OPINIÃO

O dragão que assusta anda assustado

Durante décadas, o Ocidente alimentou a imagem da China como o dragão que despertava. Gigante, místico, disciplinado, disciplinador. Primeiro como a fábrica do mundo, depois como seu laboratório, e agora, quem sabe, seu futuro gerente geral. Mas há algo desconcertante em todo esse enredo. O dragão, ao que parece, tem duas cabeças — e uma delas anda mancando.

A matéria de Li Yuan no New York Times (reproduzida pelo Estadão) escancara esse paradoxo: há duas Chinas coexistindo sob o mesmo Partido. Uma delas é a superpotência tecnológica — produtora de chips, robôs, carros elétricos, satélites e promessas. A outra é um colosso que range, falha, tropeça. Enquanto a DeepSeek avança na inteligência artificial e a BYD exporta carros como quem empacota brinquedos, a economia real enfrenta um colapso silencioso, quase constrangido.

A China que encanta os palcos internacionais se move com elegância cibernética. Inteligência artificial, conectividade 5G, trens-bala, Huawei desafiando o Ocidente com peito estufado. É a China que assusta Washington, que provoca tarifas, que inflama discursos de campanha americana. O próprio CEO da Nvidia, Jensen Huang, afirmou que o país “não está atrás” dos EUA em IA. Para alguns, a liderança chinesa no século XXI seria inevitável.

Mas sob essa superfície cintilante, esconde-se uma outra China: a dos balanços preocupantes, das incorporadoras falidas, do desemprego crescente entre jovens altamente qualificados, do consumo interno desidratado. É uma economia que parece ter envelhecido antes de ficar rica. A metáfora que serve ao dragão não serve aqui. Para este lado da história, talvez um elefante exausto seja mais apropriado — grande, mas pesado, lento e com articulações comprometidas.

A matéria expõe números eloquentes: o setor imobiliário ainda responde por 17% do PIB, apesar de estar em frangalhos. Já a tão celebrada manufatura de ponta representa meros 6%. Os motores que puxaram o crescimento por décadas — construção civil, exportação barata, mão de obra abundante — estão falhando ou não fazem mais sentido. E o que substitui isso? A resposta, por enquanto, é hesitante.

O Partido Comunista Chinês, que sempre teve vocação para controlar tudo — até o clima, se necessário —, agora tenta calibrar um sistema complexo, sobreaquecido em áreas de ponta e desidratado nos fundamentos. O paradoxo é este: quanto mais a China avança na tecnologia, mais evidentes se tornam as rachaduras no modelo de crescimento. A superpotência do amanhã parece cada vez mais dependente da estabilidade de ontem.

Por isso, ao contrário do que muitos previram, talvez a China não ultrapasse os Estados Unidos — ao menos não como potência hegemônica do planeta. Porque potência não é apenas hardware. É confiança institucional, liberdade de criação, estímulo ao risco, segurança jurídica — elementos ainda raros por lá.

Sim, a China assusta. Mas assusta tanto quanto preocupa. Ela brilha, mas também range. Ela corre, mas tropeça. Ela se impõe, mas também se encolhe. E enquanto o mundo debate se o dragão dominará os céus, ele próprio parece dividido entre voar alto ou cair de exaustão.

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