OPINIÃO

O desmancha-prazeres que está ousando contrariar a festa

Eis que, no meio do baile silencioso e bem coreografado que livra figurões da Lava Jato de qualquer incômodo judicial, surge um convidado inconveniente: o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet.

Logo ele, que é da turma, indicado por Lula, com o crachá carimbado da harmonia institucional, apareceu para atrapalhar o negócio e entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal para tentar reverter a decisão do ministro Dias Toffoli que, gentilmente, passou a régua nos processos contra Antônio Palocci, o notório ex-ministro de Lula e Dilma.

Sim, Palocci, aquele que não apenas confessou crimes como fez uma delação digna de enciclopédia: mais de R$ 333 milhões em propinas arrecadadas e repassadas por empresas, bancos e indústrias a políticos e partidos variados durante os governos petistas. O sujeito abriu a alma e contou tudo.

Mas, para Toffoli, essas histórias somem num passe de mágica quando o STF, com seu tradicional toque de Midas, transforma processos criminais em poeira de rodapé.

Mas Gonet, veja só, resolveu se meter no roteiro. Na apelação, o procurador diz o que só um desavisado ou alguém com espírito cívico diria em Brasília que a vinculação de Palocci à Lava Jato é legítima e que as provas continuam robustas e sólidas. Ora, Gonet, para quê isso agora? Não vê que o clima era de “tudo resolvido”? Que a maré é boa para a turma do “descomplica STF S/A”?

Pior: o procurador ainda se dá ao trabalho de argumentar que o pedido de Palocci, que deu origem à decisão-relâmpago de Toffoli, não apresenta vício processual real, só um desejo (digamos assim, bem humano) de se livrar das provas. Uma pretensão modesta para os padrões de Brasília, é verdade.

E, claro, para deixar a situação ainda mais risível, o acordo de delação de Palocci segue intacto. Ou seja, ele continua sendo oficialmente um réu confesso, delator de uma dinheirama indecente, mas agora sem processos para chamar de seus. Um delator sem delito pendente. Um fenômeno da engenharia jurídica nacional. A cereja do bolo.

Enquanto Toffoli estende a Palocci o benefício que já serviu a Lula e outras celebridades do mensalão e do petrolão, Gonet desponta no meio do salão, estraga a música, derruba o ponche e ainda pede que Toffoli reconsidere ou, pior, que leve a decisão ao plenário. É quase um convite para botar fogo no parquinho.

No fundo, ninguém esperava esse pequeno “racha” no time. Afinal, não é todo dia que o maestro da PGR desafina enquanto a orquestra do sistema toca a velha sinfonia da impunidade.

Pelo visto, até ele deve estar achando que a zorra já foi longe demais.

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