OPINIÃO

Diz-me com quem desfilas e dir-te-ei quem és

A cena fala por si. Na Praça Vermelha, sob o céu cinzento de Moscou, desfilam tanques, ogivas e generais que saudam a glória de um império em ruínas.

Ao fundo, ladeado por déspotas de várias procedências, lá está ele: Luiz Inácio Lula da Silva, sorridente, orgulhoso, compenetrado, como quem acredita, sinceramente, que faz História. E faz. Mas da pior maneira possível.

Ao aceitar o convite para participar das celebrações do chamado Dia da Vitória, Lula não honrou a memória dos soldados que tombaram pela liberdade. Tampouco representou a posição altiva e pacífica que a Constituição exige da política externa brasileira.

O que ele fez — com entusiasmo quase juvenil — foi emprestar prestígio de chefe de Estado democrático a uma cerimônia grotesca, transformada por Vladimir Putin em espetáculo de autocelebração totalitária, em meio a uma guerra brutal e injustificável na Ucrânia.

A Rússia, como faz todos os anos nessa data simbólica, tenta roubar para si o protagonismo exclusivo na derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial — uma meia-verdade convenientemente inflada por sua propaganda.

A vitória sobre Hitler não foi obra de um só país, mas de uma coalizão de nações. No front oriental, sim, a então União Soviética avançou com sacrifício gigantesco até Berlim.

Mas, no front ocidental, quem marchou sobre a Alemanha nazista foram os exércitos dos Estados Unidos, Inglaterra, França e demais aliados — entre eles o Brasil, que lutou ao lado dos que hoje são ignorados nos discursos e nas coreografias imperiais de Moscou.

Como um figurante de luxo, Lula assistiu ao desfile de mísseis que, amanhã ou depois, ceifarão vidas civis — mulheres, crianças, idosos — nas cidades ucranianas.

Aplaudiu a marcha dos batalhões que invadem, saqueiam e destroem sob a falsa bandeira da “desnazificação”. E se deixou enquadrar nas câmeras da propaganda russa, que agora o usam como troféu diplomático: o presidente do Brasil, democracia tropical, endossando o regime do czar moderno.

Não houve ganho estratégico. Não houve sequer ganho simbólico. Houve apenas a vaidade de um velho líder de esquerda que, deslumbrado com a aura do poder bruto, preferiu posar ao lado de criminosos de guerra a exercer qualquer protagonismo moral.

Ficou em humilhante posição na segunda fila — porque a primeira já tinha dono. Xi Jinping, o sócio preferencial. Maduro, o mascote geopolítico. E Lula? Um apêndice protocolar, a peça exótica da vitrine autoritária. Desmoralizado entre desmoralizados.

Ao Brasil, restou o vexame. De novo.

Um vexame que não se mede em memes ou manchetes internacionais, mas em erosão de prestígio. O país que poderia ser mediador virou cúmplice. O país que falava em paz preferiu calar diante da guerra. O país que se dizia neutro foi visto ao lado dos que bombardeiam.

E o homem que ali estava — o mesmo que nunca se envergonhou do mensalão, nem do petrolão, nem da montanha de escândalos que seu partido coleciona — também não se constrange agora.

Por que se envergonharia? Lula sempre teve a espantosa capacidade de atravessar os escândalos como se fossem meras contrariedades administrativas.

O Brasil foi saqueado? Era intriga da oposição. O INSS foi fraudado — de novo — com uso de dados dos aposentados? Ora, isso é coisa de gabinete, que nem chega ao conhecimento do líder supremo. O importante é o “projeto”. E que projeto é esse? O de reconstruir a esquerda mundial no colo de tiranos.

Mas há uma diferença gritante entre realismo diplomático e complacência ideológica. Entre independência externa e servilismo disfarçado.

O Brasil pode — e deve — dialogar com todos, inclusive com regimes autoritários, se isso for do seu interesse. O que não pode é rasgar seus princípios para satisfazer a vaidade de um presidente que sonha com o Nobel da paz enquanto admira, em silêncio cúmplice, os canhões da guerra.

A imagem está feita. E será eterna.

Lula na Praça Vermelha, com sua faixa presidencial e seu sorriso de chumbo, cercado por autocratas e ditadores, aplaudindo o desfile de uma potência decadente em sua marcha sobre cadáveres.

Essa é a nova cara da política externa brasileira. Um rosto sem vergonha.

 

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