OPINIÃO

Enquanto a fumaça branca não vem

Durante séculos, os conclaves vêm sendo organizados como se o tempo, lá dentro, obedecesse a outro calendário.

Nada de redes sociais, celulares ou vídeos clandestinos; ali, o silêncio é lei — e a fidelidade ao segredo, um sacramento.

O processo que elegerá o sucessor do Papa Francisco, que se inicia oficialmente nesta quarta-feira (7), já começou a ser desenhado nos últimos dias nos bastidores do Vaticano, com toda a liturgia que envolve o que talvez seja o evento mais secreto do planeta.

Na Capela Paulina, não apenas cardeais, mas também médicos, enfermeiros, ascensoristas, cozinheiros, motoristas e até o pessoal da limpeza prestaram um juramento solene diante das Escrituras.

Prometeram manter o mais absoluto silêncio sobre tudo o que direta ou indiretamente diga respeito ao conclave — sob pena de excomunhão, sim, esse rigor que há muito deixou de causar espanto por ali.

Durante os dias que durar a assembleia, os cardeais estarão hospedados na Casa Santa Marta, que pela terceira vez abriga os eleitores de um novo pontífice.

O edifício foi esvaziado por completo, e todos os demais hóspedes deslocados para casas paroquiais distantes. Só um nome destoará do rigor: o do cardeal Angelo Acerbi, com seus 99 anos, que permanecerá no local, embora já sem direito a voto.

Na Capela Sistina, o cenário é sagrado e vigiado. Não há sinal de celular, televisão ou jornais.

Equipamentos que bloqueiam qualquer tentativa de comunicação foram instalados tanto no local da votação quanto na residência onde os cardeais dormem e se alimentam.

Antes da abertura do conclave, técnicos farão uma varredura final, em busca de microfones ou câmeras escondidas. O ritual é meticuloso e austero.

Ainda assim, o cotidiano dos príncipes da Igreja dentro da clausura não é de penitência, ao menos à mesa.

As refeições seguem o ritmo italiano — com entrada, prato principal e sobremesa. Vinho é permitido, em doses discretas. Mas a cozinha guarda suas próprias regras: frangos inteiros e bolos, por exemplo, são vetados. Melhor prevenir do que permitir que uma mensagem secreta venha embutida entre camadas de glacê.

As normas que regem esse processo vêm sendo lapidadas há séculos. O Papa Gregório X, no longínquo 1274, foi quem formalizou o conclave como o conhecemos: fechado a chave, sem comunicação com o mundo exterior e com prazos definidos.

Para conter os exageros temporais que marcavam os pleitos papais da época — o seu próprio conclave durou dois anos e nove meses — ele instituiu regras draconianas.

Três dias para eleger. Depois disso, racionamento. A partir do oitavo dia, pão, vinho e água.

Hoje, embora sem a urgência do jejum forçado, espera-se um processo breve.

Os cardeais têm reiterado, em conversas internas, que desejam um Papa de perfil pastoral, com voz para os dramas contemporâneos e presença para os dilemas de um mundo em transformação.

Enquanto isso, olhos atentos se voltam ao céu de Roma. Lá, no alto da Capela Sistina, uma singela chaminé se torna o centro simbólico da cristandade.

De sua fumaça escura, ainda em marcha, virá — em tempo incerto e solene — o sinal claro de que um novo nome foi escolhido.

E então, só então, o mundo saberá: Habemus Papam.

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