OPINIÃO

Bloco de Notas

1. A Argentina (finalmente) acerta

Depois de 80 anos mergulhada na alquimia populista do peronismo — um coquetel de subsídios, tarifas e desastres macroeconômicos — a Argentina começa a respirar. E não por milagre, mas por Milei. O presidente libertário, que chegou à Casa Rosada prometendo dinamitar o Estado paquidérmico, acaba de ser incluído na prestigiada lista da Time como um dos líderes mais influentes do mundo em 2025. A honraria vem respaldada por números que fariam qualquer economista ortodoxo soltar um “¡viva!”: inflação despencando de 300% para 67% em dois meses, pobreza recuando de 53% para 38%, expectativa de crescimento de 5% neste ano e, pasme, confiança internacional restabelecida — com um combo de US$ 42 bilhões em financiamentos do FMI, Banco Mundial e BID. Milei está fazendo o que nenhum outro emergente ousou: desmontar controles cambiais, cortar o cordão umbilical do clientelismo e apostar todas as fichas na liberdade econômica. A elite acadêmica, até então cética, se rende: “O compromisso de Milei com a ortodoxia macroeconômica é o mais forte da América Latina em décadas”, cravou Alejandro Werner, da Universidade de Georgetown. Se a Argentina, enfim, sair do buraco, a estátua de Perón pode muito bem ser substituída por um touro dourado da Bolsa de Valores de Buenos Aires.

2. O pecador e o pontífice

Escolhido pelo ano consecutivo como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time, Javier Milei segue surpreendendo — agora nos palcos mais espirituais do planeta. Em fevereiro de 2024, o outrora feroz crítico do Papa Francisco teve um tête-à-tête com o pontífice no Vaticano. Sim, aquele mesmo Milei que chamava o Papa de “imbecil” e “representante do maligno na Terra”. Pois é. Foi pedir desculpas. A conversa, segundo o presidente argentino, foi “divertida”. E o Papa, com aquele carisma meio jesuítico, meio peronista, respondeu à contrição com misericórdia e leveza: “São erros de juventude”. Ao que ambos concordaram: “Quando somos jovens, fazemos coisas estúpidas”. Mas o clímax da visita veio com a apresentação do rabino Axel Wanisch — guia espiritual de Milei e atual embaixador da Argentina em Israel. Axel, espirituoso como se espera de um bom rabino, anunciou: “Santo Padre, eu o trouxe de volta”. E Francisco, argentino e afiado, retrucou sem piscar, arrancando gargalhadas de todos: “Não, fique com ele!”.

3. Um país chamado Nepotistão

O escândalo do INSS, que já carrega nas costas o desvio estimado de R$ 6,3 bilhões dos cofres públicos (ou melhor, dos bolsos dos aposentados e pensionistas), agora exibe mais um tentáculo — desta vez, ligado diretamente ao ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que já foi ilustre togado do Supremo Tribunal Federal. Descobriu-se que o escritório do filho do ministro, Enrique Lewandowski, foi contratado em dezembro de 2024 para defender uma das entidades investigadas no esquema: o CEBAP — Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas. Detalhe: o contrato foi firmado quando a CGU já estava com a lupa em cima do caso. Ou seja, não foi coincidência. Foi providência. Mas essa afetuosa coincidência vem ocorrendo frequentemente com outros magistrados do STF. O Banco Master, alvo de suspeitas sobre solvência e agora de uma operação de resgate via Banco de Brasília, também recorreu a um toque especial: contratou a esposa do ministro Alexandre de Moraes. E a JBS, aquela mesma que devia bilhões em multas da Lava Jato e teve tudo cancelado num passe de toga, é defendida por quem? Pela esposa do ministro Dias Toffoli. No Brasil, é comum ouvir que “a justiça é cega”. Mas pelos honorários certos, ela enxerga parentes muito bem.

