Facções rompem aliança e escancaram o colapso do Estado


A república paralela acaba de divulgar, em tom solene e por meio de mensagens no WhatsApp, o fim de um acordo estratégico entre suas duas principais corporações: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
O comunicado — mais elegante que muito memorando oficial do Planalto — informa, comedidamente, o encerramento de um pacto que previa o compartilhamento de rotas de tráfico, divisão de honorários advocatícios e preservação de “vidas inocentes”.
Aparentemente, o crime brasileiro já goza de um nível de institucionalidade e protocolo que faria corar qualquer repartição pública.
De um lado, o crime organizado se organiza ainda mais. Do outro, o governo federal se atrapalha.
A mais recente gambiarra palaciana atende pelo nome de PEC da Segurança Pública — uma proposta de maquiagem legislativa que pretende convencer o eleitorado de que algo está sendo feito para enfrentar a criminalidade. Spoiler: não está.
Especialistas, entidades policiais e governadores já alertaram que a proposta, além de populista, é inócua.
Tenta, com malabarismo jurídico, centralizar o controle sobre as polícias estaduais, numa espécie de “intervenção branca”, e transformar um problema estrutural e multifacetado em discurso de palanque.
O cenário é ainda mais grave porque o crime organizado já não atua mais à sombra — age em plena luz do dia, com desenvoltura institucional e sem receios.
Seus líderes sentem-se encorajados por um ambiente de impunidade que se alastra pelo país: um sistema onde poderosos condenados por desvios de bilhões continuam soltos, multas milionárias são anuladas, e escândalos que chocaram o país acabaram em pizza gourmet.
Não se trata apenas de falhas operacionais na segurança pública.
Trata-se de um Brasil onde o exemplo do alto escorre pelas frestas e fertiliza o solo do crime com a mais potente das adubações: a certeza de que ninguém será punido de verdade.
E nesse teatro farsesco em que vivemos, as facções ainda nos oferecem um espetáculo à parte — e um tanto constrangedor.
No dia 28, com tom institucional e retórica diplomática, PCC e Comando Vermelho divulgaram seus respectivos comunicados sobre o fim da trégua.
Mensagens que, não fosse o conteúdo e a autoria, poderiam figurar em plenárias da ONU ou em discursos de campanhas eleitorais. Vejamos:
Disse o PCC:
“O objetivo principal sempre foi poupar vidas, especialmente de dezenas de pessoas inocentes que estavam perdendo suas vidas por pura banalidade. Nosso lema sempre foi e continuará sendo: ‘o crime fortalece o crime’. Permaneceremos abertos ao diálogo com todos que são a favor da paz.”
E respondeu o Comando Vermelho:
“A partir desta data (28), não mantemos mais qualquer aliança ou compromisso com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Reafirmamos que o respeito à vida humana deve estar acima de tudo e que princípios não mudam com alianças; nossa conduta é baseada em honra e responsabilidade.”
Sim, você leu certo. Paz, respeito à vida, honra, responsabilidade e diálogo. O vocabulário dos faccionados virou cartilha de relações institucionais. A ironia já não é mais recurso literário; é diagnóstico.
A proposta da PEC da Segurança surge justamente no momento em que se confirma o que todos já sabíamos: o crime não apenas se aprimora — ele se articula, se comunica, celebra tratados, dissolve joint ventures e até divulga comunicados públicos com mais transparência que o governo.
Ao invés de reforçar as fronteiras, investir na inteligência da Polícia Federal ou empregar as Forças Armadas no patrulhamento por onde entram drogas e armas de guerra (dessas que nem a polícia tem), o governo prefere entregar aos marqueteiros o bastão da segurança nacional.
E tudo isso vindo de uma administração tão desacreditada que já não consegue nem preencher suas cadeiras ministeriais com nomes que aceitem o convite.
É o retrato de um governo em estado terminal tentando parecer vivo na UTI da política.
Nesse vácuo de autoridade, o crime segue em frente — firme, moderno e com manual de governança. E quando encerra alianças o faz com nota oficial, senso de ocasião e, claro, objetivo estratégico.
Porque no Brasil de hoje, o crime não apenas compensa. Ele tem compliance.











