A nação das dívidas eternas


Setenta milhões. É esse o número que grita das manchetes, ecoando a realidade de um Brasil que, mais do que endividado, está afogado em promessas adiadas, boletos vencidos e sonhos parcelados.
São 70 milhões de brasileiros inadimplentes — 42% da população adulta — segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito. Um dado estarrecedor, mas que, como tantos outros, já não choca: apenas confirma o que sentimos na pele.
A Fundação Getúlio Vargas aprofunda a ferida: desde 2022, oito em cada dez famílias brasileiras convivem com algum tipo de dívida. Algumas por necessidade, outras por desinformação, muitas por desespero. A premissa do endividamento é simples e brutal: demanda por dinheiro. E no Brasil, onde falta poupança — seja no bolso do cidadão ou nos cofres da União —, toda necessidade vira dívida, e toda dívida vira necessidade.
Um ciclo vicioso que se retroalimenta como um incêndio que consome o que resta de esperança e estabilidade.
A bola de neve se forma quando o crédito vira remédio para curar o próprio crédito. Parte significativa dos débitos contraídos hoje serve apenas para quitar os débitos de ontem. E como em toda avalanche, os mais vulneráveis são os primeiros soterrados. Cartões de crédito, rotativos com juros indecentes, empréstimos com garantias irreais, linhas consignadas que transformam aposentados e servidores públicos em reféns da própria folha de pagamento.
O crédito consignado, aliás, virou o novo elixir do sistema bancário — um negócio de baixo risco e lucro certo. A estabilidade dos vencimentos públicos garante aos bancos a segurança que falta ao tomador do empréstimo.
E assim, com um clique ou um telefonema, funcionários da ativa e inativos são seduzidos a vender o futuro em troca de um alívio imediato. Pior: muitas vezes, sequer são avisados. Multiplicam-se as denúncias de fraudes, falsificações e empréstimos contratados à revelia do cidadão, que descobre ter contraído uma dívida apenas quando o desconto bate na conta.
É uma chaga nacional. E não se restringe à população. O exemplo que vem de cima é tão ou mais alarmante.
Um governo que deveria educar pelo exemplo, insiste em gastar mais do que arrecada, endividar-se mais do que arrecada, prometer mais do que entrega. A União virou o reflexo ampliado de seus cidadãos: sem poupança, sem contenção, sem plano.
Desde janeiro de 2023, já na arrancada do governo Lula 3, o Planalto vem adotando medidas para “turbinar” a economia, mas o que se vê é a insistência em oferecer crédito fácil a uma população já exaurida, enquanto a dívida pública segue crescendo — como a das famílias —, sem perspectiva de equilíbrio fiscal sustentável.
Diz-se que um país governado por bancos sempre terá dívidas. Mas o que se vive hoje no Brasil é mais do que uma dependência financeira. É um modelo econômico e cultural ancorado na ilusão de que se pode consumir primeiro e pensar depois. Num país que não economiza, o presente é um fiado constante e o amanhã, um crediário eterno.
Enfim, enquanto o país viver de fiado, o futuro continuará sendo só uma promessa — com juros embutidos.