4. Corrupção, em modo avião

O Congresso está parado. Deputados e senadores estão de braços cruzados, o governo emperra e Brasília parece funcionar em modo avião — só recebendo chamadas de interesses inconfessáveis. Nos bastidores, entreveros por cargos, emendas e blindagens recheiam o silêncio das votações. A democracia está em stand-by. A corrupção, não. Na cúpula da desordem, o roteiro é digno de uma tragicomédia tropical. Collor, condenado pelo STF, foi premiado por Lula com duas diretorias na BR Distribuidora. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, reaparece como protagonista da fraude no INSS — a mesma pasta de onde foi ejetado por Dilma em 2011 por denúncias parecidas. É a volta dos que nunca foram. E enquanto os cofres públicos esvaziam, o governo trata de encher outros bolsos: 323 aliados do Planalto — entre ministros, assessores e apadrinhados do Congresso — foram nomeados para conselhos de estatais e empresas com participação da União. Jetons mensais para quem merece… fidelidade. Eis por que privatizar estatais nunca será uma prioridade do PT: quem governa pelo compadrio não abre mão do almoxarifado. Tem mais. A Polícia Federal reabriu as cortinas sobre os famigerados respiradores da pandemia, comprados sem licitação devido à urgência, pagos antecipadamente e nunca entregues. A operação, envolvendo mais de 48 milhões de reais, orquestrada pelo consórcio Nordeste, foi liderada por Rui Costa, então governador da Bahia e hoje chefe da Casa Civil. Dos hospitais à Esplanada, o fôlego segue curto. E no meio dessa sinfonia desafinada, uma nota afinada com o poder: o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (o poético Sindnap), onde Frei Chico — irmão de Lula — ocupa a vice-presidência, recebeu repasses que saltaram de R$ 23 milhões, em 2020, para R$ 154 milhões em 2024 — um crescimento de 564%. Tudo no mesmo modelo das fraudes investigadas pela Operação Sem Desconto: descontos compulsórios, não autorizados, direto no contracheque dos velhinhos. Os Robin Hoods às avessas. E a fila do INSS, que Lula na campanha prometeu zerar? Passou de 2,5 milhões de brasileiros esperando atendimento. Mas, como se vê, o sistema está longe de parado. Só atende a outros interesses. Alguém está surpreso?

5. Shoppings resistem — e se reinventam

Enquanto o varejo tradicional patina com os juros altos, o consumo retraído e a inflação fazendo piruetas no carrinho do supermercado, um setor segue firme, perfumado e com estacionamento coberto: os shoppings. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers, nada menos que 1.800 marcas inauguraram lojas apenas no último trimestre de 2024 — um salto de 4,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. E o ritmo vem se mantendo em 2025: os indicadores do primeiro quadrimestre continuam apontando crescimento nas vendas e dinamismo no segmento. A explicação está no ecossistema que os shoppings vêm aperfeiçoando: conforto, segurança, ar-condicionado, boa gastronomia, lazer, serviços, conveniência — tudo em um só lugar. Cada vez mais, esses espaços incorporam facilidades que os transformam em centros multifuncionais, com academia, coworking, escolas, clínicas e muito mais. É o consumo integrado à vida urbana. No fim das contas, os shoppings seguem sendo aquilo que sempre prometeram ser: um pouco de tudo no mesmo lugar — com ar fresco, segurança e um cafezinho esperando na saída.

6. Gravata recusada, carne aprovada

O presidente do Chile, Gabriel Boric, esteve em visita oficial ao Brasil e percorreu os corredores do poder: Planalto, Senado e Supremo Tribunal Federal. No STF, foi recebido por Luiz Roberto Barroso — que, agora, adotou o hábito de presentear visitantes com uma gravata azul da Corte. Boric aceitou o presente, mas evitou ser fotografado com ele. Zeloso de sua imagem institucional, preferiu não ser associado a símbolos locais. Em tempos de gestos fáceis e selfies desatentas, vale o registro. Mas quem saiu ganhando, mesmo sem participar dos convescotes oficiais, foi o governador do Paraná, Ratinho Júnior. Durante a visita, os chilenos anunciaram que começarão a importar carne suína do estado — um reconhecimento direto ao status sanitário do Paraná, já consolidado como área livre de febre aftosa sem vacinação. A medida abre as portas de mais um mercado exigente para a pujante suinocultura paranaense. Ironia fina da diplomacia: Boric veio visitar Lula, mas quem levou a melhor foi um potencial adversário dele em 2026.

