OPINIÃO

Como o governo está matando a nossa galinha dos ovos de ouro

Em tempos de discursos inflamados sobre “soberania nacional” e “defesa do povo”, Brasília parece estar praticando um curioso esporte: atacar justamente uma das instituições que mais colaboraram para o Brasil sair da condição de país dependente e se tornar uma potência global no agronegócio.

A vítima da vez é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, que desde 1973 é a principal responsável pela revolução verde tropical que transformou o Brasil de importador de alimentos em uma superpotência mundial na produção de grãos e carnes.

Mas a estatal, que carrega nas costas metade da balança comercial brasileira e é peça-chave para os 22% do PIB oriundos do agronegócio, vê hoje suas entranhas financeiras sendo dilaceradas sem alarde. Desde 2014, a Embrapa já perdeu quase 60% da verba federal destinada à pesquisa e inovação tecnológica. E a tesoura segue afiada: o orçamento de 2025 já começa com um rombo de R$ 26 milhões.

Enquanto isso, laboratórios sem luz e relatos de atrasos no pagamento de terceirizados se acumulam. Experimentos de altíssima importância — alguns mantidos em ambientes climatizados, sem os quais amostras e pesquisas podem ser perdidas — estão à beira da interrupção.

E como se não bastasse esse cenário de penúria, o mesmo governo que estrangula financeiramente uma das mais importantes instituições de ciência e tecnologia do país destina, sem cerimônia, R$ 750 milhões ao Movimento Sem Terra, cuja especialidade é invadir e depredar propriedades rurais, gerar insegurança jurídica no campo e até mesmo ocupar e destruir centros de pesquisa da própria Embrapa. Sim, a mesma Embrapa que desenvolve tecnologias voltadas justamente para a agricultura familiar, o setor que o MST diz representar.

É o retrato acabado da má vontade política: dinheiro farto para o conflito e o atraso, e miséria orçamentária para a ciência que transforma.

Seria inocente achar que isso se trata apenas de contenção fiscal. No atual governo, o corte virou uma ferramenta política direcionada. O agronegócio, setor que garante divisas, empregos e alimentos, nunca foi exatamente um queridinho dos atuais inquilinos do Palácio do Planalto — ao contrário, virou alvo recorrente da retórica ideológica, especialmente nos palanques.

Mas desta vez, a tesourada não atinge só grandes produtores. A Embrapa é estratégica para toda a cadeia produtiva rural, da agricultura empresarial à agricultura familiar. São tecnologias para grandes e pequenos produtores, pesquisas para aumento de produtividade e sustentabilidade, desenvolvimento de novas cultivares e sistemas de produção mais eficientes. Ou seja, a asfixia da Embrapa impacta de norte a sul, do pequeno agricultor ao megaexportador.

A questão vai além da economia rural. O que está em jogo é a soberania tecnológica, ambiental e econômica do país. O corte sistemático de recursos pode arrastar o Brasil para fora da liderança mundial em inovação agrícola e biotecnologia, abrindo espaço para concorrentes internacionais assumirem o protagonismo que hoje nos pertence.

Os especialistas alertam: estagnar a Embrapa é colocar o Brasil em rota de declínio no campo. Sem inovação contínua, a produtividade cai, a competitividade se reduz e a dependência externa retorna. Mas o governo de plantão parece mais preocupado em marcar posição política do que em garantir que o país continue a alimentar o mundo — e a si mesmo.

Ao mesmo tempo em que nos discursos oficiais reina o mantra da “sustentabilidade” e da “defesa da soberania”, a prática é o oposto. Um governo que, por birra ideológica, enfraquece seu setor mais robusto e estratégico, demonstra não apenas um erro político, mas um plano deliberado de desmonte silencioso, dentro de um projeto de vingança contra um segmento do eleitorado majoritariamente antipetista.

A Embrapa nunca foi um ativo de uma só classe ou de um só setor. É uma das mais bem-sucedidas expressões da ciência brasileira aplicada ao interesse coletivo. Enfraquecê-la, seja por desdém ou cálculo político, é um tiro no próprio pé de um país que se orgulha de ser celeiro do mundo.

A pergunta que fica é: até quando Brasília vai continuar jogando contra o próprio time?

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