Bloco de Notas


1
Se a ideia era passar uma imagem de seriedade e equilíbrio, o interrogatório conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes com o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, conseguiu exatamente o oposto: causar constrangimento até mesmo entre os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal. E olha que, para constranger quem veste toga na mais alta corte do país, é porque o nível de exagero já ultrapassou qualquer limite tolerável. Nos vídeos e áudios revelados recentemente, o espetáculo de pressão explícita beirou o que muitos chamariam, sem medo de exagerar, de tortura psicológica. O próprio ministro, em um ato que mais parece ter saído de um manual de interrogatório medieval, sugere – de maneira nada sutil – que a família de Cid poderia acabar pagando o preço se ele não “colaborasse” devidamente. É claro, tudo isso sob a elegante fachada de “buscar a verdade”. O advogado de Bolsonaro, Celso Vilardi, resumiu bem o absurdo do momento em entrevista à GloboNews: “Pode isso? O juiz da causa pode ameaçar um colaborador dizendo que ele perderá imunidade para sua filha, sua mulher, seu pai? Pode o juiz fazer o papel de investigador e acusador ao mesmo tempo?” A resposta, em qualquer democracia minimamente saudável, deveria ser um sonoro não. Mas no Brasil, aparentemente, as regras são moldadas ao gosto da toga. O mais irônico – ou trágico, dependendo do ponto de vista – é que tudo aquilo que se criticava na época da Operação Lava Jato (acusada de abusos, parcialidade e perseguições seletivas) agora parece brincadeira de criança diante do que estamos presenciando no STF. O ministro Alexandre de Moraes levou o conceito de pressão a um novo patamar: se Cid já havia falado tudo o que sabia, o clima criado na audiência mais parecia o de alguém sendo forçado a inventar novas informações, se necessário, apenas para satisfazer a fome por mais manchetes. O que impressiona, além da violência simbólica evidente, é o fato de que, se estivéssemos em um país com uma justiça verdadeiramente equilibrada, o mínimo que se esperaria seria a suspeição imediata do ministro. Afinal, quando um juiz passa a agir como investigador e acusador, o julgamento perde qualquer aparência de imparcialidade. Mas, no Brasil de hoje, parece que as togas mais poderosas não se contentam em interpretar a lei – agora, escrevem as regras do jogo conforme o momento exige. E quem ousa questionar? Bem, se até os próprios ministros andam constrangidos, imagine o cidadão comum, que apenas observa, de longe, a mais nova encenação de uma justiça que há tempos deixou de ser cega… e agora enxerga exatamente quem precisa ser punido, antes mesmo do julgamento começar.
2
Para quem pensa em associar a sua marca ao show da Lady Gaga na Globo, é melhor já ir afinando o bolso. A emissora carioca abriu as cotas de patrocínio da transmissão oficial do evento, marcado para o dia 3 de maio na Praia de Copacabana, e os valores são dignos de um verdadeiro monster hit. Segundo o Brazil Journal, as cotas foram batizadas com nomes de álbuns icônicos da cantora: The Fame (R$ 10 milhões), Chromatica (R$ 9 milhões) e Artpop (R$ 8 milhões). É isso mesmo, minha gente, a fama custa caro — e, no caso, pelo preço de um desses pacotes, você pode escolher entre patrocinar o show ou comprar, digamos, uns dois apartamentos de frente para o mar… em Copacabana. E não se engane achando que basta pagar e deixar a mágica acontecer. Como destacou um executivo do mercado, para fazer valer o investimento, a marca precisa colocar a criatividade pra jogo – afinal, não basta aparecer, tem que brilhar com uma campanha à altura da estrela principal. Ah, e um detalhe importante: nem pense em usar a expressão “o show da Lady Gaga” se não for patrocinador oficial. A menos que a sua empresa queira cantar no karaokê jurídico da emissora. No fim das contas, associar a marca ao evento é, sim, uma grande jogada de visibilidade – mas não dá pra negar: é um investimento que poucas empresas podem se dar ao luxo de bancar. Enquanto isso, o resto de nós se contenta em assistir (e comentar no Twitter) de graça, direto do sofá.
3
Parece que as críticas internas e a impopularidade crescente não tiraram o sono do presidente Lula. Segundo a coluna Radar, da revista Veja, o petista já avisou aos mais chegados que, em junho, vai dar uma escapadinha para Paris. Afinal, nada melhor do que um passeio pela Cidade Luz para esquecer as sombras que pairam sobre o governo – e, claro, com a companhia inseparável da primeira-dama, Janja, parceira de viagens (e de selfies) de todas as horas.
Agora, fica a torcida de todos nós, humildes pagadores de impostos, para que essa viagem seja paga do próprio bolso – o que, convenhamos, seria uma surpresa mais rara do que ver o trânsito de Paris fluir sem engarrafamentos. Isso porque, sempre que o casal presidencial resolve cruzar fronteiras, a comitiva é digna de um sultão árabe em visita diplomática: assessores, ministros, cabos eleitorais, carregadores de mala invisíveis… e, óbvio, tudo com custos perdulários (ou melhor, extravagantes mesmo) que invariavelmente vão parar na conta de quem? Do contribuinte brasileiro, é claro. E se alguém ainda acha que essa é só mais uma viagem de trabalho disfarçada de turismo, é bom lembrar que, nos últimos tempos, até as viagens internacionais têm sido mais raras — em parte pelas demandas internas, em parte por questões de saúde. Agora, com Paris no horizonte, só nos resta esperar que, ao menos desta vez, o Louvre não custe tão caro para o nosso bolso.
