OPINIÃO

Bloco de Notas

1. Itaipu e o “Orçamento das Sombras”

A revelação do orçamento da usina de Itaipu para 2025 deixou todo mundo de cabelo em pé. Mais da metade dos 15,8 bilhões de reais aparece sob aquela rubrica mágica chamada “Outros”, que, em bom português, significa: ninguém sabe, ninguém viu. Uma verdadeira caixa-preta que, por ser entidade binacional, não responde ao Tribunal de Contas da União (TCU) e nem a qualquer outro órgão fiscalizador brasileiro. Em vez de aliviar o bolso do consumidor e baixar a conta de luz, o dinheiro se esconde nas frestas da burocracia e some sem vestígios. Itaipu vai, assim, se consolidando como a “Casa da Mãe Joana Hidrelétrica”, onde o fluxo é livre, mas a transparência, nem tanto.

2. As joias e o fim da novela mexicana

Finalmente chegou ao último capítulo a novela das joias sauditas. O Tribunal de Contas da União decidiu que os mimos recebidos por presidentes e vices em viagens internacionais — por mais brilhantes que sejam — não precisam virar patrimônio público. Ou seja, Bolsonaro fica com os diamantes e Lula pode seguir com seu Rolex francês sem peso na consciência ou no cofre da União. O TCU reconheceu que falta lei clara sobre o tema e que não dá para sair confiscando tudo que brilha. Como num bom folhetim latino-americano, a trama teve drama, exagero e, claro, final previsível: cada um sai com sua lembrancinha de luxo na mala.

3. Merval e o déjà vu do desastre

Quando Merval Pereira desce do muro e faz ecoar sua voz pelo O Globo, é porque o recado vem da direção da casa. E o aviso da vez foi direto ao ponto: “Lula está repetindo Dilma”. Na análise, o colunista afirma que o governo flerta perigosamente com o mesmo desenvolvimentismo que quebrou o país anos atrás. Segundo ele, Lula está hipnotizado pelos bons números iniciais e se arrisca a dobrar a aposta — com o mesmo resultado conhecido: recessão, juros altos e o “filme repetido” do descontrole fiscal. O tom do Merval é de quem viu esse filme no cinema e não quer assistir de novo no streaming. E o mercado? Este já está na poltrona, antecipando o final.

4. Curitiba mira alto com projeto bilionário no Pinheirão

Do antigo abandono ao centro das atenções: o Pinheirão, em Curitiba, deve virar um complexo multiuso com investimento previsto de R$ 1 bilhão. O governo do Paraná planeja transformar a velha área de 124 mil metros quadrados em uma arena moderna, com centro de convenções, hotel, boulevard e estrutura para grandes shows, feiras e eventos esportivos. Ratinho Junior não esconde o objetivo: “Curitiba precisa de uma estrutura de peso para concorrer com São Paulo e receber eventos de grande porte”, afirmou o governador, que vem usando o projeto como mais uma peça-chave na estratégia de atrair grandes investimentos para o Estado. O plano envolve, ainda, parceria com a prefeitura para ajustes no Plano Diretor e melhorias de mobilidade na região do Tarumã. A promessa é que o empreendimento, previsto para ir a leilão em 2025 na Bolsa de Valores de São Paulo, ajude a consolidar Curitiba como hub de eventos internacionais — com efeitos positivos em toda a economia paranaense.

5. O Convescote da Suprema Corte

Às vésperas do julgamento que pode selar o destino de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes decidiu reunir parte do STF em um jantar — e não foi qualquer jantar. O encontro, que reuniu oito dos onze ministros do Supremo, membros do governo Lula e figuras de peso da República, foi descrito pela imprensa como uma “demonstração de força e prestígio”. Mas poderia muito bem ter sido rotulado como um convescote institucional, desses que só acontecem em Brasília. Curiosamente, três ministros presentes no banquete irão votar na denúncia contra Bolsonaro na próxima semana. Tudo regado a vinho, boa gastronomia e um clima de… harmonia entre os Poderes, claro. Se fosse a Força-Tarefa da Lava Jato promovendo um jantar para o juiz Moro e advogados da Petrobras, provavelmente a operação estaria de pé até hoje — e com aplausos do Supremo. Mas quando a toga confraterniza com o Planalto, está tudo dentro da mais absoluta normalidade institucional. Um brinde à “imparcialidade”.