7. Tarcísio e a poltrona paulista

Nos bastidores da sucessão presidencial de 2026, o nome do governador Tarcísio de Freitas desponta como o plano B mais sólido da direita, caso a inelegibilidade de Jair Bolsonaro se mantenha — o que, até aqui, é o cenário mais provável. Fora a hipótese pouco provável de Michelle Bolsonaro assumir o posto, Tarcísio é o favorito nas bolsas de apostas políticas. À sua sombra, correm também Ratinho Júnior, Zema e Caiado, mas com uma diferença crucial: todos já estão no segundo mandato no comando de seus Estados e, portanto, não têm mais nada a perder. Já Tarcísio, não. Ele ainda tem um trono para preservar. Por isso mesmo, vem deixando claro — sempre em tom reservado — que não pretende se desincompatibilizar do cargo em abril de 2026 para disputar o Planalto. A decisão repousa sobre três pilares. O primeiro é o risco político: deixar o governo de São Paulo com seis meses de antecedência, sem a garantia de que será o nome da direita na cabeça da chapa — ainda mais com Bolsonaro esticando a corda até o último minuto. Ninguém quer largar o timão para virar marinheiro de bote. O segundo ponto é o cálculo eleitoral. Embora Lula enfrente rejeição crescente, aliados de Tarcísio consideram possível que o presidente recupere terreno até lá — o que tornaria a aventura presidencial ainda mais incerta. E o terceiro fator é mais doméstico, mas não menos relevante: a família do governador está bem adaptada à capital paulista e pouco animada com a ideia de mudança. Além disso, há uma motivação de gestor: Tarcísio quer ver os frutos de sua agenda de concessões e parcerias público-privadas. Só em 2025, estão previstos onze leilões de infraestrutura no estado. Ele sabe que, em tempos de política líquida, obra concreta também elege. E, convenhamos, não é todo dia que alguém lidera com folga a corrida pela reeleição em São Paulo, a locomotiva econômica do país. O Planalto pode esperar.

8. Nem só de Disney vive Orlando

Para o brasileiro, a palavra “Disney” virou sinônimo de um tipo muito específico de sonho: aquele que se vive em fila, com mapa na mão, Mickey no horizonte e um brilho infantil no olhar — mesmo quando se tem 40, 50, 60 anos e a desculpa oficial é levar o netinho pela primeira vez. Dizer “vamos para a Disney” já se tornou expressão nacional, código afetivo para qualquer viagem a Orlando — mesmo que o destino final não tenha nada a ver com o Pato Donald. Na verdade, os parques na Flórida são brinquedos para crianças de todas as idades: a criança de verdade, o adolescente, e aquela que todos carregamos dentro de nós por toda a vida. Mas a Flórida, sempre pródiga em reinvenções e megaprojetos, está prestes a alterar o vocabulário turístico dos brasileiros — e de metade do planeta. É que, no dia 22 de maio, a Universal inaugura seu mais ambicioso empreendimento: o Epic Universe, o quarto parque do seu complexo em Orlando e a maior inauguração do tipo na região em 25 anos. São 50 atrações distribuídas em cinco áreas temáticas: o Ministério da Magia (uma nova ala do Mundo Mágico de Harry Potter), o colorido e hiperativo Super Nintendo World, a Ilha de Berk de “Como Treinar o Seu Dragão”, o misterioso Dark Universe e o exuberante Celestial Park. Tudo isso inserido em uma área de 3 milhões de metros quadrados, com lojas, restaurantes e três novos hotéis — Helios Grand, Stella Nova Resort e Terra Luna Resort — que acrescentam mais 2.000 quartos ao portfólio da Universal.

O investimento? Estima-se algo em torno de US$ 7 bilhões. E o impacto econômico, como sempre na Flórida, é colossal: 17.500 novos empregos diretos já no primeiro ano e US$ 2 bilhões em receitas projetadas para o estado, segundo estudo da University of Central Florida. Desde o início da construção, a movimentação gerada já supera os US$ 11 bilhões, com 65 mil empregos criados. Trata-se de um fenômeno que vai além das catracas. O CEO da Associação Internacional de Parques de Diversões, Jakob Wahl, explica que o Epic Universe já impulsiona o entorno: infraestrutura, moradias, restaurantes e serviços surgem onde antes havia apenas promessa e terraplanagem. E o estado da Flórida, que já lidera indicadores de crescimento e geração de empregos nos EUA, reforça sua posição como uma potência à parte — um país dentro do país. Em 2023, Orlando recebeu 74 milhões de turistas. O Brasil, para efeito de comparação, bateu seu próprio recorde histórico com 6,6 milhões. Em Orlando, o turismo não é só entretenimento: é PIB. E tudo indica que o Epic Universe deve aumentar ainda mais essa distância sideral entre quem sonha e quem realiza. Então, da próxima vez que alguém disser “vou para a Disney”, talvez seja bom perguntar: qual delas? Porque a Flórida, essa fábrica de fantasias em série, acaba de adicionar mais um universo ao seu portfólio de sonhos.

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