Bloco de Notas


1. Consignado até a alma
O que era para ser um alívio virou armadilha: empresários do setor de supermercados soaram o alarme ao governo sobre a bomba-relógio dos consignados com garantia do FGTS. Criado para oferecer crédito barato, o modelo virou um monstro desregulado, com juros que chegam a 15% ao mês — sim, ao mês —, corroendo salários antes mesmo que os boletos façam a festa. Resultado? Trabalhador atolado em dívida, salário desaparecendo na folha, e uma fila crescente de demissões voluntárias. O mercado formal, já combalido, corre o risco de virar peça de museu, com a informalidade sorrindo de orelha a orelha. E tudo isso sem contar as fraudes — contratos fantasmas, assinaturas falsificadas, golpes em série. O consignado virou um crime em série com aval oficial.
2. Diplomacia de salão
Enquanto Lula discursava em Moscou sob a sombra da foice, do martelo e das ambições imperiais de Putin, a primeira-dama Janja cuidava da soft diplomacy — aquela que começa com sorriso, passa pelo chá com biscoitos e termina em vexame internacional. Em plena celebração russa do “Dia da Vitória”, Janja fez questão de se encontrar com Alexander Beglov, governador de São Petersburgo e entusiasta declarado da destruição da Ucrânia. O distinto também mantém diálogo amistoso com os talibãs. Isso mesmo: terroristas oficialmente reconhecidos. Com essa agenda, Janja contribui para as relações exteriores brasileiras do jeito que sabe — tornando-as ainda mais difíceis de explicar em qualquer mesa minimamente civilizada.
3. Silêncio com juros
A taxa Selic subiu de novo. Já são 14,75% ao ano — o maior nível desde 2006. Quem assina a conta? O Comitê de Política Monetária do Banco Central, agora sob a batuta de Gabriel Galípolo, criatura do lulismo, companheiro de pensamento e indicado direto do Planalto. Mas veja que curioso: quando o presidente era outro — e o presidente do BC se chamava Roberto Campos Neto — cada aumento nos juros era tratado como atentado à pátria. Havia gritos, discursos inflamados, dedos em riste e até notas de repúdio em tom revolucionário. Hoje, a mesma política monetária, aplicada pelas mãos amigas do governo, é recebida com um silêncio tão eloquente quanto suspeito. Sumiram Gleisi, Lindbergh, o próprio Lula. Talvez estejam todos de férias… no carnê do consignado.
4. Conselhos da pilantragem
Entidades suspeitas de fraudar o INSS em mais de R$ 6,3 bilhões estão instaladas com tapete vermelho em 10 ministérios e até no Palácio do Planalto. A Contag, estrela do show, participa de pelo menos 16 colegiados oficiais. São fóruns para “orientar políticas públicas”. Agora pense: se quem orienta é quem rouba, o que esperar da política? Essas organizações, investigadas por desvios que assaltam aposentados e pensionistas, não só têm acesso irrestrito ao poder como influenciam decisões estratégicas. É o Estado brasileiro em versão self-service — você entra, escolhe o orçamento do mês e sai com a sobremesa. O crime organizado agradece.
5. O animal folclórico
Lula chegou a Moscou carregando um livro. Sim, um livro. Não era um compêndio do Foro de São Paulo nem as memórias de Fidel — era O Animal Social, obra que explora, entre outras coisas, o preconceito, a conformidade, o comportamento antissocial e a sedução das seitas e do terrorismo. Se vai ler ninguém sabe. Mas se lesse, talvez descobrisse por que alguém despreza suas raízes democráticas para flertar com autocracias, por que um líder vocifera tanto ódio aos adversários ou como nascem fanatismos ideológicos que transformam políticos em pastores de seitas laicas. A dúvida é se o livro foi escolha pessoal ou apenas acessório de cena, para tentar colar um verniz intelectual sobre uma biografia que reluz mais no populismo do que no pensamento.