6. OEA liga o alerta: Brasil virou cemitério de provas

Nem a Organização dos Estados Americanos conseguiu mais ficar calada diante do cenário tropical que se instalou no Brasil. Em nota recente, a OEA alertou que as decisões do ministro Dias Toffoli — que anularam provas obtidas pela Lava Jato — ameaçam a segurança jurídica e podem minar a confiança pública nas instituições. A entidade não precisou dizer com todas as letras, mas a mensagem é cristalina: o país virou um paraíso da impunidade. A Odebrecht, que já confessou crimes em mais de dez países, agora vê seus acordos no Brasil evaporarem no calor das togas. Provas enterradas, multas suspensas e o risco de que bilhões em corrupção jamais sejam revelados. A OEA ainda alertou que “não é digno que o Brasil se torne um cemitério de provas sobre corrupção transnacional”. Mas por aqui, ao que parece, as lápides estão sendo fincadas a cada decisão judicial. O cartel respira aliviado.

7. Seis anos de inquérito: democracia em banho-maria

Seis anos depois da abertura do inquérito das fake news, Brasília continua na mesma toada: democracia sob sigilo e investigação sem prazo de validade. Iniciado por Toffoli e entregue de bandeja a Alexandre de Moraes, o inquérito já virou uma epopeia jurídica com capítulos que nem Kafka escreveria. A pretexto de salvar a democracia, já serviu para censurar veículos de imprensa, criminalizar críticas legítimas, violar a imunidade parlamentar e até vigiar pensamentos privados. O Brasil assiste, perplexo, a criação de crimes de opinião e censuras prévias, tudo sob o manto da “defesa institucional”. E, claro, sem previsão de fim. Não há spoiler: o processo segue sem desfecho e a democracia vai sendo erodida lentamente, como bem apontou a Gazeta do Povo.

8. Juros nas alturas e o Planalto com a torneira aberta

A taxa básica de juros agora está nos 14,25%, o mesmo patamar amargo dos tempos de Dilma. Mas, ao contrário das narrativas palacianas, o vilão não está no Banco Central. O aumento é para conter a inflação provocada pela farra fiscal do Planalto, que segue enchendo o país de gastos enquanto desorganiza as contas públicas. A equação é velha conhecida: governo torra o que tem (e o que não tem), tenta ganhar apoio com ministérios e programas, e o Banco Central, na ponta, vira bombeiro, subindo juros para conter o incêndio inflacionário. Enquanto isso, o contribuinte paga a conta com alimentos mais caros e uma economia patinando. Nada de novo no paraíso do descontrole.

9. Vacinas no forno: 1,5 bilhão em cinzas

O Ministério da Saúde incinerou 56,5 milhões de doses de vacinas entre 2023 e 2024, o equivalente a R$ 1,5 bilhão virando fumaça. A lista de imunizantes descartados inclui vacinas contra Covid, gripe, tuberculose, febre amarela e cólera. Explicações técnicas não faltam: validade vencida, armazenamento errado, problemas nos recipientes. Mas o diagnóstico real é outro — má gestão, pura e simples. Em um país assolado por doenças e campanhas de vacinação com baixa adesão, é escandaloso ver recursos dessa magnitude irem para o lixo. Resultado: um misto de irresponsabilidade administrativa e descaso com a saúde pública. O desperdício que empobrece e adoece.

10. Três bi para vender ilusão

Enquanto hospitais públicos penam sem remédios, pacientes aguardam anos na fila por uma cirurgia de hérnia e escolas caem aos pedaços, o governo encontrou um setor estratégico para investir: a própria imagem. Serão módicos 3 bilhões de reais destinados à propaganda oficial. Isso mesmo: sem dinheiro para segurança pública, sem verbas suficientes para infraestrutura básica, mas com generosidade de sobra para tentar convencer o brasileiro de que tudo está indo às mil maravilhas. O país naufraga em problemas crônicos, mas o contribuinte pagará, sem direito a reembolso, pela campanha publicitária que dirá o contrário. O resumo? Vamos financiar o governo para que ele nos conte, em cadeia nacional, que estamos melhor do que de fato estamos. Propaganda é a alma do negócio, ainda mais quando falta produto.

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