oferecer mais um flagrante à crônica do escândalo nacional: decidiu retirar da LDO de 2026 a cláusula que obrigava ONGs a devolver os bens adquiridos com dinheiro público em caso de desvio de finalidade. Isso mesmo. Se a entidade usar mal o recurso, paciência — o bem fica com ela. Como se fosse prêmio de consolação pelo mau uso do erário.
Trata-se de um caso clássico de autoincriminação ideológica. Um gesto que dispensa denúncia, CPI ou delação premiada.
Está tudo escrito, oficializado, protocolado — e ainda por cima, contra parecer técnico da própria consultoria jurídica do Ministério do Planejamento. Que, aliás, alertou com todas as letras: essa mudança abre espaço para “desvios, ineficiências e malversações”, além de ferir os princípios constitucionais da moralidade, da publicidade, da economicidade e da eficiência. Mas quem liga para princípios quando se tem um projeto de poder?
A justificativa do governo beira o deboche. Dizem que nem sempre é vantajoso à União receber de volta os bens desviados. Vai ver o Estado brasileiro, agora, virou entidade zen — desapegada.
Abre mão dos bens com a mesma leveza com que abre mão da vergonha. Para um governo que bate recordes no repasse de bilhões para ONGs, a mensagem está dada: desviem, mas com capricho. Ninguém será incomodado a devolver uma impressora sequer.
A tal cláusula de reversão patrimonial — essa sim, uma tradição republicana que protegia o patrimônio público — foi simplesmente apagada da proposta orçamentária enviada ao Congresso.
Uma omissão milimetricamente calculada, numa época em que a profusão de organizações “parceiras” do governo cresce ao sabor das conveniências políticas.
A cereja do cinismo: o texto original ainda tentava liberar essas entidades da apresentação de certidões negativas e da comprovação de capacidade técnica. Sim, é isso mesmo. A trinca perfeita: sem certidão, sem capacitação, sem devolução.
A impunidade como diretriz de governo, com verniz assistencialista para disfarçar a libertinagem administrativa.
Tudo isso, mais do que erro ou negligência, revela um espírito transgressor — e um caráter criminoso que há décadas permeia as administrações do PT.
Não se trata apenas de má gestão, mas de um método: a complacência com a corrupção como peça funcional do ideário político. E a cada nova medida, o governo parece não apenas repetir, mas exibir com vaidade sua conivência institucional com o ilícito.
Foi assim que nasceu o mensalão. Foi assim que floresceu o petrolão. E é por esse mesmo caminho que se cultiva agora o escândalo do INSS — que, sem exagero, já pode ser batizado de Aposentão.
O mesmo enredo de sempre, apenas com novos figurantes e alvos mais vulneráveis: os aposentados, os pensionistas, os invisíveis.
E depois disso tudo, o governo ainda reclama das críticas. Mas como nomear um comportamento que remove deliberadamente os mecanismos de controle e abre caminho para que o dinheiro público escorra livre, leve e solto — até sumir nos meandros das ONGs amigas?
Quando a corrupção bate à porta da moralidade pública, o lulopetismo oferece café, biscoitos — e passa recibo.