6. Se ainda havia alguma dúvida…
Veio dos Estados Unidos uma sugestão sensata: classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Isso permitiria que o sistema legal americano, bem mais severo que o nosso, apertasse o cerco às facções que já operam em 12 estados do país, de Nova York ao Tennessee. Mas o governo Lula, sempre cuidadoso com os “movimentos sociais armados”, rejeitou a ideia. Alega que aqui não se trata de terrorismo — é só lucro com tráfico, sequestro, lavagem de dinheiro e assassinato. Nada ideológico, apenas negócios. A resposta brasileira, com sua sutileza criminosa, é um belo presente para alimentar os discursos que vinculam o governo à bandidagem.
7. Sai o Lupi, fica o lobo
Carlos Lupi pediu demissão após a Polícia Federal expor o esquema bilionário de fraudes no INSS. Não foi indiciado, mas o calor no encosto da cadeira ficou insuportável. Para substituí-lo, Lula fez o que qualquer líder sensato evitaria: nomeou o número 2 da pasta, Wolney Queiroz — aliado de longa data de Lupi, presença cativa nas mesmas reuniões onde, dois anos atrás, já se relatavam os indícios das fraudes. Ou seja: o novo ministro não é só da casa, é da sala ao lado. Sabia de tudo. Agora assume o comando com a missão de investigar… o que ele mesmo ignorou? É como trocar o cozinheiro acusado de envenenamento pelo garçom que serviu o prato. Mas no governo Lula, esse tipo de desfecho é chamado de “continuidade administrativa”.
8. Até o PDT pulou do barco
O governo Lula conseguiu o impensável: perdeu o apoio do PDT. Exato, o PDT — aquele partido nanico que orbita o poder há décadas em busca de verbas, cargos e relevância. Com apenas 17 deputados, a legenda rompeu com o Planalto após se sentir escanteada na crise do INSS e na queda de Carlos Lupi, presidente licenciado do partido. O recado é claro: até quem vive de governo está tentando viver sem ele. Se um aliado ideológico, estatólatra por vocação, anuncia independência, é porque a aliança passou a fazer mal à saúde eleitoral. E pensar que Lula já perdeu até um deputado do Centrão que preferiu recusar um ministério — algo inédito na história da fisiologia nacional. O que sobra? Um presidente cada vez mais cercado… de silêncio constrangedor e partidos fugindo como quem avista uma lancha furada.
9. Um Leão do Norte com alma latina
Surpresa no Vaticano: o novo Papa é Robert Francis Prevost, norte-americano de nascimento, mas com coração e trajetória moldados na América Latina. Nascido em Chicago, viveu por décadas no Peru, onde construiu sua missão pastoral. Talvez por isso, em sua primeira fala como Leão XIV, tenha se dirigido ao mundo em italiano e espanhol — deixando de lado, curiosamente, o inglês de sua terra natal. Ex-prefeito do Dicastério para os Bispos, cargo-chave da Cúria Romana, Prevost já influenciava a nomeação do alto clero mundo afora — um poder discreto, mas decisivo para costurar votos no conclave. Ao adotar o nome Leão XIV, alinha-se a uma linhagem de pontífices que evocam força doutrinária e coragem histórica: de Leão I, que enfrentou Átila, a Leão XIII, pioneiro na doutrina social da Igreja. Um Leão que ruge em espanhol, pensa em Roma e nasce sob a expectativa de unir os hemisférios sob um mesmo cajado.
10. O mundo em vigília
Oito décadas se passaram desde que Berlim caiu, o nazismo foi derrotado e o planeta pôde, por um breve instante, respirar aliviado. Mas quem viaja pela Europa nesta semana, e liga qualquer noticiário, vê as mesmas imagens — os tanques, os escombros, os olhos vazios de soldados vencidos e de civis libertos. Uma celebração da paz que não chegou a envelhecer. Porque o mundo, em 2025, vive sob o mesmo frio na espinha: a guerra na Ucrânia continua como um barril de pólvora à beira da OTAN; Israel e Gaza, mergulhados num ciclo de ódio que ameaça engolir o Oriente Médio; e Paquistão e Índia, ambos com arsenal nuclear, se encaram como touros em arena estreita. O mundo recorda os horrores da Segunda Guerra enquanto dança à beira de uma terceira. Há muito que se fala em paz — o problema é que ninguém mais sabe onde ela foi enterrada.











