Seus ladrões de estimação estão no poder


Quando ouvimos falar no Brasil em crime organizado logo imaginamos facções como o PCC e o Comando Vermelho planejando e executando assassinatos de rivais, assaltos a bancos e tráfico de drogas.
Mas talvez seja hora de atualizar o conceito — e incluir nele o que de fato o país tem de mais bem estruturado no ramo da delinquência: o crime organizado com carimbo estatal.
Sim, a prática delituosa agora também vem de crachá, CPF funcional e folha de pagamento pública. E, como tudo o que envolve engrenagens burocráticas, foi meticulosamente idealizado, perversamente engendrado.
Não foi um estouro de caixa eletrônico. Foi algo muito mais silencioso, contínuo, frio. Uma máquina de sugar os mais vulneráveis — com perícia técnica, parecer jurídico e acesso ao sistema de dados do INSS.
Fora tudo o que já se sabe sobre os mais de R$ 6 bilhões em descontos indevidos nas aposentadorias e pensões, novas revelações surgem a cada dia.
A Controladoria-Geral da União já identificou 59 inserções em massa com pelo menos 50 mil registros cada, que tiveram início a partir de 2016 e se acentuaram entre abril de 2023 e agosto de 2024, em pleno reinado do Pai dos Pobres.
É golpe com planilha e organograma. Quadrilhas que operam sem capuz, mas com procurador jurídico e convênio vigente.
As vítimas? Gente com nome, rosto e fragilidade: moradores de zonas rurais, indígenas, deficientes físicos, analfabetos, idosos sem acesso à internet ou sem condições de ir até uma agência da Previdência.
É um tipo de crueldade que nem o banditismo do século passado era capaz de fazer.
O cancelamento dos descontos? Praticamente impossível para quem vive nos confins do Brasil, onde nem as promessas da república chegam.
E a audácia não para por aí. O que parecia um escândalo monumental de mais de R$ 6 bilhões começa a parecer apenas a porta de entrada.
A Polícia Federal já mira agora os empréstimos consignados fraudulentos — muitos deles feitos sem autorização das vítimas. Em 2023, foram quase R$ 90 bilhões liberados, e parte disso, tudo indica, alimentou o mesmo sistema de corrupção.
Estima-se que mais de 35 mil reclamações formais tenham sido registradas só naquele ano. O volume final da pirataria pode passar dos R$ 200 bilhões.
O rastro do dinheiro revela a conexão: empresas que operavam os descontos indevidos repassaram valores a financeiras suspeitas de aplicar os empréstimos fantasmas.
Um sistema de dupla exploração — primeiro o desconto não autorizado, depois o crédito empurrado goela abaixo. A vítima ideal: quem mal consegue reagir.
E tudo isso só prosperou sob o solo fértil da impunidade, que transformou velhos escândalos em degraus para promoções futuras.
Figurões de destaque de outros governos petistas, que ontem estavam no banco dos réus, já voltaram a mandar na República disfarçados de gestores, ministros e assessores.
O Brasil é um país onde o crime cometido por gatunos de alto coturno não apenas compensa, mas permite reprises com aposentadoria integral, foro privilegiado e até legenda partidária.
Talvez estejamos diante do estágio mais evoluído da delinquência institucional: um Estado que confisca impostos extorsivos sem devolução em serviços, terceiriza o roubo a entidades amigas e opera fraudes em escala industrial sobre aposentados.
Só falta apontar uma arma na cara do cidadão e meter a mão no seu bolso.
Pode parecer um absurdo, mas, do jeito que as coisas vão, é bom não duvidar.