4
Protagonizando um dos capítulos mais inusitados da política brasileira, o Partido da Causa Operária (PCO), conhecido por sua retórica de esquerda radical, resolveu estender uma solidariedade inesperada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. No editorial intitulado “O Golpe da Tentativa de Golpe”, o partido afirma que a denúncia da PGR contra Bolsonaro faz parte de uma conspiração, não contra a democracia, mas contra o povo brasileiro. Na opinião do PCO, os verdadeiros golpistas não são os bolsonaristas, mas sim o STF, a PGR, a Polícia Federal, a Rede Globo e, claro, os velhos rivais tucanos — os mesmos que, na visão do partido, teriam orquestrado o “golpe” de 2016. A nota ainda ironiza os que lutam “contra o golpe” ao lado dessas instituições, afirmando que, na verdade, são eles as verdadeiras vítimas da conspiração. Em um movimento digno de um roteiro político surreal, a esquerda radical se vê, ao menos momentaneamente, de braços dados com a direita bolsonarista, tudo em nome de um inimigo comum: o sistema que, na avaliação do PCO, manipula a justiça para eliminar adversários políticos. Diante das arbitrariedades que estamos assistindo, faz todo sentido.
5
Como se estivesse em um stand-up político, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, resolveu soltar uma daquelas frases que merecem ser emolduradas: “Um governo com orçamento equilibrado é condição para o desenvolvimento sustentável do país, inclusive para levar a inflação e os juros para baixo.” Bonito, não? Quase uma poesia econômica. O problema — ou a piada pronta — é que Haddad parece esquecer (ou finge muito bem) que ele próprio é ministro da Fazenda desse governo. Sim, aquele mesmo que trata o equilíbrio fiscal como se fosse uma lenda urbana e corta gastos públicos com a mesma frequência com que corta bolo de aniversário: quase nunca. Um governo que, na prática, segue a velha cartilha do populismo disfarçado de preocupação social, onde o verdadeiro “equilíbrio” é o das contas eleitorais, e não das públicas. O mais divertido — ou trágico, dependendo do humor de quem lê — é que Haddad parece um ministro em um universo paralelo, cheio de boas intenções e frases de efeito, enquanto seu chefe, o presidente Lula, segue na direção oposta, com aquela velha obsessão de gastar como se não houvesse amanhã. Afinal, quem precisa de responsabilidade fiscal quando se tem uma eleição no horizonte? E aí vem a cereja do bolo: o ministro ainda afirma que o governo está “obcecado por crescimento com inflação baixa”. Obcecado? Só se for por fazer o oposto, porque o que se vê é uma obsessão por aumentar gastos, criar novos programas sem lastro e empurrar o ajuste fiscal para o próximo governo — aquele que, provavelmente, vai herdar a conta e o caos. Resumindo, Haddad parece aquele funcionário que dá a palestra sobre eficiência enquanto a empresa pega fogo atrás dele. A pergunta que fica é: será que ele já tentou combinar o discurso com o chefe? Porque, do jeito que as coisas vão, as únicas coisas que estão equilibradas nesse governo são as prioridades eleitorais e os gastos desenfreados. E, obviamente, tudo isso com o contribuinte pagando a despesa.
6
Mal começou o processo, e o destino de Jair Bolsonaro já parece mais traçado do que final de novela ruim: condenado antes mesmo do capítulo final. A denúncia recém-apresentada pela Procuradoria-Geral da República, assinada pelo procurador Paulo Bonet, chega com toda a pompa de um documento “técnico” e “imparcial”. Mas, ao olhar mais de perto, o que se encontra não é justiça cega – é uma justiça que, curiosamente, enxerga até demais, e sempre para o mesmo lado. O ponto central do enredo é a famosa delação de Mauro Cid, o ex-ajudante de ordens transformado em estrela de “colaboração premiada”. A PGR fez questão de incluir as falas que incriminam Bolsonaro, mas, numa distração digna de amadorismo ou de um descuido “acidental”, omitiu aqueles trechos incômodos em que Cid, veja só, admite não ter certeza se o ex-presidente sabia de algum plano golpista. Ora, por que estragar uma boa narrativa com detalhes que possam relativizar as acusações, não é mesmo? O mais interessante – para não dizer irônico – é a pressa com que tudo isso avança. A ansiedade parece ser tanta que juízes que ainda nem começaram a julgar o caso já fazem declarações públicas que, pasme, soam como pré-julgamentos. Afinal, por que esperar provas robustas ou o devido processo legal quando o veredito já está praticamente impresso? É como se o roteiro já tivesse sido escrito, e agora só restasse seguir o script até o resultado inevitável: tirar Bolsonaro da eleição de 2026. E, claro, todo esse espetáculo acontece em nome da “defesa do Estado de Direito”, ainda que, paradoxalmente, venha atropelando normas jurídicas, a Constituição e qualquer resquício de imparcialidade no caminho. Quem se importa com garantias legais ou o devido processo quando a verdadeira prioridade parece ser a eliminação de um adversário político do jogo democrático? Independentemente de se gostar ou não de Bolsonaro – e aqui nem se entra no mérito das acusações – o que se vê é um processo judicial que mais parece um ato político disfarçado de justiça. A pressa em afastá-lo das eleições de 2026 não é apenas evidente, é descarada. E, para quem ainda acredita em julgamentos justos e imparciais, o que sobra é uma amarga constatação: quando a justiça começa a escolher seus alvos, todos nós corremos o risco de sermos os próximos.











